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Budapeste: entre o passado e futuro, refugiados resistem a ataques neonazistas e recebem solidariedade húngara

4 de Setembro de 2015, 15:35 , por Alan Freihof Tygel - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Fotos: Flávio Chedid

Budapeste é um dos principais centros turísticos do leste europeu. Seus belo edifícios e o Rio Danúbio atraem visitantes do mundo inteiro. A cidada também carrega a densa história recente da Hungria, que lutou ao lado dos nazistas na 2a Guerra Mundial, foi libertada pelo exército vermelho e fez parte da União Soviética até 1991.

Entretanto, nos últimos meses, e especialmente na última semana, Budapeste têm recebido um outro perfil de visitantes. Milhares de sírios, iraquiano e afegãos, fugindo da guerra e da pobreza, sobretudo das regiões dominadas pelo Estado Islâmico, estão sendo sistematicamente bloqueados na capital Húngara, após cruzarem a fronteira vindos da Sérvia. A situação é tão grave, que desde a última terça-feira (1), a estação de Budapeste cancelou todos os trens em direção ao oeste europeu. A grande maioria dos cerca de 3000 refugiados que estão neste momento na estação de Budapeste-Keleti deseja chegar à Alemanha.

O governo conservador do premiê Viktor Orbán tem sido apontado como grande culpado pela tragédia humanitária que se instalou, como explica Krisztina Szabo, colaboradora da Migration Aid. Desde junho, foi organizada pela sociedade civil uma estrutura de ajuda para os refugiados. “Já sabíamos que eles iriam chegar, mas parece que o governo não. Fizeram questão de se não preparar para isso, e agora temos uma situação de calamidade humanitária. Nosso governo não gosta de imigrantes, e a União Europeia também não colabora.”

Krisztina explicou ainda que os refugiados foram forçados a assinar papéis em húngaro, afirmando que haviam sido instruídos em sua língua materna. Além disso, na quinta-feira, um trem foi liberado para que os refugiados entrassem. Entretanto, apesar das sinalizações em alemão do trem, os alto-falantes informaram, em idioma húngaro, que ele iria apenas até a cidade de Bickse, na fronteira da Hungria com a Áustria. Lá eles foram levados para campos de refugiados.

A Migration Aid tem contado com a ajuda de dezenas de voluntárias e voluntários que distribuem comida, água, roupa e brinquedos entre os acampados. Mesmo assim, a quantidade de banheiros é de apenas 8, e o único chuveiro estava quebrado. Um cano jorra água potável, o que permite aos homens se banhar, mas não às mulheres.

Mohamed Barakat é iraquiano e tem 29 anos. De origem sunita, fugiu do iraque há um ano, ficando a maior parte do tempo na Turquia. De lá, pagou €5000 para alguém que iria ajudá-lo a chegar a Alemanha. No entanto, após vencer a fronteira da Sérvia chegou em Budapeste e ficou preso 5 dias por não ter documentos. Mohamed espera chegar à Alemanha para conseguir um emprego e enviar dinheiro para a família, que ficou na Turquia.

A maior dificuldade para ajuda aos refugiados é o idioma, já que muito poucos falam inglês. Entretanto, a língua do futebol é universal. Após algumas trocas de passes, foi possível conversa com o jovem Rashad Haidam, que veio de Damasco, na Síria, há nove meses. Atravessou grande parte da Sérvia à pé, até chegar Hungria. Ele está há 18 dias em Budapeste, e sonha em chegar à Alemanha para ser jogador do futebol do Bayer de Munique.

Além das lembranças da guerra e da situação precária, outro perigo ronda os refugiados. Por volta das 15h desta sexta, um grupo de homens de cabeça raspada e vestidos de preto começou a circular a praça onde fica a estação principal, gritando palavras de ordem com os braços erguidos. Após aparentemente terem deixado o local, retornaram pelo fundo da praça, onde um grupo de sírios e iraquianos protestavam para tentar entra na estação. O membros da ultra-direita provocaram os refugiados, que ao revidar, foram contidos pela polícia. Após a situação parcialmente controlada, outro neonazista entrou no local e derrubou uma mulher que carregava uma criança no colo. Novamente a polícia conteve os refugiados, e deixou com os neonazistas deixassem o local tranquilamente.

A Europa está em chamas. Crise econômica, desemprego em alta, e centenas de milhares de refugiados chegando em busca de uma vida melhor. Ainda que governos insistam em ignorar, ainda que grupos neonazistas continuem ameaçando e colocando fogo em abrigos, é possível ver a solidariedade no rosto dos muitos europeus que os têm recebido de braços abertos, se voluntariado para ajuda nos abrigos, e principalmente na integração destas pessoas no mundo europeu.

Felizmente, ainda há muitos que compreendem que a história da humanidade é uma história de migrações, e que os processos colonizatórios europeus estão fortemente ligados a este pedaço do mundo que hoje pede socorro.

 


Tags deste artigo: budapeste refugiados imigração europa

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