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Alguns exemplos de "anarquismo em ação"

2 de Novembro de 2008, 22:00 , por Aurélio A. Heckert - 33 comentários | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Introdução

O anarquismo mais do que qualquer outra teoria trata dos esforços de milhões de revolucionarios que tem mudado o mundo durante os últimos séculos. Discutiremos aqui alguns dos momentos mais célebres do movimento, todos eles de natureza profundamente anti-capitalista.

O anarquismo trata de mudar o mundo radicalmente, não simplesmente fazer o presente sistema menos inumano, por meio do fomento das tendências anarquistas existentes. Embora uma revolução puramente anarquista ainda não tenha ocorrido, houveram várias de caráter e níveis de participação elevadamente anarquista. E ainda que todas tenham sido destruídas, em cada caso o foi pelas mãos de forças externas (apoiadas tanto por comunistas como por capitalistas), não devido a problemas internos do anarquismo. Estas revoluções, apesar de não terem sobrevivido frente a forças opressivas, constituem uma inspiração para os anarquistas e são prova de que o anarquismo é uma teoria social viável que pode ser colocada em prática em grande escala.

É importante assinalar que estes exemplos são experimentos sociais de ampla escala e não supõem que ignoremos a corrente oculta da prática anarquista que existe na vida cotidiana, inclusive sob o capitalismo. Piotr Kropotkin (em El Apoyo Mutuo) e Colin Ward (em Anarchy in Action) documentaram as muitas maneiras pelas quais o povo comum, geralmente desconhecendo o anarquismo, trabalham unidos em igualdade para solucionar seus próprios problemas. Como disse Colin Ward, "uma sociedade anarquista, uma sociedade que se organiza sem autoridade, sempre existiu, como a semente sob a neve, enterrada sob o peso do estado e de sua burocracia, do capitalismo e seu desperdício, seus privilégios e suas injustiças, seu nacionalismo e suas lealdades suicidas, suas diferenças religiosas e seu separatismo supersticioso" [Anarchy in Action, p.14].

O anarquismo não trata somente de uma sociedade futura, trata também da luta que ocorre hoje. Não é uma condição mas um processo que criamos com nosso ativismo e nossa auto-libertação.

Todavia, há 60 anos atras, muitos comentaristas desenharam o movimento anarquista como coisa passada. Não somente haviam sido destruídos pelo fascismo os movimentos anarquistas europeus, como também a sua recuperação pós-guerra foi impedida, por um lado, pelo capitalismo ocidental, e por outro pelo oriente leninista. Durante este mesmo período, o anarquismo foi reprimido nos EEUU, América Latina, China, Korea (onde uma revolução social de conteúdo anarquista foi reprimida antes da guerra da Korea) e Japão. Inclusive um ou outro país que escapou do pior da repressão, a combinação da Guerra Fria e o isolamento internacional viram os sindicatos libertários, tais como o SAC da Suecia se converterem em reformistas.

Mas também os anos 60 foram uma década de luta renovada, e por todo o mundo a 'Nova Esquerda voltou seus olhos para o anarquismo, como também em outras direções, buscando suas idéias. Muitas das principais figuras da explosão massiva de maio de 1968 na França se consideravam anarquistas. Mesmo tendo esses movimentos se degenerado, deram lugar a outros que mantiveram o ideal vivo e iniciaram a formação de novos movimentos. A morte de Franco em 1975 deu lugar a um renascimento massivo do anarquismo na Espanha, com mais de 500 mil pessoas assistindo à primeira reunião da CNT pós franquismo. O retorno a uma democracia limitada em alguns países latinoamericanos ao final dos anos 70 e durante os anos 80 permitiu o crescimento do anarquismo ali. Finalmente, no final dos anos 80, foram os anarquistas os que deram os primeiros golpes contra a URRS leninista, tendo lugar em Moscou, em 1987, a primeira manifestação anarquista desde 1928.

Hoje o movimento anarquista, embora ainda frágil, organiza centenas de milhares de revolucionários em muitos países. Espanha, Suécia e Itália tem movimentos libertarios que contam com mais de 250 mil filiados entre eles. Quase todos os demais países europeus tem vários milhares de anarquistas ativos. Grupos anarquistas tem aparecido pela primeira vez em outros países, incluindo Nigéria e Turquia. Na América do Sul o movimento teve uma assombrosa recuperação. Uma página de contatos divulgada pelo grupo venezuelano Correo A lista mais de 100 organizações em quase todos os países.

Possivelmente a recuperação esteja ocorrendo mais lentamente na América do Norte, mas lá também, todas as organizações libertarias estão crescendo notavelmente. Conforme se acelera este crescimento, muitos mais exemplos de anarquia em ação serão criados e mais e mais pessoas tomarão parte em organizações e atividades anarquistas.

Não obstante, é importante assinalar exemplos massivos do anarquismo operando em grande escala para poder evitar as falsas acusações de "utopianismo". Como a historia está escrita pelos vencedores, estes exemplos de anarquia em ação são muitas vezes ocultados em livros obscuros. Raramente se mencionam nas escolas e universidades (ou se mencionam, se desvirtuam). Não é necessário dizer que os poucos exemplos que damos são apenas alguns, há muito mais.

O anarquismo tem uma grande historia em muitos países, e não dá para documentar cada exemplo, apenas os que consideramos mais importantes. Também lamentamos se parecermos eurocentristas. Devido a considerações de tempo e espaço, ignoramos a Alemanha (1919-21), Portugal (1974), a revolução mexicana, os anarquistas da revolução cubana, a luta dos coreanos contra o imperialismo japonês (e depois dos EEUU e da União Soviética) durante e depois da segunda guerra mundial, Hungria (1956), a rebelião nos finais dos anos 60 do "negar-se a trabalhar" (em particular o "verão quente" na Itália, 1969), a greve de mineiros do Reino Unido (1984-85), a luta contra a "Poll Tax" na Gran Bretanha (1988-92), as greves na França em 1986 e 1995, o movimento COBAS da Itália dos anos 80 e 90, e muitas outras grandes lutas nas quais as idéias anarquistas de autogestão anarquista estiveram comprometidas (idéias que geralmente nascem do próprio movimento, sem que os anarquistas joguem necessariamente o papel de "líder"). Para os anarquistas, as revoluções e as lutas populares são "festivais dos oprimidos", quando as pessoas comuns começam a agir por si próprias, a mudar a si mesmas e ao mundo.

A Comuna de Paris

A Comuna de Paris de 1871 jogou um papel importante no desenvolvimento do movimento e das idéias anarquistas. Bakunin por sua vez comentou, "o socialismo revolucionário (i.e. anarquismo) acaba de ensaiar seu primeiro golpe e demonstração prática na Comuna de Paris" [Bakunin on Anarchism, p. 263].

A Comuna de Paris foi criada depois da derrota da França pelas mãos da Prussia na guerra franco-prusiana. O governo francês tratou de mandar tropas para recuperar o canhão da Guarda Nacional Parisiense para evitar que caísse nas mãos do povo. Os soldados se negaram a abrir fogo sobre a multidão rebelde e apontaram as armas contra seus oficiais. Isto ocorreu em 18 de março. A Comuna começava.

Nas eleições livres convocadas pela Guarda Nacional de Paris, os cidadãos elegeram um conselho formado por uma maioria de Jacobinos e Republicanos e uma minoria Socialista (Blanquistas - socialistas autoritários - a maior parte, e seguidores de Proudhon). O conselho proclamou a autonomia de Paris e seu desejo de recriar a França como uma confederação de comunas (i.e. comunidades). Dentro da Comuna, os integrantes do conselho podiam ser revogados e se lhes pagava um salário médio. Além disso, tinham que prestar contas ao povo que os elegeram.

Está claro por quê este sucesso se prendeu à imaginação dos anarquistas - tem grandes similaridades com as idéias anarquistas. De fato, o exemplo da Comuna de Paris foi de muitas maneiras similar a como Bakunin havia prognosticado que a revolução ocorreria - uma cidade principal se declararia autônoma, organizando-se e dando exemplo, e exortaria ao resto do mundo a seguí-la. (Ver "Carta a Albert Richards" em Bakunin on Anarquism). A Comuna de Paris iniciou o processo de criação de uma nova sociedade, organizada de baixo para cima.

Muitos anarquistas tiveram um papel importante dentro da Comuna, por exemplo Louise Michel, os irmãos Reclus, e Eugene Varlin (este último assassinado em uma repressão posterior). Referente às reformas iniciadas pela Comuna, tais como a reabertura dos postos de trabalho como cooperativas, os anarquistas puderam ver suas idéias de trabalho associadas começar a realizar-se. No chamamento da Comuna ao federalismo e à autonomia, os anarquistas vêem sua "organização social do futuro ... levada a cabo de baixo para cima, através da livre associação ou federação de trabalhadores, começando pelas associações, seguindo as comunas, as regiões, as nações, e finalmente culminando em uma grande federação internacional e universal" [Bakunin, ibid., p. 270].

Todavia, para os anarquistas a Comuna durou pouco. O estado não fora abolido dentro da Comuna, como havia sido abolido fora. Os comuneiros se organizaram "de maneira Jacobina" (usando as mesmas palavras de Bakunin). Como assinalou Piotr Kropotkin, não "romperam com a tradição do estado, de governo representativo, e não trataram de obter dentro da Comuna essa organização do simples ao complexo que havia inaugurado ao proclamar a independência e a livre federação de comunas" [Fighting the Revolution, p. 16]. Alem disso, suas tentativas de reforma econômica não foram suficientemente longe, não trataram de formar cooperativas em todos os postos de trabalho nem formar associações destas cooperativas para a coordenação e o apoio mutuo em suas atividades econômicas. Não obstante, como a cidade estava sitiada pelo exército francês, se compreende que os comuneiros pensaram em outras coisas.

Em lugar de abolir o estado dentro da comuna organizando federações de assembléias democráticas de massas, como as "seções" parisienses da revolução de 1789-93 (ver Great French Revolution de Kropotkin), a Comuna de Paris manteve um governo representativo e sofreu por isso. "Em vez de atuar por sua conta ... o povo, confiando em seus governadores, lhes confiou o encargo de tomar a iniciativa" [Kropotkin, Revolutionary Pamphlets, p.19], e assim o conselho se converteu no "maior obstáculo à revolução" [Bakunin, Op. Cit., p. 241].

O conselho se isolou mais e mais do povo que o elegeu, tornando-se mais e mais inútil. Enquanto que sua irrelevancia aumentava, o mesmo ocorria com suas tendências autoritárias, chegando a criar-se um "Comitê de Saúde Pública" pela maioria Jacobina, para "defender" (pelo terror) a " revolução". O Comitê se opôs à minoria libertário-socialista e foi afortunadamente ignorado na prática pelo povo de Paris que defendia sua liberdade contra o exército francês, que os atacava em nome da civilização capitalista e da "liberdade". Em 1 de maio, as tropas governamentais entraram na cidade, seguindo-se sete dias de duras lutas nas ruas. Pelotões de soldados e membros da burguesia armados invadiram as ruas, matando impunemente. Mais de 25 mil pessoas foram mortas nas lutas pelas ruas, muitas assassinadas depois de renderem-se, e seus cadáveres foram enterrados em sepulturas comuns.

Para os anarquistas, as lições da Comuna de Paris foram três. Primeiro, uma confederação de comunidades descentralizada é a forma política necessária para uma sociedade livre. Segundo, "Há tantas razões para um governo dentro da Comuna como para um governo sobre ela" {Piotr Kropotkin, Fighting the Revolution, p. 19]. O que quer dizer que uma comunidade anarquista há que ser baseada na confederação de bairros e assembléias de trabalho cooperando livremente. Terceiro, é criticamente importante unificar as revoluções política e econômica en uma revolução social." Eles trataram de consolidar a Comuna primeiro, postergando a revolução social para mais tarde, enquanto que a única forma de proceder era consolidar a Comuna por meio da revolução social!" [Kropotkin, Op. Cit.,p. 19].

Os Mártires de Haymarket

A festividade socialista do Primeiro de Maio, se bem que nos anos recentes tenha sido seqüestrada pelos leninistas, se originou com a execução de quatro anarquistas em Chicago em 1886 por organizar trabalhadores na luta pela jornada de oito horas. A American Federation of Labor havia lançado uma chamada à greve para 1 de maio de 1886, apoiando esta demanda. Em Chicago os anarquistas eram a força principal no movimento sindical, e em parte como resultado de sua presença, os sindicatos atuaram sobre esta chamada com as greves do 1 de maio. Se convocou uma manifestação em repúdio à brutalidade policial durante estas greves. (A policia havia atacado um piquete, matando uma pessoa). Conforme se dissolvia a manifestação, foi atacada pela policia. Uma bomba foi lançada em cima das forças policiais, que abriram fogo sobre a multidão. Ao final, todos os anarquistas conhecidos foram presos, a policia baixou ordens de "lançar a rede primeiro e consultar as leis depois" do procurador do estado.

Oito anarquistas foram julgados por cumplicidade em assassinato. Não houve nenhuma pretensão de que nenhum dos acusados houvesse cometido nem planejado o bombardeio. Pelo contrario, se instruiu o jurado que "A lei está sendo julgada. A anarquia está sendo julgada. Estes homens foram selecionados pelo Grande Júri, e condenados  por serem líderes. Não são mais culpáveis que os milhares de seus seguidores. Senhores do júri; condene-os, façam deles um exemplo, acabem com eles e salvem nossas instituições, nossa sociedade". O jurado estava formado por homens de negócios e um parente de um dos policiais mortos, dessa forma, as vítimas foram declaradas culpadas. Sete foram sentenciados à morte, um a 15 anos de cárcere.

Uma campanha internacional resultou em que duas das sentenças fossem comutadas para prisão perpétua. Dos cinco restantes, um burlou ao verdugo suicidando-se à véspera da execução. Os quatro restantes foram enforcados em 11 de novembro de 1887. São conhecidos na historia operaria como os Mártires de Haymarket.

Albert Spies (um dos mártires) se dirigiu à corte depois de haver sido condenado à morte: "se credes que enforcando-nos podeis acabar com o movimento operário ... o movimento no qual os milhões de oprimidos, os milhões que trabalham na miséria e na necessidade esperam sua salvação -- se esta é vossa opinião, então enforquem-nos! Aqui pisotearás uma faísca, mas ali e acolá, por traz de vocês, pela tua frente, e por todas as partes, as chamas surgirão. É um fogo subterrâneo. Não o podereis apagar". Naquele dia, e nos anos posteriores, este desafio ao estado e ao capitalismo atrairia milhares ao anarquismo, particularmente dentro dos EEUU.

Para compreender por quê o estado e a classe patronal estavam tão determinados a enforcar aos anarquistas de Chicago, é necessário dar-se conta de que eram considerados como "líderes" de um movimento operário radical e massivo. Em 1884, os anarquistas de Chicago publicavam o primeiro diário anarquista, o Chicagoer Arbeiter-Zeiting. Era redigido, lido, publicado, e era propriedade dos imigrantes alemães do movimento operário. A circulação combinada do diário, do semanário (Vorbote) e a edição do domingo, (Fackel) mais que dobrou, de 13 mil exemplares em 1880 para 26.980 em 1886. Haviam periódicos anarquistas para outros grupos étnicos também.

Os anarquistas foram muito ativos na Central Labor Union, fazendo dela, nas palavras de Albert Parsons (um dos mártires), "o grupo embrionário da futura 'sociedade livre'". Aparte de seu trabalho sindical organizador, o movimento anarquista de Chicago originou também centros sociais, pic-nics, palestras, bailes, bibliotecas e um montão de atividades. Todas elas contribuíram para formar uma cultura obreira distintamente revolucionaria no coração do "American Dream". A ameaça à classe dominante e a seu sistema era demasiado grande para permitir que continuasse . Daí para a frente veio a repressão, a corte canguru, e o assassinato estatal daqueles que o estado e a classe capitalista considerava "líderes" do movimento.

A formação de sindicatos

Em fins do século passado na Europa o movimento anarquista começou a criar as condições para a aplicação das idéias anarquistas na vida diária. Isto ocorreu como resposta ao desastroso período da "propaganda pela ação" em que os anarquistas individualmente assassinavam líderes governamentais na tentativa de provocar um levante popular e em vingança pelo assassinato dos comuneiros. Reagindo a esta fracassada e contraproducente campanha, os anarquistas voltaram às suas raízes e às idéias de Bakunin, começando assim a formar sindicatos revolucionários de massas
(sindicalismo e anarco-sindicalismo).

Entre 1890 e o início da primeira guerra mundial, os anarquistas estabeleceram sindicatos revolucionários na maioria dos países europeus, especialmente na Itália e França. Enquanto que os anarquistas norte e sul americanos também organizaram seus sindicatos com êxito. Quase todos os países industrializados tiveram seu movimento sindical, se bem que foram mais fortes na Europa e na América do Sul. Estes sindicatos se organizavam de maneira confederativa, de baixo para cima,
segundo as idéias anarquistas. Combatiam o capitalismo diariamente envolvendo-se em assuntos como aumentos salariais e melhores condições de trabalho, mas também lutavam pela abolição do capitalismo através da greve geral revolucionaria.

A técnica organizativa anarquista alentava a participação, a militancia e o fortalecimento de seus membros proporcionando o crescimento dos sindicatos anarco-sindicalistas e seu impacto no movimento operário, alem disso também obtiveram conquistas na melhoria das condições de trabalho e no cultivo da consciência de classe. A poderosa COB (Confederação Operária Brasileira) no Brasil e a IWW (Industrial Workers Word), por exemplo, ainda inspiram ativistas sindicais e através de sua grande historia legaram muitos cânticos e slogans sindicalistas.

A maioria das associações de sindicatos foram reprimidas durante a primeira guerra mundial, mas nos anos seguintes de pós-guerra alcançaram grande crescimento. Esta onda de militancia foi conhecida na Itália como "os anos vermelhos", onde alcançou sua máxima expressão com as ocupações de fábricas (ver A.5.5 - Os Anarquistas nas Ocupações de Fábricas na Itália). Mas também durante estes anos, em alguns países ocorreu a destruição destes sindicatos por causa da amplitude de sua influencia. Por outro lado, o triunfo da Revolução Russa conduziu muitos ativistas para o campo da política autoritária. Os partidos comunistas deliberadamente minaram os sindicatos
libertários, incitando lutas intestinais e divisões. Mais importante ainda, durante estes anos o capitalismo tomou a ofensiva com uma nova arma - o fascismo. O fascismo nasceu na Itália e Alemanha em uma tentativa dos capitalistas para esmagar fisicamente as amplas organizações que a classe trabalhadora havia construído. Nestes países os anarquistas se viram forçados a fugir para o exílio, sumir de vista, ou se converterem em vítimas de assassinatos em campos de concentração. Nos EEUU, a IWW foi esmagada por uma onda de repressão apoiada com toda força pelos meios de informação, o estado e a classe capitalista.

Na Espanha, contudo, a CNT, união anarco-sindicalista, prosseguiu crescendo, chegando a um milhão e meio de membros em 1936. A classe capitalista abraçou o fascismo para salvar seu poderio das mãos dos trabalhadores, que estavam cada vez mais confiantes em seu poder e em seus direitos de auto-gerir suas próprias vidas (ver A.5.6 - Anarquismo e a revolução espanhola). Em outros locais, os capitalistas apoiaram estados autoritários para esmagar o movimento operário e pôr o capitalismo a salvo nestes países. Somente a Suécia escapou ilesa, alí a organização sindicalista SAC até hoje permanece organizando trabalhadores (e o faz de fato, como muitos
outros sindicatos, crescendo à medida que os trabalhadores rechaçam os sindicatos burocráticos cujos líderes estão mais interessados em proteger seus privilegios e negociar com a direção das empresas e o governo do que defender seus membros).

Os Anarquistas na Revolução Russa

A Revolução Russa de 1917 viu um grande crescimento do anarquismo nesse país assim como muitos experimentos baseados nas idéias anarquistas. Não obstante, a cultura popular viu a Revolução Russa não como um movimento de massas, de gente comum lutando por sua liberdade, mas como o meio pelo qual Lenin impôs sua ditadura na Rússia. A Revolução Russa, da mesma forma que a maior parte da historia, é um bom exemplo do jargão "a historia é escrita pelos vencedores". Ambas as historias, a capitalista e a leninista, do período entre 1917 e 1921 ignoram aquilo que o anarquista Voline chamou de "a revolução desconhecida", a revolução que surge de baixo para cima pelas ações do povo.

A derrubada inicial do Czar ocorreu devido à ação direta das massas, a revolução alcançou tal ímpeto que o novo estado "socialista" não foi suficientemente forte para detê-la. Para as esquerdas, o fim do czarismo foi o ponto culminante de anos de esforços de socialistas e de anarquistas em todo o mundo, representando a ala progressista do pensamento humano vencendo a tradicional opressão. A queda do Czar foi celebrada pelas esquerdas em todo o mundo.

Nas ruas, postos de trabalho e no campo, mais e mais gente se convencia de que a abolição do feudalismo não era politicamente suficiente. A derrubada do Czar teria um efeito real muito pequeno se a exploração feudal continuasse na economia, assim, os trabalhadores começaram a tomar os postos de trabalho e os camponeses a tomar a terra. Através da Rússia, o povo comum começou a construir suas próprias organizações, sindicatos, cooperativas, comitês de fábrica e conselhos (ou "soviets" em russo). Estas organizações originalmente se formaram de maneira anarquista, com
delegados revogáveis e federados uns com os outros.

Os anarquistas participaram neste movimento, adotando todas as tendencias da autogestão. Segundo observou Jacques Sadoul (oficial francês) no começo de 1918, "O partido anarquista é o mais ativo, o mais militante de todos os grupos de oposição e provavelmente o  mais popular ... Os bolcheviques estão preocupados" [ citado por Daniel Guerin, Anarquismo, pp.95-96]. Os anarquistas foram particularmente ativos no movimento de produção autogestionária dos trabalhadores (ver M. Brinton, The Bolsheviks and Worker's Control).

Todavia, ainda no começo de 1918, os socialistas autoritários do partido bolchevique, uma vez no poder, iniciaram a eliminação física de seus rivais anarquistas. Inicialmente, os anarquistas apoiaram aos bolcheviques, posto que os líderes bolcheviques ocultaram sua ideologia de estado ao apoiarem os sovietes.

Não obstante, este apoio "se dissolveu" rapidamente a medida que os bolcheviques se mostraram como eram na realidade, ou seja, não buscavam o verdadeiro socialismo, procuravam assegurar e garantir o poder para si próprios, não mais buscavam a propriedade coletiva da terra e dos meios de produção mas a propriedade do governo. Por exemplo, os bolcheviques destruíram sistematicamente o movimento de controle operário quando os estes triunfavam aumentando a produção mesmo sob as mais difíceis circunstancias.

Lenin suprimiu o controle dos trabalhadores baseando-se na duvidosa premissa de que isso reduzia a produtividade, argumento que depois se revelou falso nos casos onde o controle dos trabalhadores se estabeleceu. (ver Seção C.2.3). É interessante notar que os apologistas do capitalismo de hoje, muitas vezes argumentam que o controle por parte dos trabalhadores reduziria a produtividade, usando um argumento leninista já desacreditado.

Enquanto destruíam o movimento de autogestão dos trabalhadores, os bolcheviques
sistematicamente minaram, aprisionaram, e assassinaram seus maiores opositores, os anarquistas, assim como limitaram a liberdade das massas que diziam proteger. Os sindicatos independentes, os partidos políticos, o direito de greve, a autogestão no trabalho e no campo -- tudo foi destruído em nome do "socialismo". Para os de dentro, a revolução havia morrido poucos meses depois que os bolcheviques tomaram o poder. Para o mundo externo, os bolcheviques e a URSS representavam o "socialismo" enquanto sistematicamente destruíam as bases do verdadeiro socialismo. Os bolcheviques pisotearam os elementos socialistas libertários dentro de seu país, os esmagamentos dos levantes de Kronstadt e da Ukrania foram a pá de cal na cova do socialismo e da autodeterminação dos sovietes..

O levante do Kronstadt em fevereiro de 1921 foi de imensa importância para os anarquistas. O primeiro grande levante do povo pelo verdadeiro socialismo. "Kronstadt foi a primeira tentativa totalmente independente do povo para livrar-se de todo controle e levar a cabo a revolução social: e essa tentativa se fez diretamente ... pela classe trabalhadora, sem pastores, sem políticos, sem líderes, sem tutures" [Voline, The Unknown Revolution, citado por Guerin, Ibid., p.105].

Na Ukrania, as idéias anarquistas se aplicaram com êxito. Nas áreas sob a proteção do movimento Makhnovista, as pessoas da classe trabalhadora organizavam suas vidas diretamente, baseando-se em suas próprias idéias e necessidades, a verdadeira autodeterminação social. Sob a liderança de Nestor Makhno, um camponês autodidata, o movimento não apenas lutou contra as ditaduras branca e vermelha mas também resistiu aos nacionalistas ukranianos.

Opondo-se à convocatória para a "autodeterminação nacional", ou seja, um novo estado ukraniano, Makhno fez uma chamada à autodeterminação da classe trabalhadora na Ukrania e no mundo inteiro. Chegou a ser conhecido como o "Robin Hood" da Ukrania. A experiência da autogestão anarquista na Ukrania teve um final sangrento quando os bolcheviques se voltaram contra os makhnovistas (seus antigos aliados contra os "brancos" pro-czaristas) quando não necessitavam mais deles.

O último desfile anarquista em Moscou antes de 1987 teve lugar com o funeral de Kropotkin em 1921, quando aproximadamente 10 mil pessoas acompanharam seu ataúde. Muitas deles haviam sido colocados em liberdade nesse dia, e seriam assassinados pelos leninistas nos anos seguintes. A partir de 1921, os anarquistas começaram a descrever a URSS como uma nação "estadista-capitalista" para indicar que embora os patrões anteriores houvessem sido eliminados, surgiram outros, a burocracia estatal soviética passou a exercer o mesmo papel que os chefes exercem no Ocidente.

Para mais informação sobre a Revolução Russa e o papel que os anarquistas jogaram, são recomendados os seguintes livros: The Unknown Revolution de Voline, The Guillotine at Work de G.P. Maximov, The Bolshevik Myth y The Russian Tragedy ambos de Alexander Berkman, The Bolsheviks and Worker's Controls de M. Brinton, The Kronstadt Uprising de Ida Mett, History of the Makhnovist Movement de Peter Ashinov. Muitos destes livros foram escritos por anarquistas ativos durante a revolução, muitos foram encarcerados pelos bolcheviques e deportados para o ocidente devido à pressão internacional exercida por delegados anarco-sindicalistas em Moscou que os bolcheviques tratavam de converter ao leninismo. A maioria destes delegados permaneceram fieis a seus ideais libertários e convenceram seus respectivos
sindicatos a repudiar o bolchevismo e romper com Moscou. Já no princípio dos anos 20 todas as confederações anarco-sindicalistas se uniram aos anarquistas em seu repúdio ao "socialismo" da Rússia como capitalismo de estado e ditadura do partido.

Os anarquistas nas ocupações de fábricas na Italia

Ao final da primeira guerra mundial ocorreu uma radicalização massiva em toda Europa e no resto do mundo. Houve uma explosão de afiliações nos sindicatos, greves, manifestações e toda classe de agitação alcançaram grandes níveis. Isto se deveu em parte à guerra, em parte ao aparente êxito da revolução russa. Através da Europa, as idéias anarquistas se tornaram mais populares e as uniões anarco-sindicalistas aumentaram de tamanho. Na Gran Bretanha, por exemplo, se produziu o movimento das ligas sindicais e as greves de Clydeside, na Alemanha o auge do sindicalismo industrial, e na Espanha um grande crescimento na anarco-sindicalista CNT. Desafortunadamente, também houve grande crescimento nos partidos democrata-social e comunista.

Em agosto de 1920, houveram greves de ocupação de fábricas na Itália, como resposta aos baixos salários e ao endurecimento patronal. Estas greves começaram nas fábricas de engenharia e imediatamente se estenderam às ferrovias, transportes rodoviários, e outras industrias, e os camponeses tomaram a terra. Os grevistas, contudo, fizeram algo mais que ocupar os locais de trabalho, puseram parte deles em regime de autogestão. Dalí a pouco 500 mil grevistas estavam trabalhando, produzindo para eles mesmos. Errico Malatesta, que tomou parte nestes êxitos,
escreveu:

"os trabalhadores concluíram que o momento estava maduro para a tomada de uma vez por todas dos meios de produção. Se armaram para sua própria defesa ... e começaram a organizar a produção por sua própria conta ... O direito de propriedade foi de fato abolido .. era um novo regime, uma nova forma de vida social que surgia. E o governo ficou à parte ao sentir-se impotente para oferecer oposição." [Vida e Idéias p.134].

Durante esta época a Union Sindicalista Italiana (USI) cresceu até chegar a quase um milhão de membros e a influencia da Union Anarquista Italiana (UAI) com seus 20 mil membros cresceu em proporção. Segundo nos conta o repórter marxista galês Gwyn A. Williams "os anarquistas e os sindicalistas revolucionários constituíam o grupo mais revolucionário da esquerda ... O traço mais saliente na história do anarquismo e sindicalismo em 1919-1920 foi o rápido crescimento ... Os sindicalistas sobretudo captaram a opinião da classe obreira militante que o movimento socialista inutilmente tratava de captar." [Proletarian Order, pp. 194-195].

Daniel Guerin dá um bom resumo da extensão do movimento, "a direção das fábricas ... se efetuava por meio de comitês de trabalhadores técnicos e administrativos. A autogestão se expandiu ... A autogestão emitiu seu próprio dinheiro ... Se requeria estrita auto-disciplina ... [e] uma estreita solidariedade se estabeleceu entre as fábricas ... [onde] as minas e o carvão se colocavam em um fundo comum e se repartiam eqüitativamente" [Anarchism, p.109].

Sobre as fábricas ocupadas tremulava "um bosque de bandeiras negras e vermelhas" posto que "o conselho do movimento de Turin era essencialmente anarcosindicalista" [Williams, op. cit., p.241, p.193]. Os trabalhadores ferroviários se negaram a transportar tropas, os trabalhadores entraram em greve contra as consignas das associações reformistas e os camponeses ocuparam a terra. Tais atividades eram "já diretamente guiadas ou indiretamente inspiradas pelos anarco-sindicalistas" [ibid., p. 193]

Não obstante, depois de quatro semanas de ocupação os trabalhadores decidiram abandonar as fábricas. Isto devido à atuação do partido socialista e aos sindicatos reformistas. Se opuseram ao movimento e negociaram com o estado por uma volta à "normalidade" em troca da promessa de aumentar legalmente o controle pelos trabalhadores, em associação com os chefes. Esta promessa não se manteve. A falta de organizações inter-fábrica independentes fez que os trabalhadores dependessem dos burocratas dos sindicatos para obter informações sobre o que se passava em
outras cidades, e usaram esse poder para isolar as fábricas e as cidades entre si. Isto desembocou em uma volta ao trabalho, "apesar da oposição de anarquistas individualmente dispersos por todas as fábricas" [Malatesta, op. cit., p.136]. A confederação local de uniões sindicais não podia proporcionar a infra-estrutura necessaria para um movimento de ocupação totalmente coordenado, posto que os sindicatos reformistas se negavam a colaborar com elas; embora os anarquistas constituíssem uma grande maioria, se viram impedidos por uma minoria reformista.

Este período da historia italiana explica o crescimento do fascismo na Itália. Como indica Tobias Abse, "o auge do fascismo na Itália não pode desprender-se dos sucessos do biênio vermelho, os dois anos vermelhos de 1919 e 1920, que lhe precederam. O fascismo foi uma prevenção contra-revolucionária ... lançado como resultado da fracassada revolução" ["The Rise of Fascism in an Industrial City" p. 54, en Rethinking Italian Fascism, pp.52-81].

Durante a época da ocupação das fábricas Malatesta sustentou que "Se não a levarmos até ao final, pagaremos com lágrimas de sangue pelo medo que agora provocamos na burguesia". Sucessos posteriores o confirmaram, quando os capitalistas e os ricos donos da terra apoiaram aos fascistas para ensinar à classe trabalhadora qual era seu lugar. Todavia, inclusive nos mais obscuros dias do terror fascista, os anarquistas resistiram às forças do totalitarismo. "Não é casualidade que a mais forte resistência da classe trabalhadora ao fascismo ocorreu em ... os povos e cidades em que havia uma forte tradição anarquista, sindicalista ou anarco-sindicalista" [Tobias Abse, Op. Cit., p.56].

Os anarquistas participaram, e muitas vezes organizaram seções do Arditi del Popolo, uma organização operária dedicada à auto defesa dos interesses dos trabalhadores. Os Arditi del Popolo organizaram e alentaram a resistência operaria aos esquadrões fascistas, derrotando muitas vezes contingentes superiores em numero de fascistas. Os Arditi foram os maiores defensores de uma frente operária unida, revolucionaria contra o fascismo na Itália, como sugeriu Malatesta e a UAI. Sem embargo, os partidos socialista e comunista se retiraram da organização, os socialistas firmando um "Pacto de Pacificação" com os fascistas. Os líderes dos socialistas autoritários preferiram a derrota e o fascismo ao risco de que seus seguidores se "infetassem" de anarquismo.

Inclusive depois da criação do estado fascista, os anarquistas ofereceram resistência dentro e fora da Itália. Muitos italianos, anarquistas e não anarquistas, viajaram à Espanha para resistir a Franco em 1936. Durante a segunda guerra mundial, os anarquistas jogaram um papel importante no movimento partisano italiano. O fato do movimento antifascista estar dominado por elementos anticapitalistas levou os EEUU e o Reino Unido a colocar conhecidos fascistas em posições governamentais nas localidades que "libertavam" (muitas delas já haviam sido tomadas pelos partisanos, resultando que as tropas aliadas "libertavam" o povo de seus próprios habitantes!).

Não é de surpreender que os anarquistas fossem os mais consistentes e triunfantes opositores ao fascismo. Os dois movimentos não poderiam estar mais aparte, o primeiro pelo estatismo totalitário a serviço do capitalismo enquanto que o outro era por uma sociedade livre, não-capitalista. Nem tampouco surpreende que quando seus privilégios e poder estavam em perigo, os capitalistas e os donos da terra se voltavam ao fascismo para que os salvasse. Este processo é muito comum na historia (tres exemplos, Italia, Alemanha e Chile).

O Anarquismo e a Revolução Espanhola

Nos anos 30 a Espanha tinha o maior movimento anarquista do mundo. Ao começo da guerra "civil" espanhola, mais de um milhão e meio de trabalhadores e camponeses eram membros da CNT (Confederação Nacional do Trabalho), federação de uniões anarcosindicalistas, e 30 mil eram membros da FAI (Federação Anarquista Ibérica). A população total da Espanha era então de 24 milhões.

A revolução social que se contrapôs ao golpe fascista em 18 de Julho de 1936 é o maior experimento do socialismo libertário feito até hoje. Naquela ocasião a última união sindicalista de massas, a CNT, não apenas rechaçou o levante fascista como fomentou amplamente a ocupação de terras e fábricas. Mais de sete milhões de pessoas, inclusive cerca de dois milhões de membros da CNT, puseram a autogestão em prática nas mais difíceis circunstancias e de fato melhoraram as
condições de trabalho e a produção.

Durante os excitantes dias que se seguiram ao 19 de Julho, a iniciativa e o poder estavam verdadeiramente nas mãos dos membros da CNT e da FAI. Foi o povo comum, sem dúvida, sob a influencia dos faístas (membros da FAI) e dos militantes da CNT que, depois de derrotar o levante fascista, puseram em marcha a produção, distribuição e novamente o consumo (sob termos certamente muito mais igualitários) assim como organizaram e se ofereceram como voluntários (às centenas de milhares) às milícias, que se movimentaram para libertar aquelas partes da Espanha que
haviam caído sob Franco. De todas as maneiras possíveis a classe operaria espanhola estava criando com seus próprios atos um mundo novo baseado em suas próprias idéias de justiça social e liberdade -- idéias inspiradas, certamente, no anarquismo e no anarcosindicalismo.

A extensão completa desta histórica revolução não pode ser coberta aqui. Se discutirá mais detalhadamente na Seção I. Poremos em relevo alguns pontos de interesse especial esperando que eles dêem alguma indicação da importância destes fatos e animem as pessoas a averiguar mais sobre eles.

Toda a industria da Catalunia foi colocada sob a autogestão pelos trabalhadores ou controlada por eles (ou seja, eles assumiram totalmente todos os aspectos da direção no primeiro caso, ou no segundo, colocando a antiga direção sob seu controle). Em alguns casos, as economias dos povos e regiões inteiras se transformaram em federações de coletividades. O exemplo de Alcoy (população de 45 mil) se dá como exemplo típico:

"Tudo era controlado pelos sindicatos. Mas isso não significava que tudo era decidido por uns poucos comitês burocráticos de cima sem consultar aos membros do sindicato. Aqui se praticava a democracia libertaria. Assim como na CNT havia uma dupla estrutura recíproca; desde a base .. até acima, e por outro lado uma influencia recíproca desde a federação dessas mesmas unidades locais a todos os níveis até abaixo, desde a fonte e volta à fonte" [Gaston Leval, citado em The Anarchist Collectives, Ed. Sam Dolgoff, p.105].

Na frente social, as organizações anarquistas criaram escolas racionais, um serviço de saúde libertário, centros sociais, etc. O movimento Mujeres Libres combateu o papel tradicional da mulher na sociedade espanhola, potenciando milhares dentro e fora do movimento anarquista (ver Free Women of Spain de Martha A. Ackelsberg para mais informações sobre esta importantíssima organização). Esta atividade na frente social se baseou no trabalho iniciado muito antes do principio da guerra; por exemplo, os sindicatos muitas vezes fundavam escolas racionais, centros de trabalhadores, etc.

Na Espanha, sem dúvida, como em todas as partes, o movimento anarquista foi esmagado pelo leninismo (o partido comunista) por um lado e pelo capitalismo (Franco) por outro. Desgraçadamente, os anarquistas colocaram a unidade antifascista anterior à revolução, ajudando seus inimigos a lhes derrotarem e à revolução. Que tenham sido forçados pelas circunstancias a chegar a esta posição ou que a poderiam ter evitado é algo que ainda hoje permanece em debate.

Para mais informação sobre a revolução espanhola, recomendamos os seguintes livros: Lessons of the Spanish Revolution de Vernon Richards; Los Anarquistas en La Revolución Española de José Peirats, Free Women of Spain de Martha A. Ackelsberg; The Anarchist Collectives editado por Sam Dolgoff; "Objectivity and Liberal Scholarship" de Noam Chomsky (em The Chomsky Reader); The Anarchists of Casas Viejas de Jerome R. Mintz; e Homenaje a Catalunya de George Orwell.

A rebelião maio-junho na França em 1968

Os acontecimentos de maio-junho na França puseram de novo o anarquismo na paisagem radical depois de um período durante o qual muita gente havia descartado o movimento como morto. Esta rebelião de dez milhões de pessoas começou humildemente. Expulsos pelas autoridades da universidade de Nanterre em Paris por atividades contra a guerra no Vietnã, um grupo de anarquistas (incluindo Daniel Cohn- Bendit) convocaram em seguida uma manifestação. A chegada de 80 policiais indignou muitos estudantes, que deixaram seus estudos para juntar-se à batalha e
expulsar os policiais da universidade

Inspirados por este apoio, os anarquistas tomaram o edifício da administração e invocaram um debate de massas. A ocupação se expandiu, Nanterre foi cercado pela polícia, e as autoridades fecharam a universidade. No dia seguinte os estudantes de Nanterre se concentraram na universidade de Sorbonne no centro de Paris. A pressão da polícia continuou e a detenção de mais de 500 pessoas provocou um descontentamento que deu começo a cinco horas de luta pelas ruas. A polícia também atacou aos transeuntes com porretes e gás lacrimogêneo.

Uma proibição total de manifestações e o fechamento da Sorbonne fez com que milhares de estudantes tomassem as ruas. A crescente violencia policial provocou a construção das primeiras barricadas. o jornalista Jean Jacques Lebel escreveu que a uma da madrugada, "Literalmente milhares de pessoas ajudaram a construir barricadas... mulheres, operários, transeuntes, gente de pijama, formaram correntes humanas para carregar pedras, madeira, ferro." Durante uma noite inteira de batalha 350 guardas foram feridos. Em sete de maio 50 mil manifestantes entraram em choque com a polícia em uma batalha que durou todo o dia nas ruas do Quartier Latin (Bairro Latino). O gás lacrimogêneo da polícia foi respondido com coquetéis molotov e a canção: "Viva a Comuna de Paris!"

Em 10 de maio, manifestações massivas e contínuas forçaram o ministro da educação a entrar em negociações. Mas nas ruas surgiram 60 barricadas e os jovens trabalhadores se uniam aos estudantes. Os sindicatos condenaram a violência policial. Manifestações massivas por todo o pais culminaram em 13 de maio com um milhão nas ruas de Paris.

Diante deste protesto massivo, a policia se retirou do Bairro Latino. Os estudantes tomaram a Sorbonne e instituíram uma assembléia de massas para difundir a luta. De pronto as ocupações se difundiram espalhando-se para cada universidade na França. Desde a Sorbonne chegava uma torrente de propaganda, folhetos proclamações, telegramas e posters. Slogans como "Tudo é possível," "Sê realista, Peça o impossível," "A vida sem tempos mortos," e "É Proibido Proibir" cobriram as paredes. "Todo o Poder à Imaginação" estava nos lábios de todo mundo. Como indicou Murray Bookchin, "as forças motivadoras da revolução hoje... não são simplesmente a escassez e a carência econômica mas também a qualidade de vida diária ...  a tentação de controlar seu próprio destino" [Post-Scarcity Anarchism, pp. 249-250].

Muitos dos slogans mais famosos daqueles dias foram criados pelos Situacionistas. A Internacional Situacionista foi formada em 1957 por um pequeno grupo de dissidentes radicais e artistas. Eles desenvolveram uma análise coerente e altamente sofisticada da moderna sociedade capitalista (às vezes na forma de enigmáticos jargões [N.T.: no original: if jargon riddled]) e de como substituí-la por uma sociedade nova e mais livre. A vida moderna não é vida, diziam, é mera sobrevivência, dominada pela economia de consumo onde todo mundo, todas as coisas, todas as emoções e relações se tornam mercadoria. As pessoas não são apenas produtores alienados, eles são também consumidores alienados. Eles definiram este tipo de sociedade como «Sociedade do Espetáculo». A vida em si fora roubada e revolução significava brincadeira, alegria e diversão. O objeto da mudança revolucionária não era apenas o local de trabalho, mas também a existência cotidiana: «Falar sobre revolução e luta de classe sem aludir explicitamente à vida cotidiana, sem entender o caráter subversivo do amor e da recusa aos constrangimentos, é falar com um cadáver na boca». [citado por Clifford Harper, Anarchy: A Graphic Guide, pág. 153]

Como os muitos outros grupos cuja política influenciou para os eventos de Paris, os Situacionistas argumentaram que «os conselhos de trabalhadores são a única resposta. Toda outra forma de luta revolucionária acaba tomando um caminho oposto àquele tomado originalmente». [citado por Clifford Harper, Op. Cit., pág. 149] Estes conselhos seriam autogeridos e não seriam instrumento para um partido «revolucionário» chegar ao poder. Como os anarquistas de Noire et Rouge e os socialistas libertários de Socialismo ou Barbarie, o apoio deles a uma revolução autogerida de baixo teve uma grande influência nos eventos de maio e nas idéias que os inspiraram.

Em 14 de maio os operários de Sud-Aviation trancaram as portas dos escritórios dos chefes das fábricas. No dia seguinte ocorreu o mesmo nas fábricas de Cleon-Renault, Lockhead-Beauvais e Mucel-Orleans. Nessa mesma noite foi ocupado o Teatro Nacional de Paris como assembléia permanente para o debate das massas. Depois, a maior fábrica da França, a Renault-Billancourt, foi ocupada. Muitos tomaram a decisão de continuar a greve por tempo indeterminado sem consultar aos dirigentes do sindicato. Chegando o 17 de maio, uma centena de fábricas em Paris passaram
para o controle dos operários. Ao final da semana em 19 de maio 122 fábricas foram ocupadas. No dia seguinte, a greve e as ocupações se generalizaram com aproximadamente seis milhões de pessoas envolvidas. Os gráficos disseram que não permitiriam que houvesse monopólio nas reportagens informativas na televisão e no radio, e decidiram publicar periódicos para que a imprensa 'desenvolva com objetividade o papel de prover informação como é seu dever.' Em alguns casos os impressores faziam questão de alterar as manchetes ou artigos antes de publicar o jornal. Este foi o caso na maioria dos jornais de direita como 'Le Figaró ou 'La Nation'.

Com a ocupação da Renault, os ocupantes na Sorbonne se prepararam para juntar-se em seguida com os grevistas da Renault, e tendo à frente bandeiras anarquistas vermelhas e negras, 4 mil estudantes se dirigiram até a fábrica ocupada. O estado, os patrões, os sindicatos e o Partido Comunista contemplaram seu pior pesadelo - uma aliança entre os trabalhadores e os estudantes. Dez mil policiais da reserva juntamente com dirigentes sindicais fecharam a chave as portas das fábricas. O Partido Comunista mandou seus adeptos destruírem a rebelião. Se uniram ao governo e aos patrões para elaborar uma série de reformas, mas com as fábricas tomadas os trabalhadores os ignoraram.

A própria luta e as atividades se expandiram sendo organizadas por assembléias de massa autogeridas e coordenadas por comitês de ação. As greves muitas vezes foram organizadas também por assembléias. Como disse Murray Bookchin a "perspectiva de rebelião se expressou na proliferação da autogestão em toda sua plenitude - nas assembléias gerais e suas nuances administrativas, os comitês de ação - dirigindo todos os setores da economia, afetando todos os aspectos da própria vida " [Ibid., pp. 251-252]. Dentro das assembléias, "uma fome de vida tocou milhões de pessoas, um renascimento dos sentidos que o povo não sabia que lhes pertencia" [Ibid., p. 251]. Não foi uma greve de estudantes ou de trabalhadores. Foi uma greve do
povo que não se ocupou de quase nenhuma divisão de classe.

Em 24 de maio, os anarquistas organizaram uma manifestação. Trinta mil pessoas se dirigiram até Place de la Bastille. A policia protegeu os edifícios do governo utilizando das ferramentas de sempre - gas e porretes - mas La Bourse não estava protegida e foi queimada por alguns manifestantes.

Neste momento alguns grupos de esquerda perderam seus nervos. O grupo trotskiista JCR mandou as pessoas voltarem ao Bairro latino. Outros grupos como UNEF e o Parti Socialiste Unifié (Partido Socialista Unificado) abandonaram a ocupação dos edificios de Finanças e Justiça. Cohn-Bendit descreve este acontecimento "Quanto a nós, não nos demos conta de quão facilmente se posicionaram contra todo o povo ... Agora sabemos que se em 25 de maio, em Paris, ao amanhecer, fôssemos informados de que os edifícios mais importantes estavam ocupados teríamos derrotado o Gaulismo. . . . " Mais tarde durante a noite Cohn-Bendit foi expulso.

Com o crescimento das manifestações e ocupações o estado se preparou para utilizar todo seu poder para controlar a rebelião. Clandestinamente, os militares mais importantes prepararam 20 mil soldados leais para ocuparem Paris. A polícia ocupou centros de comunicações como as estações de televisão e correios. Na segunda-feira, 27 de maio, o governo garantiu um aumento de 35% do salário mínimo e um aumento médio de 10%. Os líderes da CGT organizaram uma manifestação de 50 mil trabalhadores pelas ruas de Paris dois dias depois. Paris foi coberta com anúncios pedindo um 'Governo do povo'.  Desafortunadamente a maioria pensava sempre em querer mudar o governo em lugar de tomar o poder por si próprio.

Em 5 de junho a maioria das greves havia terminado e uma atmosfera daquilo que o capitalismo chama de normalidade reaparecia na França. As greves que continuaram depois desta data foram sufocadas com ocupações militares. Em 7 de junho atacaram a siderúrgica de Flins o que provocou uma batalha de quatro dias que resultou na morte de um operário. Três dias depois, os grevistas da Renault foram fuzilados pela policia com um saldo de dois mortos. Isolados, aquele punhado de militantes não poderiam lograr êxito. Em 12 de junho, as manifestações foram proibidas, grupos radicais foram declarados fora da lei e seus membros foram presos. Atacados por todos os lados, com o aumento da violência estatal e atraiçoados pelos sindicatos, a greve geral e as ocupações terminaram.

Então porque fracassou a rebelião? Certamente não por causa da ausência de uma vanguarda bolchevike. Estava infectada por elas. Afortunadamente os grupos tradicionais e os autoritários da esquerda foram isolados. Os interessados na rebelião não necessitavam de uma vanguarda para dizer-lhes o que fazer e a "vanguarda dos trabalhadores" correu desesperadamente atrás do movimento querendo controla-lo.

Não, foi a carência de organizações independentes autogeridas para coordenar a luta que resultou no isolamento das ocupações. Assim, divididos feneceram. Também, como Murray Bookchin afirma "faltava uma consciência entre os trabalhadores que era necessário trabalhar, e não simplesmente ocupar ou fazer greve" [p. 269].

Esta consciência foi alentada pela existência de um movimento anarquista forte antes da rebelião. A esquerda autocrata, embora muito ativa, foi demasiado débil entre os grevistas, e por isso a idéia de organizações autogeridas não era muito conhecida. Não há dúvida de que a rebelião demonstrou que os acontecimentos podem mudar a qualquer momento. A classe trabalhadora, juntamente com a energia e a bravura dos estudantes pediram coisas que não eram possíveis dentro do sistema existente. A greve geral demonstra com formidável clareza o potencial que há nas mãos dos trabalhadores. As assembléias de massa e as ocupações nos dão um excelente, embora breve, exemplo de anarquia em ação e como as idéias anarquistas podem difundir-se e serem aplicadas na prática.


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