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12 de Janeiro de 2009, 22:00 , por Desconhecido - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

A emergência da cidadania planetária

6 de Outubro de 2017, 18:49, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Cidadania planetária

 

 

EMERGÊNCIA DA CIDADANIA PLANETÁRIA

Transformar a Visão da Política e da Geopolítica: do Poder Dominador ao Poder Co-criador

A grande questão geopolítica atual não é saber que Potência dominará o século 22, mas se haverá para a Humanidade um século 22. A civilização humana está ameaçada de desaparecer. Mas o que a ameaça é sua irresponsabilidade ecológica e social, sua própria barbárie interior e não exterior. Isto muda a maneira como vemos a questão da defesa.

A defesa, pois, consiste na capacidade dos humanos de organizar seu viver juntos, num planeta que permaneça habitável. As questões ecológica e humana, isto é, a capacidade da humanidade confrontar seus demônios interiores e crescer em humanidade torna-se o centro de uma nova abordagem da geopolítica. Esta visão integral e planetária do lugar do humano na natureza muda nosso olhar, que se torna mais apto à compaixão e mais construtivo. Cada ser humano se torna, naturalmente, cidadão da Terra, portanto, do Universo. Pequenino e ao mesmo tempo responsável pelo seu futuro. Mas, de fato, propenso à humildade e à solidariedade, por ser um elemento frágil da família humana e da de todos os seres vivos.

É, portanto, necessário passar do Poder dominador, que fundamenta a geopolítica clássica, ao Poder co-criador. Isto conduz a uma mudança da noção de governança. E a uma mutação qualitativa da democracia competitiva e delegativa a formas de Democracia participativa e colaborativa. É também a passagem de uma política fundada na inimizade (a figura do inimigo) à que Aristóteles e Derrida chamavam de “uma política da amizade”, fundada na ideia de que a/o “irmã/o” (no sentido de filhas e filhos da Mãe Terra) só pode sobreviver superando suas pulsões violentas. Isto não significa o fim dos conflitos nem dos desacordos, mas a capacidade de entende-los de maneira fecunda e não violenta. Isto é importante tanto nas relações interpessoais quando nas interações no seio da sociedade civil planetária na sua diversidade.

Isto leva a uma mudança da visão jurídica: passagem da “soberania solitária” dos Estados-Nações à “soberania solidária”, capaz de levar em conta “bens comuns” ecológicos e societários. Ela se apoia desde já em novas abordagens jurídicas tais como a noção de ecocídio, ou de crime contra o ambiente que coloca em risco a humanidade. A Corte Penal Internacional se reconhece competente se um crime contra a humanidade de natureza ambiental é provado; este já é um primeiro passo naquele sentido.

É também uma superação da abordagem puramente “internacional” para avançar no sentido da “mundialidade”: a mundialização se opõe à globalização que é somente econômica e financeira, por levar em conta o conjunto das questões ecológicas e sociais mundiais a partir do nível local. Isto significa tratar destas questões em termos de subsidiaridade, para que a mundialidade não entre em contradição com as diferentes identidades. Assim, cada comunidade é responsável pela gestão do seu espaço apoiada, quando necessário, pelos outros níveis. Isto permite, ao mesmo tempo, a construção de identidades-relações entre comunidades e entre diferentes níveis (territórios, países, continentes). Assim, o reconhecimento de uma cidadania planetária, que dá a todo ser humano direitos e deveres definidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Carta da Terra, torna-se compatível com a cidadania local, nacional ou continental. A identidade-relação envolve a co-responsabilidade entre as diferentes escalas de vida, para a sobrevivência do conjunto do povo da Terra.

Há também, evidentemente, mudança em relação à economia. Uma Economia plenamente ecológica, que promove a consciência da necessidade de uma boa gestão de todas as nossas moradas: nosso corpo, nossas casinhas terrestres, nossas comunidades, nossos biomas, nosso país e a grande casa planetária.  Isto exige uma economia do suficiente, que reconheça os limites dos recursos da Terra, promova o consumo sóbrio e responsável de bens materiais e ponha limites ao crescimento; novos conceitos e indicadores de riqueza; e uma abordagem da contabilidade que resgate ao termo benefício seu verdadeiro sentido de atividades benéficas, fontes de melhoras qualitativas e não quantitativas, para todas e todos, e não apenas para um pequeno número de privilegiados. Ora, diversos valores monetários correspondem, de fato, a atividades destruidoras do ser humano, da natureza, da saúde…, tais como a mercantilização da exploração humana, das guerras, das doenças, dos acidentes rodoviários, o agravamento das catástrofes naturais (extrativismo ou construções anárquicas) e os vícios, como o consumo de cigarros.

O que conta numa casa é o Bem Viver de todas e todos os que a habitam. O verdadeiro sentido da atividade econômica deve ser o Viver em Plenitude, e não o lucro e a acumulação de dinheiro e de propriedades. Viver em Plenitude inclui ter acesso a todas as condições que facilitem o desenvolvimento dos potenciais, qualidades e talentos de cada pessoa, comunidade, território e povo. A partilha da propriedade e da gestão dos bens produtivos, seja a terra, as unidades industriais e financeiras, seja a tecnologia e o conhecimento nutrem a solidariedade, a reciprocidade e a complementaridade.

Isto leva a outras mudanças profundas, como a transição para uma economia plural e o deslocamento do centro das atividades econômicas da empresa privada para as comunidades humanas nos seus territórios e ecossistemas, auto gestionárias e solidárias entre si. O planejamento participativo do desenvolvimento socioeconômico e humano auto gestionário orienta a oferta para a produção de bens e serviços que respondem às necessidades reais dos sujeitos sociais e dos modos de governança participativos e não-hierárquicos organizados do local às esferas mais gerais. Esta vocação de serviço ao Bem Viver integral das pessoas se estende ao Estado democrático, cujas responsabilidades abrangem a orquestração da diversidade social e a proteção dos direitos humanos e da soberania nacional e popular; a promoção de relações harmônicas e igualitárias entre as comunidades e as regiões, assim como o respeito à diversidade; a produção das infraestruturas que servem às esferas regionais e nacional; a garantia de uma gestão responsável dos bens comuns, dos biomas e ecossistemas; a proteção da resiliência dos ambientes alterados pela ação humana; e a gestão dos assuntos internacionais e planetários.

Há igualmente mudança em relação à espiritualidade. Espiritualidade aberta, fundada na relação com a beleza, com o mistério da interioridade que permite superar as várias religiões organizadas em torno do medo, da culpa, da submissão e do sacrifício. Em particular há a superação da lógica da Potência dominadora, que corrompeu profundamente diversas instituições religiosas e conduziu às piores guerras, aquelas realizadas em nome de Deus. Essa espiritualidade aberta, criadora e não dominadora pode, então, ser plenamente coerente com uma abordagem aberta da laicidade. A espiritualidade se torna, assim, uma pesquisa íntima da missão profunda de cada uma e cada um nesta vida, o que nos leva à prática da alegria de viver consigo mesmo, com os outros e com a Natureza. É, pois, uma mudança da relação entre micro e macrocosmo, que conduz a uma visão fractal tanto do universo exterior quanto do interior, e abre à abordagem de uma transformação tanto pessoal quanto social. Isto supõe, claro, a abertura a uma inteligência global aberta tanto ao coração e ao corpo, quanto ao espírito.

A partir de agora há uma mudança da noção de civilização. A perspectiva de uma Cidadania mundial permite oferecer uma alternativa não só à noção de civilização colonizadora, mas também à guerra de civilizações teorizada pelos neoconservadores estadunidenses. Isso vale, em particular, para o diálogo necessário, ao mesmo tempo exigente e aberto entre Modernidade e Tradição, capaz de conservar o melhor dos dois. Da Modernidade guardaremos a liberdade de consciência, o reconhecimento da singularidade e, portanto, dos direitos de todos os seres humanos, sem o pior – a coisificação ou mercantilização da Natureza, da Vida e até dos Humanos. E operaremos a mesma “triagem seletiva” entre a parte luminosa da Tradição – a reconexão com a Natureza, com os outros e com as questões do sentido), rejeitando sua parte sombria: a dependência derivada da dominação patriarcal (controle social, fundamentalismo identitário e ecologia misantrópica).

É toda a perspectiva do humanismo que se encontra assim transformada. Co-construção de um Humanismo a serviço do Ser Vivo e da cidadania planetária, e não o humanismo de dominação da natureza e de imposição da visão ocidental do mundo.

 

O desafio do “Bem viver”

 

Nessa perspectiva, a visão manifestada pelos povos originários da América Latina, e divulgada com força a partir do FSM de Belém em 2009, propõe uma transição no sentido de sociedades do “Bom Viver” (sumak kawsay em quechua), do Bem viver, que ganha pleno sentido hoje e cria a reviravolta espiritual de que nosso mundo necessita.

Mas o Bem Viver não se tornará um verdadeiro projeto de sociedade a menos que seja encarnado por um movimento cidadão que o leva a sério para se organizar consequentemente em torno desse eixo e realizar ações concretas. Precisamos responder ao desafio da experiência e não só da esperança. A simplicidade dos 13 passos propostos pelos povos originários dos Andes para exprimir o sumak kawsay no cotidoano pode servir de inspiração a todas e todos que querem empreender uma transformação pessoal e assim contribuir a uma transformação social. Esta transformação começa pela vida cotidiana na escala individual para ampliar-se à escala de toda a sociedade global. É um novo sentido da vida que se exprime na busca do “Viver Plenamente”, no sentido integral: Bem Viver conosco mesmos, com os que nos cercam e com a busca, com aqueles que nos cercam e com aquela que nos nutre, a Mãe Terra. Os 13 princípios do Bem Viver na busca do equilíbrio são:

 

1) saber nutrir-se do que é saudável;

2) saber beber favorecendo o fluxo da vida;

3) saber dançar no ritmo do Universo;

4) repousar, dormir de um dia para o outro;

5) ser capaz de trabalhar com alegria;

6) saber calar-se e buscar o silêncio meditativo;

7) pensar, em conexão com o coração e o espírito;

8) saber amar e ser amada/o;

9) saber ouvir-se, os outros e a Mãe Terra;

10) saber falar de modo construtivo;

11) saber sonhar com uma realidade melhor;

12) aprender a caminhar acompanhado das boas energias; e

13) saber dar e receber.

 

Para que uma transição a sociedades do Bem viver, já iniciada nos quatro cantos do mundo, seja amplificada de modo significativo, é preciso que ela seja atraente. A antecipação deste mundo do devir, que já é praticado e experimentado por um novo tipo de movimento social e cidadão, está criando este desejo em todas e todos de participar dele e de demonstrar que é realizável em grande escala. Devemos, portanto, construir uma verdadeira “aliança das forças da vida”, capaz não só de resistir às lógicas mortíferas, mas também de promover essa grande Transição a sociedades do Bem viver, na linhagem dos movimentos Cidades em Transição, Programa Educação Gaia, Rede Global de Ecovilas, movimento Nação Pachamama, Rede intercontinental de promoção da economia social solidária (RIPESS), o pulular educativo e empreendedor da entidade Gawad Kalinga, nas Filipinas, Ekta Parishad (o movimento gandhiano de Rajagopal) e Vikalp Sangham (grande rede de grupos e movimentos alternativos), ambos na Índia, e todas as iniciativas que manifestam em todo o mundo uma formidável criatividade cultural, ecológica, econômica, societal e cidadã.

No centro deste projeto de Transição para uma sociedade do Bem viver, há, contudo, um ponto cego importante que, não sendo plenamente entendido, conduz vários projetos transformadores ao fracasso ou a ter limitada sua potência criadora. Este ponto cego é que vários projetos alternativos na História terminaram por fracassar não pela força dos seus adversários (o capitalismo, o despotismo, o imperialismo, por exemplo), mas pela implosão causada pelas rivalidades fratricidas e pela insuficiência de energia interior criadora. Sempre encontramos, ao analisar as causas desses fracassos, o fato de que formas de mal viver, e também de maus tratos estavam sempre presentes no seio dessas movimentos. Ora, todo mal viver, coletivo ou individual, traduz-se por um déficit de energia interior que leva à busca no exterior da energia que falta. Isto se traduz pela rivalidade nas relações com o outro, a predação nas relações com a natureza e a depressão na relação da pessoa consigo mesma. Interessa, neste sentido, ver como problemas ditos “pessoais” desempenharam um papel decisivo nas bifurcações negativas de forças transformadoras: quer seja entre Danton e Robespierre, Marx e Proudhon, Lenin e Trotsky, Castro ou Mao Tse Tung, com diversos dos seus companheiros de revolução respectivamente. É longa a lista destas influências negativas de falta de sabedoria, que se traduzem em formas brutais de modos de organização e de liderança. Podemos sem dificuldade encontrar diversos exemplos disso em organizações atuais às quais pertencemos.

A necessidade de mudar esta dinâmica para dar mais lugar a movimentos que renovam a energia dos participantes que desejam mudar o mundo aqui e agora torna-se evidente. Existem diversos movimentos que, baseados na autogestão e na liderança compartilhada, valorizam a contribuição de todas e todos, confirmando esta necessidade cada vez mais consciente. Esses coletivos se tornam mais fortes e atraentes, em especial para a juventude, porque promovem laços de amizade enquanto força política. Esta política da amizade e da confiança repousa na benevolência de um/a em relação ao outro, no acolhimento das diferenças, mas também na exigência de responsabilidade individual e coletiva em coerência com os valores compartilhados. Estes coletivos, graças à sua capacidade de construir unidades na diversidade, se tornam uma força de ação maior para a transformação do mundo. Todos os exemplos que existem aqui e ali desde há decênios são sementes de renovação e são portadores de frutos abundantes, mas frequentemente desconhecidos, à exceção de exemplos políticos emblemáticos como os de Rosa Luxembourg, Rosa Parks, Wangari Matthaai, Leymah Gbowee, Rigoberta Menchú, Nelson Mandela, Desmond Tutu, Martin Luther King e Gandhi, cuja célebre citação resume a filosofia destes novos movimentos cidadãos: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”, retomada pelo Papa Francisco na sua Encíclica Laudato Si.

A Alegria de Viver no seio do Bem Viver constitui a alternativa individual e societária às economias do mal estar e dos maus tratos. Assim, segundo as Nações Unidas, as despesas anuais com drogas e entorpecentes representam dez vezes as somas que permitiriam a satisfação das necessidades vitais da humanidade; e as despesas com armamentos, vinte vezes! Acrescente-se que a publicidade que participa desta economia do mal estar, vendendo promessas da ordem do SER (beleza, felicidade…) para melhor alimentar a corrida ao TER, é avaliada em mais de dez vezes as somas exigidas para erradicar a fome, permitir acesso a água potável ou aos cuidados básicos. O déficit energético provocado pela insuficiência de alegria interior deságua na compensação do que o filósofo Spinoza chamava de paixões tristes. Se, em termos ecológicos, o mal viver está também na origem de formas insaciáveis de produtivismo  e extrativismo, só uma sobriedade feliz (contanto que enfatizando este segundo termo) e uma economia do suficiente têm o poder de inverter este processo deletério. Mas isto só é possível se a qualidade de consciência e de presença da Vida nos permite este avanço.

Como podem os atores que colaboram para “a Grande Transição” melhor coordenar-se em escala global? O conceito de cidadania planetária oferece a possibilidade de um projeto mundial ambicioso, que permite a todas as energias criadoras presentes hoje de forma fragmentada, unir-se na sua diversidade e ampliar-se, pois os bens mais preciosos se multiplicam quando são compartilhados. Reunamo-nos, pois, em torno deste projeto comum! Trabalhemos para identificar os sinais de pertencimento à nossa grande família (logos, colantes, ferramentas comuns de comunicação, bandeira, etc.) a fim de torna-la visível, natural, evidente, incontornável. Esta visibilidade é essencial a fim de que seus membros, cada vez mais numerosos, possam dizer-se: sim, temos o poder de agir; sim, estamos em casa em qualquer lugar do planeta; sim, somos todas e todos cidadãs e cidadãos do Povo da Terra; sim, podemos nos organizar para garantir juntos a nossa autonomia em relação ao sistema dominante e para experimentar novas formas de vida que consideramos ecológica e socialmente as mais desejáveis!

De fato, nós ainda estamos na origem de uma célula fractal deste movimento cidadão mundial pelo Bem Viver. Mas todos os grandes projetos na História começaram assim e, se muito atores presentes, por exemplo, no Fórum Social Mundial se aprestam a co-construir um tal Projeto, ele poderá rapidamente se expandir. A Visão deve ser imensa, e a Ação levará tempo, dando pequenos passos para segui-la, em confiança e consciência, brilhando pela qualidade dos seus resultados e atraindo sempre mais energias criadoras do futuro. Este é um paradigma complexo inédito que estamos ajudando a vir à luz .

Ele supõe abordagens múltiplas e ações concretas, tentativas-erros, com uma visão comum, novos espaços de criação, novas relações, novas transversalidades, novas hierarquias de valores, uma nova linguagem a invertarmos com a colaboração de todas as pessoas criativas, em todos os campos – cultural, econômico, político, religioso, agnóstico, espiritual…!

Para servir a esta visão, a rede Diálogos em Humanidade propõe a criação de um Conselho de Segurança da Humanidade. Frente aos colapsos maiores, - tais como as crises financeiras, catástrofes ecológicas, explosões sociais, riscos ligados ao uso voluntário ou acidental de armas de destruição maciça, etc., - a ideia de construir, a partir da sociedade civil mundial, um Conselho de Segurança da Humanidade poderia ser um projeto comum aos nossos movimentos. Sobre este ponto o Conselho de Segurança das Nações Unidas está longe de estar à altura da sua missão de promover a paz com justiça. O fato de seus cinco membros permanentes, que deveriam ter a maior responsabilidade sobre o desafio mundial da paz, sejam também os cinco principais vendedores de armas, constitui uma trágica ilustração. Precisamos, portanto, construir as condições para que seja um autêntico “Conselho de Segurança da Humanidade”, combinando dois tipos de recursos. Por um lado o conjunto de atores susceptíveis de formular alertas e contra propostas relativas aos grandes riscos que corre a Humanidade: as grandes organizações da sociedade civil que atuam nos domínios ecológico, humanitário, social, tecnológico, mas também todo tipo de ator, de qualquer forma institucional, que possa compartilhar de forma descentralizada o conjunto de informações e propostas que possam alimentar esta perspectiva.

Para servir a esta visão, a rede Diálogos em Humanidade retoma a ideia da “Cúpula das Consciências” ocorrida durante a COP21 e propõe a criação de um Conselho de Segurança da Humanidade. Frente aos colapsos maiores, - tais como as crises financeiras, catástrofes ecológicas, explosões sociais, riscos ligados ao uso voluntário ou acidental de armas de destruição maciça, etc., - a ideia de construir, a partir da sociedade civil mundial, um Conselho de Segurança da Humanidade poderia ser um projeto comum aos nossos movimentos. Sobre este ponto o Conselho de Segurança das Nações Unidas está longe de estar à altura da sua missão de promover a paz com justiça. O fato de seus cinco membros permanentes, que deveriam ter a maior responsabilidade sobre o desafio mundial da paz, sejam também os cinco principais vendedores de armas, constitui uma trágica ilustração. Precisamos, portanto, construir as condições para que seja um autêntico “Conselho de Segurança da Humanidade”, combinando dois tipos de recursos. Por um lado o conjunto de atores susceptíveis de formular alertas e contra propostas relativas aos grandes riscos que corre a Humanidade: as grandes organizações da sociedade civil que atuam nos domínios ecológico, humanitário, social, tecnológico, mas também todo tipo de ator, de qualquer forma institucional, que possa compartilhar de forma descentralizada o conjunto de informações e propostas que possam alimentar esta perspectiva.

Por outro lado a criação de um “Conselho de Sábias e Sábios”, com a função de aconselhar e apoiar o Conselho de Segurança da Humanidade,  o que permitiria um diálogo exigente e transparente com o atual Conselho de Segurança da ONU. Um  tal Conselho da cidadania poderia manifestar, para além de todo interesse econômico, político ou religioso, uma consciência do futuro da nossa família humana.  Um primeiro desafio desse Conselho seria participar da mobilização pela Missão 2020, divulgada na revista Nature (junho de 2017). Nesse apelo diversas personalidades propuseram mudanças concretas em seis campos de ação que resultariam na diminuição significativa na emissão de gases-estufa. Isso permitiria à Humanidade ganhar cerca de vinte anos para prosseguir seu caminho de desaceleração da mudança climática. A partir desse apelo decisivo é preciso realizar a aliança de que precisamos entre as forças sociais e cidadãs, os grandes agentes científicos e espirituais, e os atores em posição de responsabilidade política ou econômica. Este poderia ser o primeiro assunto a ser tratado pelo Conselho de Segurança da Humanidade, numa incitação a mobilizar-nos coletivamente por uma agenda dinâmica, na perspectiva de ação da cidadania planetária.

 

 

Texto proposto em nome da rede internacional Diálogos em Humanidade, por Patrick Viveret, Débora Nunes, Marcos Arruda, Anne Marie Codur, Christine Bisch, Siddhartha, Laurence Baranski, Geneviève Ancel et Hugues de Rincquesen. 

 



Dicas para um bom texto acadêmico

2 de Setembro de 2017, 11:06, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

 

 

Escrever

Dicas para um bom texto acadêmico

 

Débora Nunes

Depois de muitos anos orientando estudantes de graduação, mestrado e doutorado, identifiquei alguns erros recorrentes e fui anotando, um a um. Essa experiência de orientadora é a base desse texto, que já vem sendo útil há muitos anos, mesmo que eu não seja especialista em redação. Espero que pessoas interessadas em escrever melhor, sobretudo no âmbito da Universidade, possam se beneficiar dessas dicas. Então vamos lá.

Um bom texto, mesmo o acadêmico, parece uma boa conversa, que flui agradavelmente, sem deixar subentendidos, nem incompreensões e encantando os interlocutores no prazer de aprender, e de certa forma, de trocar idéias. Como o leitor, ou a leitora, não tem como falar com o autor ou autora, é importante dar-lhe tempo para falar consigo mesmo enquanto lê, fazer pausas, mesmo rápidas, para pensar. Estas pausas são as pontuações bem usadas, as frases curtas, os parágrafos bem ritmados (e que não cansem quem lê), a presença de intertítulos, os capítulos que se sucedem de forma clara...

Escrever bem é saber expressar idéias de foram clara, rápida e persuasiva, com capacidade de convencer. Uma boa redação revela capacidade de raciocínio e muito esforço pessoal – mesmo para aqueles que têm mais facilidade. Nenhum bom texto é escrito de uma só vez, mesmo os melhores autores e autoras retrabalham várias vezes seus escritos para brindar quem lê com o melhor. Vamos fazer o mesmo. No final do post há uma lista para que você faça uma auto avaliação: seu texto está bom?

 

Para escrever de modo agradável e compreensível, faço algumas recomendações.

I - Sobre o tema:

O melhor tema é o que nos desperta muita curiosidade e preenche o autor/a, de alguma forma, enquanto pessoa. Só assim ela pode entregar o melhor de si mesmo/a em seu estudo e na finalização escrita da sua pesquisa.

Um bom texto deve mostrar ao leitor o processo intelectual que foi percorrido para que o autor chegue às mensagens que quer lhe passar, tanto dos autores com os quais aprendeu sobre o tema, como dos pontos de vista e formas de aproximações que foram  usadas para o entendimento do tema.

Tudo o que você escreve, portanto, é guiado pelo tema de sua escolha. Assim, observe se você não faz digressões excessivas, rodeios, como se diz, desviando-se demais do que você quer dizer. Perder-se no seu próprio texto é um perigo que você não pode correr e para isto, guie-se sempre no seu Sumário e evite parágrafos e parágrafos que não têm relação direta com seu tema. O Sumário é uma peça que ajuda a reflexão do autor e estabelece um compromisso deste com leitor. O Sumário, no processo de escrita, ajuda o autor a organizar suas idéias e não sair do seu tema, trabalhando-o de forma correta. O leitor tem ali uma percepção geral do que vai ler, despertando (ou não) seu interesse.

II- Sobre o leitor:

O/a leitor/a deve ser tratado sempre como alguém inteligente e que não tem tempo a perder. Por isto mesmo o leitor deve ter possibilidade de apreender rapidamente, em uma primeira leitura, o que o autor quer dizer. Havendo clareza no texto, o leitor pode se posicionar de acordo, contra ou manter-se em dúvida em face ao que lê e esta dinâmica o estimula a prosseguir.

Em tempos em que falta tempo, o Sumário, a Introdução e a Conclusão são os itens mais garantidos de serem lidos no texto e assim podem fazer o texto ser lembrado ou esquecido. Escreva-os com o maior cuidado, perguntando-se sempre se não podem ser melhorados para expressar de forma mais clara o que de fato você quer dizer.

A técnica de leitura dinâmica, usada por muitos leitores, onde se lê principalmente a primeira frase de cada parágrafo, faz com que seja aconselhável começar o parágrafo, ou o capítulo, pelo enunciado mais importante e só depois abordar os fatores secundários ou dados menos importantes.

III- Sobre a organização do texto ou componentes de um bom texto

Um trabalho começa com uma Apresentação que é onde o/a autor/a explica ao leitor o contexto em que o trabalho foi realizado: explica suas experiências anteriores com o tema, o que motivou sua produção, etc. É a parte mais pessoalizada do texto acadêmico, depois dos Agradecimentos, claro!

No Resumo, de cerca de 20 linhas (250 palavras), precisam estar respondidas as perguntas: o que é o trabalho, por que foi realizado, onde e quando, como se desenvolveu e quais as conclusões tiradas. É preciso que este importante texto seja bem trabalhado, pois é uma referência geral para o leitor.

O Sumário, do mesmo modo, deve ser feito com cuidado e deve ser específico do trabalho e não genérico, apenas com as palavras Introdução, Metodologia, etc. como títulos.  Mostrar a capacidade de organização e síntese das idéias do (a) autor (a) e facilitar a leitura dos leitores é a função do Sumário.

Na Introdução o tema é que é apresentado.  Em linhas gerais se contextualiza a discussão e ao final é apresentado de forma resumida o trabalho que virá a seguir (sugestão: um parágrafo para explicar cada capítulo).

Sobre o desenvolvimento do texto, serão feitas recomendações a seguir, nos itens IV e V, porém é preciso lembrar que se escreve para confirmar hipóteses levantadas previamente, aquilo que quem redige quer transmitir. Todas as considerações apresentadas sobre o tema devem ser argumentadas pelo autor/a e é importante que muitas tenham confirmações bibliográficas, estudos de outros autores e autoras. Cada argumento, dado ou informação de pesquisa deve ser referenciada com fontes ali onde elas são feitas pela primeira vez, mesmo que de forma sintética, que serão desenvolvidas depois. Quando os argumentos estão presentes em outras partes do texto, sem terem sido antes anunciados, isto dificulta o diálogo autor(a)/leitor(a), essencial em um trabalho acadêmico.

As afirmações/negações acerca do tema precisam ser feitas de forma organizada para que exista real processo argumentativo a ser seguido pelo leitor. Só assim as conclusões do trabalho poderão ser partilhadas ou se evidencie uma discordância entre o autor (a) e o leitor (a). E, ambos os casos o trabalho argumentativo foi válido e o leitor/a saiu ganhando.

Na “Conclusão” não deve haver dados novos e é o momento mais apropriado para o autor se posicionar livremente sobre o tema, em consonância com a argumentação defendida ao longo do trabalho, mantendo assim a coerência do texto.  Recomendo que a Introdução e a Conclusão tenham em torno de 10% do total de páginas do texto geral.

Os Anexos são aquelas partes, importantes, que são retirados de outra fonte para serem juntadas ao trabalho. Os Apêndices também são adendados ao trabalho no final, mas são produzidas pelo autor (roteiro de entrevista, modelo de questionário, etc). Os anexos grandes, recortes de jornal, por exemplo, devem ter marcação das informações que se referem diretamente ao tema  (com marcador colorido, ou outro, pra ajudar o leitor a ler mais rápido) e devem estar organizados em ordem cronológica.

IV- Ao tratar de um fenômeno, no desenvolvimento do texto:

  • Escrever bem significa ter hierarquias claras: A cada aspecto a ser abordado no texto, discuta o tema atentando para a hierarquia, passando:
  • do geral para o particular, ou seja fornecer uma dimensão geral do problema e depois tratar do específico; do grande para o pequeno; tratar primeiro as causas, depois os efeitos;
  • partir dos consensos e só depois entrar nas exceções ou nas polêmicas, ou seja vá do grandemente aceito para o duvidoso, comece pelos aspectos afirmativos (positivos) e só depois trate os ‘mas´ e ‘poréns` (negativos);
  • Tratar o tema sob vários pontos de vista, em termos micro e macro, abordagens de diferentes disciplinas e de diferentes estudiosos da questão.
  • Um recurso muito útil para dar amplitude ao tema é a apresentação da etimologia do(s) conceito(s) em questão, ou seja, a origem da palavra e suas diferentes acepções constantes no dicionário. Estas abordagens devem ser separadas em parágrafos, ou em subitens ou em capítulos diferentes;
  • Atentar para a cronologia, que deve ser crescente ou decrescente (por exemplo, do tempo mais anterior ao mais presente, ou partindo dos fatos do presente e indo buscar suas origens e causas no passado). A cronologia deve ser inteligível, ou seja, compreensível sem dificuldades e respeitada em sua lógica. Quando o autor decide por uma forma de abordar o tema em termos cronológicos, não poderá mudar no meio do caminho, sem confundir o leitor;
  • Para que o leitor não se canse e não se perca, compreendendo bem o que está sendo lido, fazer frases curtas (máximo em torno de quatro linhas) e parágrafos também curtos (em torno de 12 linhas). Bons textos têm normalmente um bom ritmo, ou seja, parágrafos mais ou menos do mesmo tamanho: uma referência para um bom parágrafo seria ter em torno de doze linhas, com cerca de três frases.
  • Este ritmo de tamanho de frases e parágrafos deve ser mantido com certa regularidade, sem se tornar monótono, pois é quebrado com intertítulos, figuras, divisão em capítulos, etc.
  • Uma das principais formas de orientar o leitor a melhor saborear o texto é através dos títulos e intertítulos. Trate-os de forma criteriosa, nomeando-os com precisão e síntese a cada vez que o tema tiver subtemas.
  • Atentar para jamais fazer referência a um dado ou idéia que não tenha sido citado ou discutido anteriormente. É na primeira vez que se fala de algo, que se explica se que se trata, seja uma abreviatura, um conceito, um dado. A seguir, salvo em casos raros, como textos muito grandes, não é necessário repetir;
  • O leitor deve ser considerado como distante do tema para não tornar o texto excessivamente ‘doméstico’ (por exemplo, citar as instituições sem abreviações, situar os fatos sempre num bairro, cidade e país);
  • O fenômeno deve ser abordado com segurança, demonstrando claramente a opinião do autor em relação ao que está sendo discutido, mas sem que isto seja feito de forma “panfletária”, ou dogmática. Suas dúvidas também devem ser explicitadas para que possa haver um diálogo com outros autores e com o leitor;
  • Incluir frases que ajudem o leitor a passar de uma ideia a outra, de um capítulo a outro, acompanhando o que você quer dizer (“Vendo o problema por um outro ponto de vista”, “retomando o que foi dito anteriormente”, “será abordado a seguir”);
  • As figuras, sejam elas fotos, desenhos, gráficos, quadros ou tabelas são instrumentos preciosos de síntese e em alguns casos, imprescindíveis. Lembrar que as figuras devem ser autoexplicativas e de boa qualidade e também de colocar a fonte e se é elaboração do autor/a, citar isto;
  • Lembrar que uma tabela não tem linhas no corpo e é qualitativa, enquanto que um quadro tem linhas e é quantitativo.
  • Revisar, simplificar e cortar são regras de ouro. Por exemplo, substitua “fazer um debate” por “debater”, e “com o propósito de”, por “para”. Retirando redundâncias o texto fica mais leve e agradável;
  • Deixe o texto descansar antes de revisá-lo pela ultima vez. Ao revisar tente ser de fato seu próprio leitor, crítico e imparcial;

 

V - Sobre o estilo:

  • Um erro ortográfico ou de conjugação é um pecado muito grande nestes tempos de revisão ortográfica automática. Observe o que diz seu computador e não perca a confiança do seu leitor.
  • Seja direto, evite clichês, não seja empolado, não use jargões, aproxime-se o mais possível da linguagem cotidiana. Evite tanto as expressões excessivamente coloquiais, como as excessivamente rebuscadas. 
  • Evite abreviações, siglas e símbolos, pois o leitor pode não os conhecer. Se o fizer, explique o que significa e faça lista de abreviações, se forma muitas.
  • Fornecer sempre uma ordem de grandeza compreensível para o leitor não especialista no tema em questão. Se você fala em hectares, mantenha esta referência do início ao fim do texto;
  • O objetivo de um autor deve ser de tratar o tema o mais exaustivamente possível dando o mínimo de trabalho ao leitor, assim, evite redundâncias. “Enxugue” o texto retirando seus excessos e jamais repita o que já foi dito a não ser em situações muito particulares, assinalando para o leitor que você sabe que já falou daquilo, para não parecer descuido.
  • Jamais seja vago. Na medida do possível dê dados precisos e diga suas fontes. Evite o uso de advérbios vagos e não esclarecedores, como “muito”, “pouco”, razoavelmente. É melhor dar uma medida precisa: ao invés de “Esta ideia é muito antiga” (vago) substituir por – “Esta idéia foi difundida na década de 40 do século XX” (preciso);
  • Em cada parágrafo usa-se sempre o mesmo tempo verbal.
  • Ao fornecer o dado tempo, período histórico, colocá-lo entre vírgulas. Trata-se de um aposto;
  • Não se começam frases com números. Exemplo “40% da população...” coloque uma palavra antes;
  • Uma palavra mal-usada causa má impressão, pois é sinal de ignorância: consulte o dicionário sempre que tiver a mínima dúvida.
  • Escreve-se o número por escrito quando este for menor que 10 (cinco, seis...);
  • Palavras em outras línguas, como “container” e “blitz” devem ser escritas em itálico;
  • Sempre que citar dados históricos, populacionais, técnicos, etc, citar a fonte.
  • Os mapas devem conter as fontes e as datas de levantamento.
  • Padronizar a unidade de área usada no trabalho – m² ou ha, por exemplo e só usar medidas diferentes que sejam compatíveis entre si (1 ha = 100 x 100m = 10.000m²     41,26 ha = 440.260m²), explicando isto ao leitor.
  • É imprescindível dar legenda a fotos e não só citar no texto a que elas se referem.
  • Citar as pessoas entrevistadas sempre com nome e sobrenome e dar informações rápidas de referência. Exemplo: função na empresa, líder comunitário, etc. Quando há várias entrevistas, fazer lista de entrevistados/as com data e tempo de entrevista.

 

VI - Sobre as referências citadas ou as referências bibliográficas:

 

1- Um bom trabalho acadêmico implica em uma pesquisa por parte do autor sobre outros autores que trataram do tema, que sejam citados e enriqueçam o trabalho.

2- Um bom trabalho acadêmico é aquele cujo autor verificou bem, dentro das suas possibilidades e do seu horizonte do trabalho (monografia, dissertação ou tese) os textos locais, nacionais e internacionais sobre o tema;

A ética manda que cada ideia que foi originada por outro texto seja citada. Isto se passa dentro dos limites do bom senso já que existem idéias e dados que são do senso comum e que não precisam ser referenciadas;

Utilizar um autor para dizer algo que é obvio ou amplamente conhecido (exemplo: a segregação urbana é causada pela desigualdade socioeconômica entre os moradores da cidade) demonstra fragilidade do texto.

Utilizar da credibilidade de outros, na medida em que se faz uma leitura inteligente dos mesmos, com bons resumos, boas críticas/comentários e boas relações com outros autores.

3- Entretanto, o melhor do trabalho é aquilo que o seu autor tem a dizer, o que ele aprendeu sobre o tema e que repassa a seu leitor.

 

Exemplos de referência bibliográfica.

  • Para livros: SINGER, Paul; SOUZA, André Ricardo de (Orgs.) (2000). A economia solidária no Brasil. São Paulo: Contexto, 360 p.
  • Para artigos: FRANÇA, Genauto C. Novos arranjos organizacionais possíveis? O fenômeno da economia solidária em questão (precisões e complementos). In: Organizações & Sociedade/Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, v. 8, n. 20, p. 125-137, janeiro/abril 2001.
  • Para sites: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2017. Banco de Dados. Disponível em: <http:// www.ibge.gov.br. > Acesso em: 15 maio 2017.
  • Para citar uma informação de jornal, diga o nome do jornal, o n°, a data e a página.
  • Citação no texto é feita em minúsculo “Segundo Santos... ou SANTOS (data).

 

VII - Relação com o (a) orientador (a):

A técnica da escrita depende da forma de trabalho de cada um. Você pode escrever todas as idéias que lhe veem a cabeça e depois melhorar, clarear o pensamento, classificar e colocar no local devido (parágrafo, capítulo, etc.), ou pode escrever só o que já está amadurecido. Sobretudo, não repasse ao seu orientador (a) seus esboços, pois ele (a) não vai gostar de perder tempo com isto.

A orientação é feita geralmente de uma pessoa experiente para uma menos experiente. Escute, anote, busque entender as sugestões da orientação mesmo que não concorde. Se não confia no orientador (a), é melhor trocar o mais breve possível.

 

VIII – Auto avaliação: seu texto está bom?

  • Seu resumo é sintético e espelha suas premissas e conclusões?
  • O Sumário diz claramente o que o leitor encontrará no texto?
  • Há uma lógica entre os títulos dos capítulos entre si?
  • Há lógica entre os títulos dos capítulos e os intertítulos contidos nele?
  • Há intertítulos, pelo menos, a cada cinco páginas?
  • A primeira frase de cada parágrafo (que é lida com maior atenção) anuncia o que você vai desenvolver em seguida?
  • O primeiro parágrafo de cada item anuncia o que você vai desenvolver ao longo do item?
  • O último parágrafo de cada intertítulo faz um resumo do que foi dito no item anterior e anuncia o que vai ser discutido depois?
  • Você revisou se todos os autores citados estão na Bibliografia?
  • As normas de citação e de formatação bibliográfica foram seguidas?
  • Suas Introdução e Conclusão são capazes de darem, juntas, uma ideia geral do trabalho realizado? seu tamanho está em torno de 10% do total do texto cada uma?
  • A pessoa que você pediu para revisar o texto disse que ele está claro, mesmo para um leigo? Ela não encontrou repetições?
  • Você está satisfeito consigo mesmo? Lembra que o ótimo (geralmente não realizado) é o pior inimigo do bom (efetivamente feito)

 Espero ter lhe ajudado. Reveja várias vezes o texto se guiando por essas e outras dicas (há várias na Internet) para ter um trabalho melhor, mais lido e mais admirado.

 



Brechó EcoSolidário: Link gratuito do livro sobre sua história e metodologia

20 de Agosto de 2017, 11:59, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

                                                                  Aqui Link do livro

 

 

Capa livro brechó

 

 



Gandhi x Capitalismo

8 de Agosto de 2017, 20:43, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Gandhi e o capitalismo.



A Universidade é um lugar de emancipação dos pobres e negros

29 de Julho de 2017, 22:46, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

No seu estilo provocativo, Paulo Henrique Amorim fala das teses do professor Jessé Silva. Vale a pena ver, lembra o magnífico filme "Que horas ela volta?" sobre a realidade brasileira contemporânea. Recomendo o link abaixo e o filme, seguramente!

"O ódio não é à corrupção. Mas ao PT e à ralé!"

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Bem Viver - Sumak Kawsay, uma lição andina

18 de Julho de 2017, 16:06, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Bem viver marcha indígena

 

 

Bem viver a tarde 14 julho 2018



O dinheiro e a alma

6 de Junho de 2017, 21:17, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Publicado no jornal "A Tarde", no dia 05/06/2017

Sobre o dinheiro e a alma



“Escutatória”, ou a arte de escutar

29 de Maio de 2017, 21:05, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

A arte de escutar escultura

 

(Este texto é parte do livro “Incubação de empreendimentos de economia solidária”, pag 135. Recomendo também o texto de Suzana Moura e Valéria Gianella: A ARTE DE ESCUTAR: NUANCES DE UM CAMPO DE PRÁTICAS E DE CONHECIMENTO)

 

Este tema foi tratado por muitos estudiosos e o título desta seção refere-se a dois deles: um, é Rubem Alves, cronista brasileiro que busca aproximar-se da alma humana em suas reflexões semanais em jornais e em seus livros e cunhou o termo “escutatória”. A outra referência é Marinella Sclavi, autora italiana que escreveu o livro Arte de escutar e mundos possíveis[1].

Rubem Alves começa falando que nunca ouviu falar em cursos de “escutatória”, apenas nos de “oratória”, e revela a dificuldade humana de escutar, pois, segundo ele, enquanto se fala, sente-se que se é mais importante. Diz Alves:

[...] nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade [...] a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. [2]

A reflexão de Rubem Alves é um alerta sobre as dificuldades de escuta que estão dentro de cada um, vinculadas à necessidade constante de reconhecimento: quantas vezes se ouve, mas não se escuta?  Ao mesmo tempo, é preciso estar consciente de que as dificuldades de escutar estão também vinculadas ao mundo externo, ao outro, sobre o que não temos controle. Mal-entendidos, incapacidade do interlocutor de se fazer entender, falas descontroladas e desconexas, silêncios, situações limite... Muitas são as dificuldades de comunicação que não serão tratadas aqui, porém, para aquele que trabalha com incubação, desenvolver sua própria capacidade de escutar já é uma grande contribuição para o estabelecimento de um ambiente comunicacional mais sadio.

A segunda autora que ilumina a possibilidade de desenvolver a habilidade da escuta é Marinella Sclavi que sintetiza, no seu belíssimo livro, as sete regras para a arte de escutar e vincula estas regras à construção do mundo. Este outro mundo que se afirma que é possível – mais justo, mais sustentável – e de cuja construção tantos estão fazendo parte. Para entender essas regras, é preciso compreender o pano de fundo das idéias da autora: ela explica que o modo como se é formado, sobretudo na universidade, mas não apenas, não é suficiente – e às vezes atrapalha – a construção de um mundo plural, onde as pessoas realmente possam se escutar.

Este modo de ver o mundo é o que se chama, no ambiente acadêmico, “paradigma positivista” [3] que implica em considerar o mundo como objeto regido por leis universais e que é tarefa da ciência descobri-las para poder descrevê-lo e explicá-lo. Para tal, a ciência separou as partes do real para torná-lo mais “claro” e criou as especialidades, o saber dos especialistas. O mundo era entendido como homogêneo culturalmente e a diversidade e heterogeneidade de conceitos e culturas que vemos atualmente não faziam sentido na época. Todos eram convidados a ver o mundo a partir de premissas simplificadoras e só quando o positivismo passou a ser questionado é que a complexidade do mundo passou a ser entrevista. Desde então, para se construir uma compreensão de fatos, eventos, personagens históricos, etc., muitos passaram à busca de uma contextualização, de olhar o mundo sob vários pontos de vista... Entretanto, desde o Iluminismo do século XVIII, a ciência se tornou um instrumento poderoso de avanço das condições de vida de uma parte da humanidade, tendo sido base para a Revolução Industrial. O pensamento científico, confundido com o pensamento positivista, tornou-se a forma de pensar e a ideologia dominante ao longo dos séculos XIX e XX.  As enormes conquistas científicas, técnicas e tecnológicas obtidas fizeram com que esta lógica chegasse a penetrar até mesmo o senso comum – forma de pensar do dia-a-dia das pessoas que não são especialistas – e tenha se tornado, por longo tempo, a única visão possível, natural e indiscutível.

O problema é que, neste “paradigma positivista”, nesta forma de conhecimento da ciência tradicional, separam-se, por exemplo, biologia e psicologia, uma sendo ciência “dura”, natural, e a outra, mais próxima da especulação, da subjetividade, pouco “científica”. Nesta lógica, separam-se razão e emoção, mente e corpo, teoria e prática, racionalidade e espiritualidade, sendo que os primeiros são mais valorizados. Esses aspectos, que formam conjuntamente nosso ser humano, tornaram-se não comunicantes, fronteiras, sem possibilidade de mistura. Para a ciência, uma visão exclui as demais e pretende autoridade absoluta. Nesta lógica, as emoções são entendidas como elementos que dificultam a compreensão, que seria isenta, neutra. Face ao sucesso explicativo da ciência e da lógica simplificadora do positivismo, os humanos são formados, tanto na escola, na universidade, como, muitas vezes, na vida, para achar que o que se sabe, o que se pensa, é a verdade. Logicamente, isto coloca dificuldades na possibilidade real de escuta do outro e no questionamento de cada um à suas próprias verdades. Desapegar-se do modo pessoal de ver as coisas, de entendê-las, dar-se a liberdade de colocar-se em outro ponto de vista, de ampliar sua compreensão, sua visão de mundo, pode ser um caminho para um real diálogo com o outro. A seguir serão apresentadas as sete regras da arte de escutar, segundo Sclavi (2000), tentando vinculá-las ao breve quadro teórico acima explicado e à prática de incubação de cooperativas.

A primeira das regras é “não ter pressa de chegar a conclusões. As conclusões são a parte mais efêmera da busca”.  Está implícito nesta primeira regra a ênfase dada à relação de escuta mútua, na qual cada uma das partes se dispõe de fato a entender os motivos, a lógica, as emoções do outro. Como foi visto, esta primeira regra contrasta com a crença corrente de só haver uma verdade, estando a outra visão – logicamente – errada. Dar-se tempo (“vamos retomar a discussão na próxima conversa?”) para se questionar o próprio ponto de vista (“por que penso assim e não de outra forma?” e “quais as circunstâncias que levam o outro a pensar diferente?”) faz toda a diferença.

Face ao que propõe esta primeira regra, é preciso colocar em cheque a visão de mundo individual, com suas premissas implícitas, suas lógicas pessoais. Isto é geralmente incômodo e as pessoas não se dispõem facilmente a questionar-se a si mesmas, pois isto faz com que cada um se sinta “sem chão”, como se os próprios pilares que sustentam o mundo individual fossem abalados. O estar sem pressa implica o saber estar no “espaço ameaçador” do desconhecido, saber gerir a ansiedade que isto comporta. Isto é também um primeiro ponto que pode chamar a atenção para a concepção das emoções da autora, que é bem diferente da tradicional. Aqui, ao invés de estarem atravancando a capacidade de conhecimento, as emoções estão sinalizando que algo importante está acontecendo em termos de novas possibilidades de enxergar o mundo.

Quando se consegue efetivamente não ter pressa de chegar à conclusão em uma disputa de idéias e se dá tempo para a construção mútua da compreensão, esta escuta verdadeira constrói a confiança, que é o bem mais precioso para quem empreende junto um projeto. Tanto para incubadores/as como para empreendedores, em relações entre si ou de uns com os outros, as conclusões sobre um tema em discussão em determinado momento são muitas vezes momentâneas, que podem ser superadas em circunstância posterior. A confiança, entretanto, que é base para todas as ações conjuntas, é permanente e se constrói no processo de diálogo e não no resultado de uma disputa de idéias, identificando quem, num determinado momento, tinha razão ou não. É o processo que conta e o tempo do processo.

A segunda regra, aparentemente simples, mas brilhante, a iluminar a compreensão, diz que “aquilo que se vê depende do ponto de vista. Para conseguir ver o seu próprio ponto de vista você deve mudar de ponto de vista”. O ponto de vista de cada um não apenas incorpora e está condicionado pela sua vivência, educação, cultura familiar, mas está tão profundamente enraizado na visão de mundo do ambiente que o cerca, que se tornam padrões quase invisíveis, dificultando a compreensão interpessoal. Se se pensa, por exemplo, nas formas de ver o mundo “paternas” e “maternas” sobre como cuidar dos filhos, pode-se entender melhor por que, muitas vezes, os pais se acusam mutuamente, de um lado, de serem “neuróticos” e, de outro, de serem “descuidados”.[4]

Na relação de incubação, quando estão em contato pessoas oriundas de experiências sociais e culturais geralmente distintas, este exercício de sair de um ponto de vista e de se colocar no outro pode ser a chave para o verdadeiro diálogo. Isto tanto por parte dos incubadores, como dos incubados. Como os/as incubadores/as estão neste processo por dever profissional (e, claro, também como militantes de uma causa, mas isto não vem ao caso agora) cabe a eles/as colocar-se em constante exercício de mudar de ponto de vista. Com o tempo, e com o exercício continuado desta conduta, seria interessante que esta atitude também fosse aprendida e assumida pelos membros dos empreendimentos incubados, para favorecer o mútuo entendimento.

De acordo com a terceira regra, “se você quer compreender o que o outro está dizendo, deve assumir que há razões para o que ele diz e pedir-lhe para ajudá-lo a ver as coisas e os eventos desde sua perspectiva”. Esta regra complementa a segunda, na medida em que a passagem de um ponto de vista a outro nem sempre é simples e fácil. Precisa-se, muitas vezes, de ajuda para se conseguir olhar uma idéia ou um fato a partir do ponto de vista do outro; pedir-lhe esta ajuda é o caminho mais rápido para a passagem e talvez o método crucial para o estabelecimento da confiança. Nem sempre, entretanto, o outro consegue explicar-se e, nem por isto, deixa de ter razão, pois, na arte de escutar, parte-se do princípio de que o que o outro diz está coerente com a sua própria lógica e, portanto, merece ser escutado. Outros caminhos para a compreensão mútua precisam ser tentados, inclusive os que se estendem para além da fala, aqueles que estimulem a empatia, que é uma forma mais profunda de compreensão, já que aí há uma identificação diferenciada entre as pessoas.

Quando se trata de conflitos dentro do grupo, pode-se usar a técnica de dividi-lo em dois com diferentes pontos de vista e deslocar alguém de um grupo para tentar defender a idéia do outro (com a qual ele não concorda, num primeiro momento) e vice-versa. A empatia entre os que têm a mesma opinião pode ajudar a que a idéia que vêm do outro grupo pela boca de um “parceiro” possa ser melhor escutada. De qualquer modo, fazer coisas juntos, como empreender ações coletivamente, festejar em grupo, fazer atividades físicas juntos, entre outras tantas atividades não necessariamente racionais são formas de estabelecer ambientes mais cooperativos e de escuta.

Na quarta regra, que necessita de um aprofundamento maior, diz-se que “as emoções são instrumentos cognitivos fundamentais, se se sabe compreender sua linguagem. Elas não lhe dão informações sobre o que você vê, mas sobre como você percebe as coisas. Seu código é relacional e analógico”.[5]

 Esta regra faz referência a toda uma argumentação de Marinella Sclavi acerca de como se podem perceber as emoções. Por um lado, elas podem ser vistas como aquilo que informa cada pessoa sobre uma situação vivida e determina sua reação. Elas provocariam assim formas mecânicas de reação, controlando as pessoas, empurrando-as para reações- padrão: tem-se medo, foge-se; tem-se raiva, agride-se. Se as emoções são vistas assim, elas podem ser “inimigas” da relação, pois submetem as pessoas e não as deixam ver o contexto. Por outro lado, as emoções podem ser “amigas” e ajudar as pessoas a superar os conflitos na medida em que elas revelam como cada um percebe as coisas.

Assim, diante de uma emoção de medo pode-se perguntar: por que isto me assusta? O que está por trás deste meu sentimento? Do mesmo modo, pode-se perguntar: por que sinto raiva diante de determinada situação? Quando a autora fala em quadro relacional e analógico, ela quer dizer que na relação não há apenas uma resposta, ou outra, zero e um, como no código digital, do computador. As coisas não são brancas ou pretas, elas são um fluxo, têm nuances, passam por todos os cinzas. Assim, nas relações e nos sentimentos que são suscitados pelas emoções, cada um pode se abrir, guiado por elas, para a cognição – o conhecimento e a compreensão – de como se percebem as coisas, o mundo.

Se as pessoas em relação se abrem para esta perspectiva da emoção como um código analógico (cheio de possibilidades) para o conhecimento, mais facilmente se escutarão, se entenderão. Os psicólogos e psicanalistas teimam em dizer que aquilo que mais incomoda tem sempre muito a dizer sobre cada um. Se a cada vez que alguém repete algo a pessoa sente a mesma raiva, ou a mesma emoção, aí está um sinal que é um campo fértil para se entender melhor e o outro passa a ser não o inimigo que magoa, mas o amigo que coloca o dedo na ferida para mostrar como curá-la. Claro que, na prática, as coisas não são tão simples, cada um resiste, inclusive ao autoconhecimento, e nem sempre se quer enfrentar medos, dúvidas, etc. ... muito menos quando são provocados por alguém com quem não se simpatiza. Mas escutar não é fácil, é mesmo um longo aprendizado...Na quinta regra, é dito que “um bom ouvinte é um explorador de mundos possíveis. Os sinais mais importantes para ele são aqueles que se apresentam à consciência como insignificantes e desconfortáveis, marginais porque incongruentes”. Voltando à argumentação anterior, a autora ressalta que, para haver uma real escuta, é preciso que se “desnaturalize” o que parece óbvio para a cultura pessoal, que se confronte o pré-julgamento de cada um sobre o comportamento e a fala do outro. Nem sempre o outro quer dizer, com seu comportamento e sua fala, aquilo que é interpretado como sendo seu “discurso”. Seria necessário, a cada situação de aparente conflito, dar-se ao incômodo de perguntar por que se interpreta deste modo o que o outro diz ou faz. E prestar atenção a esta resposta. Diz-se que “o diabo se esconde nos detalhes”, é preciso atentar para eles, aceitar que eles não são evidentes, buscá-los.

Aqui se pode colocar um problema muito comum na incubação: ouvir os que não falam (e que nem sempre são também bons “escutantes”). O que eles querem dizer? que aquele assunto não lhes interessa? (por que?), que não entendem o que está sendo dito? (por que?), que não se sentem à vontade para se manifestar (como ajudá-lo/a/s?), que não querem se envolver? A mensagem implícita dos que não falam também precisa ser compreendida. Sabe-se que o ambiente em que há sempre a preponderância da fala de um sobre a fala dos outros – o mais comum – não é o ambiente adequado à proposta da autogestão. Este fato tanto mostra que há os que querem o monopólio da fala, como há os que escolhem o comportamento do silêncio. Dificilmente há um sem o outro e há, nessas escolhas, prazeres e dores, comodidade e incômodo. É o projeto coletivo que interroga a todos e explora os mundos possíveis.

 A sexta regra afirma que “um bom ouvinte aceita prazerosamente o paradoxo do pensamento e da comunicação. Enfrenta o dissenso como ocasião para exercitar-se em um campo que o apaixona: a gestão criativa do conflito”.[6]  Quando bem atentos à arte da “escutatória”, o exercício de sair das próprias referências para realmente escutar o/a outro/a nas referências que o/a cercam torna-se um campo apaixonante. Deixa-se de estar em campo seguro de interpretação dos fatos – aquele que parece natural a cada um – e busca-se desvendar o que está implícito, entender a lógica da posição do outro. Quando a intenção de gerir bem o conflito passa a ser mais importante do que “ter razão”, tenta-se valorizar os aspectos positivos da compreensão que o outro tem dos fatos e que o leva a falar ou agir do seu modo.

Por fim, a sétima regra expressa a idéia de que “para tornar-se especialista na arte de escutar, deve-se adotar uma metodologia humorística. Mas quando se aprende a escutar, o humor apresenta-se naturalmente”. O humor geralmente parte de situações que não são ordinárias, chamando atenção para o estranho, o ridículo. Assim é uma forma de ver as coisas de outro modo, uma técnica para sair do que é rotineiro, da forma “normal” de ver as coisas. A utilização do humor na arte de escutar implica em olhar as circunstâncias buscando o que elas têm de leveza, de estranho, de passageiro, e isto pode ajudar na superação de conflitos. Nas situações de humor as pessoas são mais soltas e aceitam melhor algo que é dito de brincadeira, com suavidade, do que quando se diz a mesma coisa de modo sério. Assim, quando de fato se escuta o outro, dentro do seu contexto e de sua compreensão, o contraste deste com o próprio contexto e compreensão pode revelar-se pitoresco, insólito e mesmo absurdo. Ou seja, cômico, engraçado. Várias técnicas podem ser desenvolvidas usando o humor para ajudar na estruturação ou na consolidação do grupo: teatro, imitação, piadas... Rir é sempre um bom remédio, até para ajudar a escutar.

Por fim, ,retomando o que foi dito até aqui, a definição da escutatória não é apenas a atitude de escutar, de ouvir o outro realmente. A escutatória implica na atitude de tentar entender o outro e a situação vivida por cada um e pelo grupo de forma ampla, buscando realmente compreender os contextos. Isto é muito mais difícil do que a mera civilidade de prestar atenção no que o outro diz, que deveria ser corriqueira. Escutar, no sentido que foi abordado aqui, exige mais reflexão, que ultrapassa o momento da conversa ou da discussão grupal. Há que se pensar, após este momento, e retomar novamente a discussão depois que ambos (ou todos) os participantes  tenham-se perguntado: “onde está a razão do que ele/a me diz, ou eles/elas me dizem?”. Para tanto, recomenda-se que, no processo de incubação, as discussões importantes possam ser retomadas várias vezes, dando-se tempo para se amadureça o verdadeiro diálogo.

Quando aprender a escutar se torna uma real busca pessoal e grupal e quando a capacidade de escuta que cada um e o grupo alcançam é realmente valorizada, tem-se uma real mudança cultural, tão buscada na Economia Solidária. Não é quem fala mais, melhor ou mais alto que é mais respeitado. Ao contrário, é quem equilibra a fala e a escuta, quem, na sua fala, mostra haver buscado escutar/compreender diferentes pontos de vista, é quem de fato merece atenção do grupo. O interessante é que esta é a atitude dos sábios, no mais das vezes a dos mais experientes e isto pode explicar por que, em tantas culturas não “modernas”, as palavras dos mais velhos é tão respeitada.

 

 

[1] SCLAVI, Marianella, Arte di ascoltare e mondi possibili. Milão: Le Vespe, 2000. Aproveito para agradecer aqui o apoio generoso de Valéria Gianella, que ajudou na tradução de partes do livro, que existe, por enquanto, apenas no original italiano.

[2] ALVES, Rubem. Escutatória. Disponível em: <www.caosmose.net/candido/unisinos/textos/escutatoria.htm>. Acesso em: 05 dez. 2007.

[3] Paradigma é uma expressão que indica o conjunto de idéias que baseia uma forma de ver o mundo, de entendê-lo. Paradigma positivista relaciona-se sobretudo com o pensador francês Auguste Comte (1798 – 1857), fundador do positivismo, que afirmava que “positivo” seria o real, o útil, o certo, o preciso, o relativo, o orgânico e o simpático.  Pergunta-se: e aquilo que não é nada disto, não existe? Não importa? Não faz sentido?

[4] Falou-se em pais e mães e não em homens e mulheres porque há homens “maternais” e mulheres “paternais”, uns querendo proteger os filhos dos problemas e outros querendo ensinar-lhes a superá-los pela vivência e o enfrentamento. Quem, do lado de fora, ousaria dizer quem está certo ou errado no comportamento normalmente tão bem intencionado dos pais, sem primeiro situar-se em cada circunstância e respeitando os diferentes pontos de vista, ou seja, “escutando”?

[5] Relacional é o que tem lógica na relação, enquanto analógico é uma palavra que se usa em contraposição àquilo que é digital. Como exemplo bem cotidiano, pode-se lembrar da imagem do antigo relógio mecânico, de ponteiros, no qual antes de marcar a hora certa (em cima do número desenhado no relógio) os ponteiros ficam em “lugares incertos da hora”, enquanto o relógio computadorizado, digital,  dá a hora sempre em números, de modo que a hora em que se está é bem exata e explícita.

[6] Paradoxo é uma contradição, aparente ou real. Dissenso é a falta de compreensão comum de um mesmo fato, a falta de concordância entre pessoas.



Permacultura e Marsha Hanzi

24 de Maio de 2017, 22:34, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Marsha hanzi

A TARDE OPINIÃO A3 SALVADOR SEGUNDA-FEIRA 8/5/2017

Permacultura

Débora Nunes

Coordenadora da Escola de Sustentabilidade Integral

[email protected]

Num mundo no qual o rápido, o fugaz e o superficial ainda são majoritários, não é estranho que pessoas tenham pensado na cultura do que permanece e se aprofunda. Toda a história humana se fez assim: enquanto a maioria está em um estágio, há os que já pensam e vivem como no tempo que virá. Bill Mollison e David Holmgren fazem parte destes construtores de futuro e não é à toa que o conceito de Permacultura, criado por eles na Austrália no final dos anos 70, seja hoje conhecido no mundo todo. Como dizia sabiamente Margaret Mead: “Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que o mundo mudou”.

Criado no ambiente rural, o desenho permacultural permitiu planejar e intervir na terra contribuindo para a abundância de alimentos, a conservação do solo e das espécies e diminuição do trabalho humano. Ao envolver práticas agrícolas tradicionais e descobertas científicas contemporâneas, a Permacultura realiza ambientes sustentáveis, favoráveis à vida de forma mais próxima aos ecossistemas naturais e com isso promovendo a perenidade, como só a Natureza sabe fazer. Hoje a Permacultura é vista como uma maneira integral de planejar e agir, seja no campo ou na cidade, incorporando as dimensões econômica, relacional, construtiva, tecnológica, educacional e a saúde física e espiritual.

Podem-se encontrar os três princípios permaculturais básicos – “cuidar da terra”, “cuidar das pessoas” e “partilhar os excedentes”, em várias experiências: na agricultura orgânica rural e urbana, nas ecovilas, na agroecologia, nas agroflorestas, nos eco-bairros etc. Essas e tantas outras iniciativas vão se tornando cada vez mais conhecidas e respeitadas e funcionam como práticas do futuro emergente, ou seja, com vocação para serem hegemônicas no amanhã, quando as condições para isso amadurecerem. Essas experiências evidenciam o esgotamento do modelo socioeconômico e político vigente e a busca crescente das pessoas por uma existência com mais sentido e mais qualidade. Uma vida em que cada pessoa possa encontrar seu lugar no mundo e entender o lugar de cada outro elemento na grande Teia da Vida.

Enquanto o mundo corre atrás de segurança e dinheiro, essas pessoas aceitam que a Vida é interconexão, interdependência e incerteza e buscam viver de outras riquezas. A Bahia foi a sede do primeiro Instituto de Permacultura do Brasil e sua fundadora, Marsha Hanzi, assim como sua equipe, de brasileiros e estrangeiros, continua por aí, permanentemente, abrindo frentes de novos modos de viver e mostrando que isso é possível e prazeroso.

 

Assista ao lindo vídeo com Marsha Hanzi, no Epicentro Marizá, onde ela vive: Porque não o paraíso?

 



LULA, COMO NÃO SER MAIS DO MESMO?

17 de Maio de 2017, 10:23, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

 Lula atento a carta de ma.jpeg Marcos falando a lula.jpeg

 

CARTA ABERTA AO EX-PRESIDENTE LULA E AO PT

de Marcos Arruda

16.5.2017 

Caros Lula e militância do PT,

Sua fala depois de cinco horas de depoimento frente ao Juiz Moro foi digna e convincente. Sua maneira firme e gentil de enfrentar as tentativas dele de impedir que você dissesse o que tinha que dizer naquele Foro conseguiu dobra-lo. Sua disponibilidade de voltar a depor quantas vezes forem necessárias, sem jamais eximir-se de trazer à Justiça e ao público a sua verdade foi um golpe nesta instituição habituada a engolir mentiras e conciliar com o poder e o dinheiro. Sua insistência em denunciar o conluio Judiciário-grande imprensa que montaram juntos a maior perseguição contra um Presidente da República jamais feita no Brasil, foi justa e oportuna. Sua antecipação de que a grande imprensa, - que durante dois anos tem priorizado denúncias e ataques infundados e sem evidências cabais, traindo a missão da imprensa de compromisso com a verdade e a boa informação ao seu público, - vai ficar desmoralizada e perplexa se no fim das contas não houver jeito senão reconhecer a inteireza de Lula, é gozosamente verdadeira. E sua advertência final, de que se isto acontecer, o próximo alvo dessa mesma imprensa será o próprio Juiz Moro é perceptiva e impactante.

Muitos de nós, que escutamos seu depoimento de ontem, temos a impressão de que você venceu esta dura batalha. Mas a guerra das elites contra a sua pessoa individual e política, e contra um projeto de Nação soberana, democrática, solidária e sustentável continua. Você identifica certeiramente: as elites retrógradas que concentram a riqueza e comandam a economia, e hoje também a política e o sistema judiciário do Brasil, não toleram que “o andar de baixo” ganhe a Presidência da República e represente o Brasil para dentro e para fora dele. Essas elites são oportunistas e venenosas. Num momento, vendo que a vitória eleitoral do PT era inevitável, vieram oferecer apoio e aliança, contanto que o programa de governo do PT fosse engavetado. Depois de uma década e quase meia de governo petista, que conseguiu iniciar uma democratização da renda sem prejudicar os altos ganhos daquelas elites, elas decidiram que a ocasião estava dada de parar com os compromissos sociais e mudar não apenas as políticas, mas também as leis e a Constituição, no que tinham de favoráveis aos direitos da maioria trabalhadora. Não foi outro o sentido da usurpação do poder do Estado pela quadrilha golpista encabeçada por Temer e Meirelles.

É preciso neste momento antecipar os próximos passos. A falta de provas contra você, Lula, pode, efetivamente, levar a um impasse o plano estratégico dessas elites de destruir e banir definitivamente da política o Lula, a Dilma e o PT. As elites super-ricas do país não hesitam em perseguir e assassinar aqueles que se opõem aos seus interesses. Basta olhar o comportamento dos próceres do agronegócio em relação aos camponeses e aos povos indígenas. E a agressividade com que tratam o povo trabalhador e os povos indígenas e quilombolas, em particular ao longo dos 21 anos de ditadura corporativo-militar, e novamente agora, desde a instalação do governo usurpador.

Por outro lado, há provas suficientes de que as pessoas-chave dos três Poderes do Brasil atual têm laços de colaboração com o poder imperial – econômico, político e militar - dos Estados Unidos. E as elites do complexo financeiro-industrial-militar dos EUA usam qualquer meio, por mais autoritário, violento e imoral que seja, para destruir os governos de países que elas consideram estratégicos para os interesses econômicos e geopolíticos do Império, inclusive o treinamento de militares e policiais daqueles países em sequestros, tortura e assassinato de opositores, o estímulo e apoio a golpes militares ou civis, e o assassinato de presidentes (como no Equador e no Panamá nos anos 80).12 O governo golpista Temer-Meirelles foi instalado para aprofundar de forma sustentável a submissão da política brasileira aos interesses da metrópole ianqui. O Pré-Sal e os minérios brasileiros, com destaque para o nióbio e o ouro, são cobiçados pelas transnacionais e a guerra pelo controle deles justifica qualquer ato golpista e criminoso. Portanto, todo cuidado com sua saúde e integridade é pouco.

Mas, devemos lembrar que você e o PT se desviaram muito do projeto que os elegeu, de adotar políticas e escolher investimentos que fossem gradualmente orientando o Brasil para a democratização efetiva e real da economia, da política e da cultura, no sentido de crescente autogestão e colaboração solidária, a efetiva soberania sobre o território, a produção de bens e serviços, em particular, as finanças nacionais, e uma condição de vida e trabalho boa e sustentável para todas e todos os cidadãos. Vocês foram responsáveis por introduzir no governo a asquerosa figura de Henrique Meirelles, diretor de um banco estadunidense credor do Brasil, que representava os interesses do grande capital financeiro privado transnacional3; vocês queimaram a imagem ética do PT ao se aliarem, tendo por pretexto a governabilidade, com alguns dos políticos mais podres do Pais, como Paulo Maluf, Newton Cardoso, José Sarney e Sergio Cabral; demonstraram falta de coragem de enfrentar os setores militares reacionários, não tomando qualquer iniciativa no sentido de abrir-se a caixa preta da ditadura, identificando os criminosos responsáveis pelas torturas, assassinados, desaparecimentos de presos políticos, e encobrimento do destino dos mesmos; recusaram realizar a auditoria da dívida pública, que iria estancar a sangria da poupança do País e ampliar efetivamente a disponibilidade de recursos orçamentários para a gestão do Estado e o início das grandes reformas prometidas durante a campanhas; assim, ficaram reféns da entrada e saída de capitais externos especulativos, e decidiram facilitar seu movimento liberando-os de impostos, contribuindo para a financeirização crescente da economia; não consumaram, como prometido, o processo de reforma agrária4; nem fizeram a reforma tributária, condição para a efetiva desconcentração da terra e da renda no País; escancararam as portas dos setores de sementes e agroquímicos (entre outros) a transnacionais como a Monsanto e a Syngenta; seguiram o mito capitalista do crescimento ilimitado, impondo megaprojetos desastrosos para as populações locais e o meio natural; deixaram de tomar medidas radicais contra o desmatamento da Amazônia e pelo seu reflorestamento; não desfizeram privatizações de empresas nacionais estratégicas, realizadas pelo governo Cardoso de forma espúria e prejudicial à soberania e ao interesse nacional, como foram os casos da Telebrás e da Vale do Rio Doce; e não realizaram com a devida urgência da demarcação das terras indígenas, obedecendo a Constituição.

Mais grave que tudo, a meu ver, Lula e petistas, foi o afastamento das suas bases eleitorais e o abandono da estrutura partidária organizada de baixo para cima. Alguns justificam: “fizemos o que era possível fazer naquelas condições...” Eu acrescento: “… com aquela correlação de forças.” Mas esta estava mudando! 60 milhões de votos eram um apoio imenso, que expressava uma imensa esperança na transformação do país prometida por você e pelo PT. Com base neste povo que os elegeu, vocês podiam ter iniciado as reformas que apontariam para a democratização da economia, o empoderamento das classes trabalhadoras, e a efeitiva e progressiva distribuição da renda e da riqueza, do saber e do poder. No entanto, vocês escolheram abandonar suas bases eleitorais e fazer alianças partidárias espúrias, que não tinham como referência o programa de governo do PT, e levaram o movimento social a fragmentar-se e o partido a encolher-se e conformar-se com o papel de mero gestor do sistema do capital. Ouvi aquela sua frase fatídica quando entrevistado pelo Bonner no Jornal Nacional: “para ganhar as eleições eu faço aliança até com o diabo.” Lula e petistas, o golpismo atualmente vitorioso é, pelo menos em parte, resultado da aliança que vocês fizeram com o diabo.

Um dirigente gaúcho resumiu o papel político que o PT no Governo Federal pretendia desempenhar. Parafraseio seu discurso, “queremos ser um colchão entre as massas trabalhadoras e os que controlam a economia, reduzindo os conflitos e unindo o país em torno das reformas que melhorem as condições de vida dos trabalhadores, e reforcem a posição do Brasil no contexto internacional.” Na impossibilidade de impedir a posse e o governo de um Presidente que veio “do andar de baixo”, às oligarquias e aos seus intelectuais orgânicos mais esclarecidos - nacionais e estrangeiros – restava desejar que o PT no governo federal promovesse a conciliação de classes. E vocês assumiram este papel, mesmo sabendo que a luta de classes é criação da exploração e opressão dos que detêm o capital, e não dos trabalhadores ativos, jubilados ou excluídos. Se, por um lado, vocês mudaram o regime, sobrepondo políticas sociais ao sistema retrógrado de exploração das trabalhadoras e trabalhadores, por outro não tocaram nas bases do sistema do capital mundial implantado no Brasil, e nada fizeram para iniciar sua transformação estrutural no sentido não só do redução da pobreza, mas da libertação do trabalho humano.

Lula e petistas, desde o processo do Mensalão e o início da Operação Lava Jato e, mais ainda, a partir da articulação das direitas para impedirem a Dilma, Presidenta da República eleita e reeleita, vocês têm sido vítimas da mais agressiva perseguição da história política do Brasil. Sim, houve traição dos políticos e seus partidos que estavam aliados ao PT e agora se voltaram contra ele. Este é o momento de vocês tirarem uma lição desta traição: não dá para confiar nas oligarquias. E deste erro vocês deviam fazer uma autocrítica pública, como a única forma correta de iniciar uma fase nova de compromisso autêntico com a maioria trabalhadora. Nosso povo é generoso, e vai se sensibilizar pela justiça deste ato de humildade.

O maior medo atual das oligarquias é que vocês lancem Lula como candidato para as eleições de 2018 e as vençam. Será a debacle final do golpismo. Ou será o pretexto para a tentativa de um novo golpe. As pesquisas de opinião têm mostrado que Lula continua sendo o candidato potencialmente mais votado. As oligarquias estão fazendo, e vão fazer tudo que puderem para impedir que isto aconteça. Um dos cenários possíveis, no qual estão empenhadas neste momento, é condenarem e prenderem você, Lula, com ou sem provas. Já impediram a Dilma sem causas juridicamente defensáveis, num processo vergonhoso para a Nação. Outro cenário é que você consiga sair incólume deste processo, o que representará uma brutal derrota das oligarquias. Neste caso, elas irão procurar outros meios: decerto vão intensificar as calúnias com apoio da grande mídia, talvez vão tentar uma mais agressiva tentativa de cooptação, talvez usar até meios violentos, a fim de sabotar sua candidatura ou sua vitória eleitoral.

Mas como o Lulismo esteve aliado com grande parte dessas direitas durante mais de 13 anos, cabe a vocês mostrarem aos que perderam a confiança no PT e nas suas direções que, elegendo o Lula, o Brasil não estará fazendo um retorno ao passado das alianças espúrias que, afinal, se viraram como um bumerangue contra o PT e o próprio País. Com a mesma coragem com que você enfrentou o Juiz Moro, você deve enfrentar o inescapável desafio de fazer uma autocrítica destas alianças, e dos compromissos que decorreram delas.

Indo além. No caso de uma vitória eleitoral, se você e o PT realmente reconhecerem publicamente os erros passados – que têm custado tão caro à Nação e ao povo trabalhador, e afirmarem seu compromisso com a transformação do Brasil visando a superação de todas as opressões – não só as das classes sociais, mas também as de gênero, raça, credo e nações – a meu ver vocês vão precisar fazer o que prometeram durante a campanha de 2002, mas não fizeram: apoiar-se no seu eleitorado, então grandemente majoritário, para governar com a maioria trabalhadora, e não com a minoria oligárquica. Isto vai implicar construir uma nova constelação de alianças, não em torno de favores, mas sim de um programa de governo que tenhaum horizonte estratégico, e não apenas curtoprazista. Que seja construído em consulta e colaboração com os diversos movimentos da cidadania ativa do Brasil, visando também motivar e integrar, quanto possível, setores das massas indiferentes.

Três princípios são a meu ver bússolas para o programa:

1) afirmar que os bens e os recursos gerados pelo trabalho humano têm que remunerar dignamente os que os produziram e também o resto da cidadania;5 isto exige que a economia seja orientada para servir ao desenvolvimento humano e social como objetivo maior dela;

2) construir um governo participativo, com base na proporcionalidade, superando a Estatolatria ao conceber e praticar o Estado como um serviço ao povo, e um meio de educar e promover o empoderamento do povo trabalhador nos campos da riqueza, do saber e do poder de autogerir suas comunidades; exige também uma reforma política que dê efetivo poder à Cidadania. É essencial ter uma estratégia de transição ancorada na consolidação de um poder público não-estatal que passe a hegemonizar as decisões do poder de Estado e seja potente o bastante para enfrentar a contra-revolução que será capitaneada pelas forças internas e externas do capital;

3) compreender a sociedade e a economia como um subsistema da Natureza, e não o contrário;6 em todas as decisões, levar em conta os limites ao crescimento impostos pelos ecossistemas, e as ameaças climáticas provocadas pela ação humana. O Brasil tem tudo para tornar-se um exemplo para o mundo de nação que restaura os seus biomas e ecossistemas e recupera com audácia e coragem as suas florestas, águas, solos e a sua biodiversidade.

Gostaria muito de receber ao menos uma confirmação sua de que recebeu esta carta. Se o diálogo com você se mostrar possível, estou disposto a escrever mais, a partir do ponto de vista das comunidades sociais a que pertenço atualmente.

Cordialmente,

Marcos Arruda

[email protected]

  1. Com base no nosso conhecimento mútuo desde o meu exílio em Genebra, escrevi a vc uma série de cartas propositivas ao longo de três anos. Publiquei uma seleção delas no livro “Cartas a Lula: Outro Brasil é Possível”, 2006, (Editora Documenta Historica). Nessas cartas eu compartilho com você experiências e saberes acumulados em anos de luta política e social, prisão, tortura e exílio, luta contra a ditadura, trabalho político e profissional como economista e educador no exterior e aqui no Brasil, e como membro no PT, ativo na comissão que trabalhava os temas das relações internacionais. Retirei-me do PT em 2005, sentindo o mesmo desencanto de milhares de outrxs ex-militantes, e com a mesma garra de continuar lutando pela libertação de todas as opressões junto ao nosso povo. As cartas lhe eram entregues por um amigo comum, seu colaborador próximo na Presidência. Conforme conto no livro, nem você nem seus ministros deram respostas substanciais às minhas questões e propostas. Por isso, o conteúdo do livro, a meu ver, continua válido e pode dar origem a um diálogo respeitoso e criativo sobre Outro Brasil Possível.

 

1 http://www.nytimes.com/1996/09/28/opinion/school-of-the-dictators.html

2 Ouça a entrevista, com legenda em português, de John Perkins, autor do livro Confissões de um Assassino Econômico, http://www.terremoto.com.br/zeitgeist-addendum/. Ele conta como nossos países estão reduzidos a presas dos interesses corporativos e geopolíticos dos Estados Unidos.

3 “Dormindo com o inimigo”...

4 Entrevista com o Professor Ariovaldo Umbelino, 12.1.2011 - https://www.cartacapital.com.br/politica/politica-agraria-do-governo-lula-valorizou-o-agronegocio

5 “De cada umx segundo suas capacidades, a cada umx segundo suas necessidades”.

6 “A Terra não pertence ao Homo, é o Homo que pertence à Terra. Tudo está interconectado como o sangue que nos une a todos. O Homo não teceu a teia da vida, ele é apenas um fio dela. O que quer que faça com a teia, faz a si mesmo.” (Chefe Seattle, 1855)