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12 de Janeiro de 2009, 22:00 , por Desconhecido - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.

A Universidade é um lugar de emancipação dos pobres e negros

20 de Julho de 2017, 16:37, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

No seu estilo provocativo, Paulo Henrique Amorim fala das teses do professor Jessé Silva

 

 

Jesse Souza

 

https://www.youtube.com/watch?v=dZp1FLzITMc



Bem Viver - Sumak Kawsay, uma lição andina

18 de Julho de 2017, 15:06, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Bem viver marcha indígena

 

 

Bem viver a tarde 14 julho 2018



O dinheiro e a alma

6 de Junho de 2017, 20:17, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Publicado no jornal "A Tarde", no dia 05/06/2017

Sobre o dinheiro e a alma



“Escutatória”, ou a arte de escutar

29 de Maio de 2017, 20:05, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

A arte de escutar escultura

 

(Este texto é parte do livro “Incubação de empreendimentos de economia solidária”, pag 135. Recomendo também o texto de Suzana Moura e Valéria Gianella: A ARTE DE ESCUTAR: NUANCES DE UM CAMPO DE PRÁTICAS E DE CONHECIMENTO)

 

Este tema foi tratado por muitos estudiosos e o título desta seção refere-se a dois deles: um, é Rubem Alves, cronista brasileiro que busca aproximar-se da alma humana em suas reflexões semanais em jornais e em seus livros e cunhou o termo “escutatória”. A outra referência é Marinella Sclavi, autora italiana que escreveu o livro Arte de escutar e mundos possíveis[1].

Rubem Alves começa falando que nunca ouviu falar em cursos de “escutatória”, apenas nos de “oratória”, e revela a dificuldade humana de escutar, pois, segundo ele, enquanto se fala, sente-se que se é mais importante. Diz Alves:

[...] nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade [...] a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. [2]

A reflexão de Rubem Alves é um alerta sobre as dificuldades de escuta que estão dentro de cada um, vinculadas à necessidade constante de reconhecimento: quantas vezes se ouve, mas não se escuta?  Ao mesmo tempo, é preciso estar consciente de que as dificuldades de escutar estão também vinculadas ao mundo externo, ao outro, sobre o que não temos controle. Mal-entendidos, incapacidade do interlocutor de se fazer entender, falas descontroladas e desconexas, silêncios, situações limite... Muitas são as dificuldades de comunicação que não serão tratadas aqui, porém, para aquele que trabalha com incubação, desenvolver sua própria capacidade de escutar já é uma grande contribuição para o estabelecimento de um ambiente comunicacional mais sadio.

A segunda autora que ilumina a possibilidade de desenvolver a habilidade da escuta é Marinella Sclavi que sintetiza, no seu belíssimo livro, as sete regras para a arte de escutar e vincula estas regras à construção do mundo. Este outro mundo que se afirma que é possível – mais justo, mais sustentável – e de cuja construção tantos estão fazendo parte. Para entender essas regras, é preciso compreender o pano de fundo das idéias da autora: ela explica que o modo como se é formado, sobretudo na universidade, mas não apenas, não é suficiente – e às vezes atrapalha – a construção de um mundo plural, onde as pessoas realmente possam se escutar.

Este modo de ver o mundo é o que se chama, no ambiente acadêmico, “paradigma positivista” [3] que implica em considerar o mundo como objeto regido por leis universais e que é tarefa da ciência descobri-las para poder descrevê-lo e explicá-lo. Para tal, a ciência separou as partes do real para torná-lo mais “claro” e criou as especialidades, o saber dos especialistas. O mundo era entendido como homogêneo culturalmente e a diversidade e heterogeneidade de conceitos e culturas que vemos atualmente não faziam sentido na época. Todos eram convidados a ver o mundo a partir de premissas simplificadoras e só quando o positivismo passou a ser questionado é que a complexidade do mundo passou a ser entrevista. Desde então, para se construir uma compreensão de fatos, eventos, personagens históricos, etc., muitos passaram à busca de uma contextualização, de olhar o mundo sob vários pontos de vista... Entretanto, desde o Iluminismo do século XVIII, a ciência se tornou um instrumento poderoso de avanço das condições de vida de uma parte da humanidade, tendo sido base para a Revolução Industrial. O pensamento científico, confundido com o pensamento positivista, tornou-se a forma de pensar e a ideologia dominante ao longo dos séculos XIX e XX.  As enormes conquistas científicas, técnicas e tecnológicas obtidas fizeram com que esta lógica chegasse a penetrar até mesmo o senso comum – forma de pensar do dia-a-dia das pessoas que não são especialistas – e tenha se tornado, por longo tempo, a única visão possível, natural e indiscutível.

O problema é que, neste “paradigma positivista”, nesta forma de conhecimento da ciência tradicional, separam-se, por exemplo, biologia e psicologia, uma sendo ciência “dura”, natural, e a outra, mais próxima da especulação, da subjetividade, pouco “científica”. Nesta lógica, separam-se razão e emoção, mente e corpo, teoria e prática, racionalidade e espiritualidade, sendo que os primeiros são mais valorizados. Esses aspectos, que formam conjuntamente nosso ser humano, tornaram-se não comunicantes, fronteiras, sem possibilidade de mistura. Para a ciência, uma visão exclui as demais e pretende autoridade absoluta. Nesta lógica, as emoções são entendidas como elementos que dificultam a compreensão, que seria isenta, neutra. Face ao sucesso explicativo da ciência e da lógica simplificadora do positivismo, os humanos são formados, tanto na escola, na universidade, como, muitas vezes, na vida, para achar que o que se sabe, o que se pensa, é a verdade. Logicamente, isto coloca dificuldades na possibilidade real de escuta do outro e no questionamento de cada um à suas próprias verdades. Desapegar-se do modo pessoal de ver as coisas, de entendê-las, dar-se a liberdade de colocar-se em outro ponto de vista, de ampliar sua compreensão, sua visão de mundo, pode ser um caminho para um real diálogo com o outro. A seguir serão apresentadas as sete regras da arte de escutar, segundo Sclavi (2000), tentando vinculá-las ao breve quadro teórico acima explicado e à prática de incubação de cooperativas.

A primeira das regras é “não ter pressa de chegar a conclusões. As conclusões são a parte mais efêmera da busca”.  Está implícito nesta primeira regra a ênfase dada à relação de escuta mútua, na qual cada uma das partes se dispõe de fato a entender os motivos, a lógica, as emoções do outro. Como foi visto, esta primeira regra contrasta com a crença corrente de só haver uma verdade, estando a outra visão – logicamente – errada. Dar-se tempo (“vamos retomar a discussão na próxima conversa?”) para se questionar o próprio ponto de vista (“por que penso assim e não de outra forma?” e “quais as circunstâncias que levam o outro a pensar diferente?”) faz toda a diferença.

Face ao que propõe esta primeira regra, é preciso colocar em cheque a visão de mundo individual, com suas premissas implícitas, suas lógicas pessoais. Isto é geralmente incômodo e as pessoas não se dispõem facilmente a questionar-se a si mesmas, pois isto faz com que cada um se sinta “sem chão”, como se os próprios pilares que sustentam o mundo individual fossem abalados. O estar sem pressa implica o saber estar no “espaço ameaçador” do desconhecido, saber gerir a ansiedade que isto comporta. Isto é também um primeiro ponto que pode chamar a atenção para a concepção das emoções da autora, que é bem diferente da tradicional. Aqui, ao invés de estarem atravancando a capacidade de conhecimento, as emoções estão sinalizando que algo importante está acontecendo em termos de novas possibilidades de enxergar o mundo.

Quando se consegue efetivamente não ter pressa de chegar à conclusão em uma disputa de idéias e se dá tempo para a construção mútua da compreensão, esta escuta verdadeira constrói a confiança, que é o bem mais precioso para quem empreende junto um projeto. Tanto para incubadores/as como para empreendedores, em relações entre si ou de uns com os outros, as conclusões sobre um tema em discussão em determinado momento são muitas vezes momentâneas, que podem ser superadas em circunstância posterior. A confiança, entretanto, que é base para todas as ações conjuntas, é permanente e se constrói no processo de diálogo e não no resultado de uma disputa de idéias, identificando quem, num determinado momento, tinha razão ou não. É o processo que conta e o tempo do processo.

A segunda regra, aparentemente simples, mas brilhante, a iluminar a compreensão, diz que “aquilo que se vê depende do ponto de vista. Para conseguir ver o seu próprio ponto de vista você deve mudar de ponto de vista”. O ponto de vista de cada um não apenas incorpora e está condicionado pela sua vivência, educação, cultura familiar, mas está tão profundamente enraizado na visão de mundo do ambiente que o cerca, que se tornam padrões quase invisíveis, dificultando a compreensão interpessoal. Se se pensa, por exemplo, nas formas de ver o mundo “paternas” e “maternas” sobre como cuidar dos filhos, pode-se entender melhor por que, muitas vezes, os pais se acusam mutuamente, de um lado, de serem “neuróticos” e, de outro, de serem “descuidados”.[4]

Na relação de incubação, quando estão em contato pessoas oriundas de experiências sociais e culturais geralmente distintas, este exercício de sair de um ponto de vista e de se colocar no outro pode ser a chave para o verdadeiro diálogo. Isto tanto por parte dos incubadores, como dos incubados. Como os/as incubadores/as estão neste processo por dever profissional (e, claro, também como militantes de uma causa, mas isto não vem ao caso agora) cabe a eles/as colocar-se em constante exercício de mudar de ponto de vista. Com o tempo, e com o exercício continuado desta conduta, seria interessante que esta atitude também fosse aprendida e assumida pelos membros dos empreendimentos incubados, para favorecer o mútuo entendimento.

De acordo com a terceira regra, “se você quer compreender o que o outro está dizendo, deve assumir que há razões para o que ele diz e pedir-lhe para ajudá-lo a ver as coisas e os eventos desde sua perspectiva”. Esta regra complementa a segunda, na medida em que a passagem de um ponto de vista a outro nem sempre é simples e fácil. Precisa-se, muitas vezes, de ajuda para se conseguir olhar uma idéia ou um fato a partir do ponto de vista do outro; pedir-lhe esta ajuda é o caminho mais rápido para a passagem e talvez o método crucial para o estabelecimento da confiança. Nem sempre, entretanto, o outro consegue explicar-se e, nem por isto, deixa de ter razão, pois, na arte de escutar, parte-se do princípio de que o que o outro diz está coerente com a sua própria lógica e, portanto, merece ser escutado. Outros caminhos para a compreensão mútua precisam ser tentados, inclusive os que se estendem para além da fala, aqueles que estimulem a empatia, que é uma forma mais profunda de compreensão, já que aí há uma identificação diferenciada entre as pessoas.

Quando se trata de conflitos dentro do grupo, pode-se usar a técnica de dividi-lo em dois com diferentes pontos de vista e deslocar alguém de um grupo para tentar defender a idéia do outro (com a qual ele não concorda, num primeiro momento) e vice-versa. A empatia entre os que têm a mesma opinião pode ajudar a que a idéia que vêm do outro grupo pela boca de um “parceiro” possa ser melhor escutada. De qualquer modo, fazer coisas juntos, como empreender ações coletivamente, festejar em grupo, fazer atividades físicas juntos, entre outras tantas atividades não necessariamente racionais são formas de estabelecer ambientes mais cooperativos e de escuta.

Na quarta regra, que necessita de um aprofundamento maior, diz-se que “as emoções são instrumentos cognitivos fundamentais, se se sabe compreender sua linguagem. Elas não lhe dão informações sobre o que você vê, mas sobre como você percebe as coisas. Seu código é relacional e analógico”.[5]

 Esta regra faz referência a toda uma argumentação de Marinella Sclavi acerca de como se podem perceber as emoções. Por um lado, elas podem ser vistas como aquilo que informa cada pessoa sobre uma situação vivida e determina sua reação. Elas provocariam assim formas mecânicas de reação, controlando as pessoas, empurrando-as para reações- padrão: tem-se medo, foge-se; tem-se raiva, agride-se. Se as emoções são vistas assim, elas podem ser “inimigas” da relação, pois submetem as pessoas e não as deixam ver o contexto. Por outro lado, as emoções podem ser “amigas” e ajudar as pessoas a superar os conflitos na medida em que elas revelam como cada um percebe as coisas.

Assim, diante de uma emoção de medo pode-se perguntar: por que isto me assusta? O que está por trás deste meu sentimento? Do mesmo modo, pode-se perguntar: por que sinto raiva diante de determinada situação? Quando a autora fala em quadro relacional e analógico, ela quer dizer que na relação não há apenas uma resposta, ou outra, zero e um, como no código digital, do computador. As coisas não são brancas ou pretas, elas são um fluxo, têm nuances, passam por todos os cinzas. Assim, nas relações e nos sentimentos que são suscitados pelas emoções, cada um pode se abrir, guiado por elas, para a cognição – o conhecimento e a compreensão – de como se percebem as coisas, o mundo.

Se as pessoas em relação se abrem para esta perspectiva da emoção como um código analógico (cheio de possibilidades) para o conhecimento, mais facilmente se escutarão, se entenderão. Os psicólogos e psicanalistas teimam em dizer que aquilo que mais incomoda tem sempre muito a dizer sobre cada um. Se a cada vez que alguém repete algo a pessoa sente a mesma raiva, ou a mesma emoção, aí está um sinal que é um campo fértil para se entender melhor e o outro passa a ser não o inimigo que magoa, mas o amigo que coloca o dedo na ferida para mostrar como curá-la. Claro que, na prática, as coisas não são tão simples, cada um resiste, inclusive ao autoconhecimento, e nem sempre se quer enfrentar medos, dúvidas, etc. ... muito menos quando são provocados por alguém com quem não se simpatiza. Mas escutar não é fácil, é mesmo um longo aprendizado...Na quinta regra, é dito que “um bom ouvinte é um explorador de mundos possíveis. Os sinais mais importantes para ele são aqueles que se apresentam à consciência como insignificantes e desconfortáveis, marginais porque incongruentes”. Voltando à argumentação anterior, a autora ressalta que, para haver uma real escuta, é preciso que se “desnaturalize” o que parece óbvio para a cultura pessoal, que se confronte o pré-julgamento de cada um sobre o comportamento e a fala do outro. Nem sempre o outro quer dizer, com seu comportamento e sua fala, aquilo que é interpretado como sendo seu “discurso”. Seria necessário, a cada situação de aparente conflito, dar-se ao incômodo de perguntar por que se interpreta deste modo o que o outro diz ou faz. E prestar atenção a esta resposta. Diz-se que “o diabo se esconde nos detalhes”, é preciso atentar para eles, aceitar que eles não são evidentes, buscá-los.

Aqui se pode colocar um problema muito comum na incubação: ouvir os que não falam (e que nem sempre são também bons “escutantes”). O que eles querem dizer? que aquele assunto não lhes interessa? (por que?), que não entendem o que está sendo dito? (por que?), que não se sentem à vontade para se manifestar (como ajudá-lo/a/s?), que não querem se envolver? A mensagem implícita dos que não falam também precisa ser compreendida. Sabe-se que o ambiente em que há sempre a preponderância da fala de um sobre a fala dos outros – o mais comum – não é o ambiente adequado à proposta da autogestão. Este fato tanto mostra que há os que querem o monopólio da fala, como há os que escolhem o comportamento do silêncio. Dificilmente há um sem o outro e há, nessas escolhas, prazeres e dores, comodidade e incômodo. É o projeto coletivo que interroga a todos e explora os mundos possíveis.

 A sexta regra afirma que “um bom ouvinte aceita prazerosamente o paradoxo do pensamento e da comunicação. Enfrenta o dissenso como ocasião para exercitar-se em um campo que o apaixona: a gestão criativa do conflito”.[6]  Quando bem atentos à arte da “escutatória”, o exercício de sair das próprias referências para realmente escutar o/a outro/a nas referências que o/a cercam torna-se um campo apaixonante. Deixa-se de estar em campo seguro de interpretação dos fatos – aquele que parece natural a cada um – e busca-se desvendar o que está implícito, entender a lógica da posição do outro. Quando a intenção de gerir bem o conflito passa a ser mais importante do que “ter razão”, tenta-se valorizar os aspectos positivos da compreensão que o outro tem dos fatos e que o leva a falar ou agir do seu modo.

Por fim, a sétima regra expressa a idéia de que “para tornar-se especialista na arte de escutar, deve-se adotar uma metodologia humorística. Mas quando se aprende a escutar, o humor apresenta-se naturalmente”. O humor geralmente parte de situações que não são ordinárias, chamando atenção para o estranho, o ridículo. Assim é uma forma de ver as coisas de outro modo, uma técnica para sair do que é rotineiro, da forma “normal” de ver as coisas. A utilização do humor na arte de escutar implica em olhar as circunstâncias buscando o que elas têm de leveza, de estranho, de passageiro, e isto pode ajudar na superação de conflitos. Nas situações de humor as pessoas são mais soltas e aceitam melhor algo que é dito de brincadeira, com suavidade, do que quando se diz a mesma coisa de modo sério. Assim, quando de fato se escuta o outro, dentro do seu contexto e de sua compreensão, o contraste deste com o próprio contexto e compreensão pode revelar-se pitoresco, insólito e mesmo absurdo. Ou seja, cômico, engraçado. Várias técnicas podem ser desenvolvidas usando o humor para ajudar na estruturação ou na consolidação do grupo: teatro, imitação, piadas... Rir é sempre um bom remédio, até para ajudar a escutar.

Por fim, ,retomando o que foi dito até aqui, a definição da escutatória não é apenas a atitude de escutar, de ouvir o outro realmente. A escutatória implica na atitude de tentar entender o outro e a situação vivida por cada um e pelo grupo de forma ampla, buscando realmente compreender os contextos. Isto é muito mais difícil do que a mera civilidade de prestar atenção no que o outro diz, que deveria ser corriqueira. Escutar, no sentido que foi abordado aqui, exige mais reflexão, que ultrapassa o momento da conversa ou da discussão grupal. Há que se pensar, após este momento, e retomar novamente a discussão depois que ambos (ou todos) os participantes  tenham-se perguntado: “onde está a razão do que ele/a me diz, ou eles/elas me dizem?”. Para tanto, recomenda-se que, no processo de incubação, as discussões importantes possam ser retomadas várias vezes, dando-se tempo para se amadureça o verdadeiro diálogo.

Quando aprender a escutar se torna uma real busca pessoal e grupal e quando a capacidade de escuta que cada um e o grupo alcançam é realmente valorizada, tem-se uma real mudança cultural, tão buscada na Economia Solidária. Não é quem fala mais, melhor ou mais alto que é mais respeitado. Ao contrário, é quem equilibra a fala e a escuta, quem, na sua fala, mostra haver buscado escutar/compreender diferentes pontos de vista, é quem de fato merece atenção do grupo. O interessante é que esta é a atitude dos sábios, no mais das vezes a dos mais experientes e isto pode explicar por que, em tantas culturas não “modernas”, as palavras dos mais velhos é tão respeitada.

 

 

[1] SCLAVI, Marianella, Arte di ascoltare e mondi possibili. Milão: Le Vespe, 2000. Aproveito para agradecer aqui o apoio generoso de Valéria Gianella, que ajudou na tradução de partes do livro, que existe, por enquanto, apenas no original italiano.

[2] ALVES, Rubem. Escutatória. Disponível em: <www.caosmose.net/candido/unisinos/textos/escutatoria.htm>. Acesso em: 05 dez. 2007.

[3] Paradigma é uma expressão que indica o conjunto de idéias que baseia uma forma de ver o mundo, de entendê-lo. Paradigma positivista relaciona-se sobretudo com o pensador francês Auguste Comte (1798 – 1857), fundador do positivismo, que afirmava que “positivo” seria o real, o útil, o certo, o preciso, o relativo, o orgânico e o simpático.  Pergunta-se: e aquilo que não é nada disto, não existe? Não importa? Não faz sentido?

[4] Falou-se em pais e mães e não em homens e mulheres porque há homens “maternais” e mulheres “paternais”, uns querendo proteger os filhos dos problemas e outros querendo ensinar-lhes a superá-los pela vivência e o enfrentamento. Quem, do lado de fora, ousaria dizer quem está certo ou errado no comportamento normalmente tão bem intencionado dos pais, sem primeiro situar-se em cada circunstância e respeitando os diferentes pontos de vista, ou seja, “escutando”?

[5] Relacional é o que tem lógica na relação, enquanto analógico é uma palavra que se usa em contraposição àquilo que é digital. Como exemplo bem cotidiano, pode-se lembrar da imagem do antigo relógio mecânico, de ponteiros, no qual antes de marcar a hora certa (em cima do número desenhado no relógio) os ponteiros ficam em “lugares incertos da hora”, enquanto o relógio computadorizado, digital,  dá a hora sempre em números, de modo que a hora em que se está é bem exata e explícita.

[6] Paradoxo é uma contradição, aparente ou real. Dissenso é a falta de compreensão comum de um mesmo fato, a falta de concordância entre pessoas.



Permacultura e Marsha Hanzi

24 de Maio de 2017, 21:34, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Marsha hanzi

A TARDE OPINIÃO A3 SALVADOR SEGUNDA-FEIRA 8/5/2017

Permacultura

Débora Nunes

Coordenadora da Escola de Sustentabilidade Integral

rededeboranunes@gmail.com

Num mundo no qual o rápido, o fugaz e o superficial ainda são majoritários, não é estranho que pessoas tenham pensado na cultura do que permanece e se aprofunda. Toda a história humana se fez assim: enquanto a maioria está em um estágio, há os que já pensam e vivem como no tempo que virá. Bill Mollison e David Holmgren fazem parte destes construtores de futuro e não é à toa que o conceito de Permacultura, criado por eles na Austrália no final dos anos 70, seja hoje conhecido no mundo todo. Como dizia sabiamente Margaret Mead: “Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que o mundo mudou”.

Criado no ambiente rural, o desenho permacultural permitiu planejar e intervir na terra contribuindo para a abundância de alimentos, a conservação do solo e das espécies e diminuição do trabalho humano. Ao envolver práticas agrícolas tradicionais e descobertas científicas contemporâneas, a Permacultura realiza ambientes sustentáveis, favoráveis à vida de forma mais próxima aos ecossistemas naturais e com isso promovendo a perenidade, como só a Natureza sabe fazer. Hoje a Permacultura é vista como uma maneira integral de planejar e agir, seja no campo ou na cidade, incorporando as dimensões econômica, relacional, construtiva, tecnológica, educacional e a saúde física e espiritual.

Podem-se encontrar os três princípios permaculturais básicos – “cuidar da terra”, “cuidar das pessoas” e “partilhar os excedentes”, em várias experiências: na agricultura orgânica rural e urbana, nas ecovilas, na agroecologia, nas agroflorestas, nos eco-bairros etc. Essas e tantas outras iniciativas vão se tornando cada vez mais conhecidas e respeitadas e funcionam como práticas do futuro emergente, ou seja, com vocação para serem hegemônicas no amanhã, quando as condições para isso amadurecerem. Essas experiências evidenciam o esgotamento do modelo socioeconômico e político vigente e a busca crescente das pessoas por uma existência com mais sentido e mais qualidade. Uma vida em que cada pessoa possa encontrar seu lugar no mundo e entender o lugar de cada outro elemento na grande Teia da Vida.

Enquanto o mundo corre atrás de segurança e dinheiro, essas pessoas aceitam que a Vida é interconexão, interdependência e incerteza e buscam viver de outras riquezas. A Bahia foi a sede do primeiro Instituto de Permacultura do Brasil e sua fundadora, Marsha Hanzi, assim como sua equipe, de brasileiros e estrangeiros, continua por aí, permanentemente, abrindo frentes de novos modos de viver e mostrando que isso é possível e prazeroso.

 

Assista ao lindo vídeo com Marsha Hanzi, no Epicentro Marizá, onde ela vive: Porque não o paraíso?

 



LULA, COMO NÃO SER MAIS DO MESMO?

17 de Maio de 2017, 9:23, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

 Lula atento a carta de ma.jpeg Marcos falando a lula.jpeg

 

CARTA ABERTA AO EX-PRESIDENTE LULA E AO PT

de Marcos Arruda

16.5.2017 

Caros Lula e militância do PT,

Sua fala depois de cinco horas de depoimento frente ao Juiz Moro foi digna e convincente. Sua maneira firme e gentil de enfrentar as tentativas dele de impedir que você dissesse o que tinha que dizer naquele Foro conseguiu dobra-lo. Sua disponibilidade de voltar a depor quantas vezes forem necessárias, sem jamais eximir-se de trazer à Justiça e ao público a sua verdade foi um golpe nesta instituição habituada a engolir mentiras e conciliar com o poder e o dinheiro. Sua insistência em denunciar o conluio Judiciário-grande imprensa que montaram juntos a maior perseguição contra um Presidente da República jamais feita no Brasil, foi justa e oportuna. Sua antecipação de que a grande imprensa, - que durante dois anos tem priorizado denúncias e ataques infundados e sem evidências cabais, traindo a missão da imprensa de compromisso com a verdade e a boa informação ao seu público, - vai ficar desmoralizada e perplexa se no fim das contas não houver jeito senão reconhecer a inteireza de Lula, é gozosamente verdadeira. E sua advertência final, de que se isto acontecer, o próximo alvo dessa mesma imprensa será o próprio Juiz Moro é perceptiva e impactante.

Muitos de nós, que escutamos seu depoimento de ontem, temos a impressão de que você venceu esta dura batalha. Mas a guerra das elites contra a sua pessoa individual e política, e contra um projeto de Nação soberana, democrática, solidária e sustentável continua. Você identifica certeiramente: as elites retrógradas que concentram a riqueza e comandam a economia, e hoje também a política e o sistema judiciário do Brasil, não toleram que “o andar de baixo” ganhe a Presidência da República e represente o Brasil para dentro e para fora dele. Essas elites são oportunistas e venenosas. Num momento, vendo que a vitória eleitoral do PT era inevitável, vieram oferecer apoio e aliança, contanto que o programa de governo do PT fosse engavetado. Depois de uma década e quase meia de governo petista, que conseguiu iniciar uma democratização da renda sem prejudicar os altos ganhos daquelas elites, elas decidiram que a ocasião estava dada de parar com os compromissos sociais e mudar não apenas as políticas, mas também as leis e a Constituição, no que tinham de favoráveis aos direitos da maioria trabalhadora. Não foi outro o sentido da usurpação do poder do Estado pela quadrilha golpista encabeçada por Temer e Meirelles.

É preciso neste momento antecipar os próximos passos. A falta de provas contra você, Lula, pode, efetivamente, levar a um impasse o plano estratégico dessas elites de destruir e banir definitivamente da política o Lula, a Dilma e o PT. As elites super-ricas do país não hesitam em perseguir e assassinar aqueles que se opõem aos seus interesses. Basta olhar o comportamento dos próceres do agronegócio em relação aos camponeses e aos povos indígenas. E a agressividade com que tratam o povo trabalhador e os povos indígenas e quilombolas, em particular ao longo dos 21 anos de ditadura corporativo-militar, e novamente agora, desde a instalação do governo usurpador.

Por outro lado, há provas suficientes de que as pessoas-chave dos três Poderes do Brasil atual têm laços de colaboração com o poder imperial – econômico, político e militar - dos Estados Unidos. E as elites do complexo financeiro-industrial-militar dos EUA usam qualquer meio, por mais autoritário, violento e imoral que seja, para destruir os governos de países que elas consideram estratégicos para os interesses econômicos e geopolíticos do Império, inclusive o treinamento de militares e policiais daqueles países em sequestros, tortura e assassinato de opositores, o estímulo e apoio a golpes militares ou civis, e o assassinato de presidentes (como no Equador e no Panamá nos anos 80).12 O governo golpista Temer-Meirelles foi instalado para aprofundar de forma sustentável a submissão da política brasileira aos interesses da metrópole ianqui. O Pré-Sal e os minérios brasileiros, com destaque para o nióbio e o ouro, são cobiçados pelas transnacionais e a guerra pelo controle deles justifica qualquer ato golpista e criminoso. Portanto, todo cuidado com sua saúde e integridade é pouco.

Mas, devemos lembrar que você e o PT se desviaram muito do projeto que os elegeu, de adotar políticas e escolher investimentos que fossem gradualmente orientando o Brasil para a democratização efetiva e real da economia, da política e da cultura, no sentido de crescente autogestão e colaboração solidária, a efetiva soberania sobre o território, a produção de bens e serviços, em particular, as finanças nacionais, e uma condição de vida e trabalho boa e sustentável para todas e todos os cidadãos. Vocês foram responsáveis por introduzir no governo a asquerosa figura de Henrique Meirelles, diretor de um banco estadunidense credor do Brasil, que representava os interesses do grande capital financeiro privado transnacional3; vocês queimaram a imagem ética do PT ao se aliarem, tendo por pretexto a governabilidade, com alguns dos políticos mais podres do Pais, como Paulo Maluf, Newton Cardoso, José Sarney e Sergio Cabral; demonstraram falta de coragem de enfrentar os setores militares reacionários, não tomando qualquer iniciativa no sentido de abrir-se a caixa preta da ditadura, identificando os criminosos responsáveis pelas torturas, assassinados, desaparecimentos de presos políticos, e encobrimento do destino dos mesmos; recusaram realizar a auditoria da dívida pública, que iria estancar a sangria da poupança do País e ampliar efetivamente a disponibilidade de recursos orçamentários para a gestão do Estado e o início das grandes reformas prometidas durante a campanhas; assim, ficaram reféns da entrada e saída de capitais externos especulativos, e decidiram facilitar seu movimento liberando-os de impostos, contribuindo para a financeirização crescente da economia; não consumaram, como prometido, o processo de reforma agrária4; nem fizeram a reforma tributária, condição para a efetiva desconcentração da terra e da renda no País; escancararam as portas dos setores de sementes e agroquímicos (entre outros) a transnacionais como a Monsanto e a Syngenta; seguiram o mito capitalista do crescimento ilimitado, impondo megaprojetos desastrosos para as populações locais e o meio natural; deixaram de tomar medidas radicais contra o desmatamento da Amazônia e pelo seu reflorestamento; não desfizeram privatizações de empresas nacionais estratégicas, realizadas pelo governo Cardoso de forma espúria e prejudicial à soberania e ao interesse nacional, como foram os casos da Telebrás e da Vale do Rio Doce; e não realizaram com a devida urgência da demarcação das terras indígenas, obedecendo a Constituição.

Mais grave que tudo, a meu ver, Lula e petistas, foi o afastamento das suas bases eleitorais e o abandono da estrutura partidária organizada de baixo para cima. Alguns justificam: “fizemos o que era possível fazer naquelas condições...” Eu acrescento: “… com aquela correlação de forças.” Mas esta estava mudando! 60 milhões de votos eram um apoio imenso, que expressava uma imensa esperança na transformação do país prometida por você e pelo PT. Com base neste povo que os elegeu, vocês podiam ter iniciado as reformas que apontariam para a democratização da economia, o empoderamento das classes trabalhadoras, e a efeitiva e progressiva distribuição da renda e da riqueza, do saber e do poder. No entanto, vocês escolheram abandonar suas bases eleitorais e fazer alianças partidárias espúrias, que não tinham como referência o programa de governo do PT, e levaram o movimento social a fragmentar-se e o partido a encolher-se e conformar-se com o papel de mero gestor do sistema do capital. Ouvi aquela sua frase fatídica quando entrevistado pelo Bonner no Jornal Nacional: “para ganhar as eleições eu faço aliança até com o diabo.” Lula e petistas, o golpismo atualmente vitorioso é, pelo menos em parte, resultado da aliança que vocês fizeram com o diabo.

Um dirigente gaúcho resumiu o papel político que o PT no Governo Federal pretendia desempenhar. Parafraseio seu discurso, “queremos ser um colchão entre as massas trabalhadoras e os que controlam a economia, reduzindo os conflitos e unindo o país em torno das reformas que melhorem as condições de vida dos trabalhadores, e reforcem a posição do Brasil no contexto internacional.” Na impossibilidade de impedir a posse e o governo de um Presidente que veio “do andar de baixo”, às oligarquias e aos seus intelectuais orgânicos mais esclarecidos - nacionais e estrangeiros – restava desejar que o PT no governo federal promovesse a conciliação de classes. E vocês assumiram este papel, mesmo sabendo que a luta de classes é criação da exploração e opressão dos que detêm o capital, e não dos trabalhadores ativos, jubilados ou excluídos. Se, por um lado, vocês mudaram o regime, sobrepondo políticas sociais ao sistema retrógrado de exploração das trabalhadoras e trabalhadores, por outro não tocaram nas bases do sistema do capital mundial implantado no Brasil, e nada fizeram para iniciar sua transformação estrutural no sentido não só do redução da pobreza, mas da libertação do trabalho humano.

Lula e petistas, desde o processo do Mensalão e o início da Operação Lava Jato e, mais ainda, a partir da articulação das direitas para impedirem a Dilma, Presidenta da República eleita e reeleita, vocês têm sido vítimas da mais agressiva perseguição da história política do Brasil. Sim, houve traição dos políticos e seus partidos que estavam aliados ao PT e agora se voltaram contra ele. Este é o momento de vocês tirarem uma lição desta traição: não dá para confiar nas oligarquias. E deste erro vocês deviam fazer uma autocrítica pública, como a única forma correta de iniciar uma fase nova de compromisso autêntico com a maioria trabalhadora. Nosso povo é generoso, e vai se sensibilizar pela justiça deste ato de humildade.

O maior medo atual das oligarquias é que vocês lancem Lula como candidato para as eleições de 2018 e as vençam. Será a debacle final do golpismo. Ou será o pretexto para a tentativa de um novo golpe. As pesquisas de opinião têm mostrado que Lula continua sendo o candidato potencialmente mais votado. As oligarquias estão fazendo, e vão fazer tudo que puderem para impedir que isto aconteça. Um dos cenários possíveis, no qual estão empenhadas neste momento, é condenarem e prenderem você, Lula, com ou sem provas. Já impediram a Dilma sem causas juridicamente defensáveis, num processo vergonhoso para a Nação. Outro cenário é que você consiga sair incólume deste processo, o que representará uma brutal derrota das oligarquias. Neste caso, elas irão procurar outros meios: decerto vão intensificar as calúnias com apoio da grande mídia, talvez vão tentar uma mais agressiva tentativa de cooptação, talvez usar até meios violentos, a fim de sabotar sua candidatura ou sua vitória eleitoral.

Mas como o Lulismo esteve aliado com grande parte dessas direitas durante mais de 13 anos, cabe a vocês mostrarem aos que perderam a confiança no PT e nas suas direções que, elegendo o Lula, o Brasil não estará fazendo um retorno ao passado das alianças espúrias que, afinal, se viraram como um bumerangue contra o PT e o próprio País. Com a mesma coragem com que você enfrentou o Juiz Moro, você deve enfrentar o inescapável desafio de fazer uma autocrítica destas alianças, e dos compromissos que decorreram delas.

Indo além. No caso de uma vitória eleitoral, se você e o PT realmente reconhecerem publicamente os erros passados – que têm custado tão caro à Nação e ao povo trabalhador, e afirmarem seu compromisso com a transformação do Brasil visando a superação de todas as opressões – não só as das classes sociais, mas também as de gênero, raça, credo e nações – a meu ver vocês vão precisar fazer o que prometeram durante a campanha de 2002, mas não fizeram: apoiar-se no seu eleitorado, então grandemente majoritário, para governar com a maioria trabalhadora, e não com a minoria oligárquica. Isto vai implicar construir uma nova constelação de alianças, não em torno de favores, mas sim de um programa de governo que tenhaum horizonte estratégico, e não apenas curtoprazista. Que seja construído em consulta e colaboração com os diversos movimentos da cidadania ativa do Brasil, visando também motivar e integrar, quanto possível, setores das massas indiferentes.

Três princípios são a meu ver bússolas para o programa:

1) afirmar que os bens e os recursos gerados pelo trabalho humano têm que remunerar dignamente os que os produziram e também o resto da cidadania;5 isto exige que a economia seja orientada para servir ao desenvolvimento humano e social como objetivo maior dela;

2) construir um governo participativo, com base na proporcionalidade, superando a Estatolatria ao conceber e praticar o Estado como um serviço ao povo, e um meio de educar e promover o empoderamento do povo trabalhador nos campos da riqueza, do saber e do poder de autogerir suas comunidades; exige também uma reforma política que dê efetivo poder à Cidadania. É essencial ter uma estratégia de transição ancorada na consolidação de um poder público não-estatal que passe a hegemonizar as decisões do poder de Estado e seja potente o bastante para enfrentar a contra-revolução que será capitaneada pelas forças internas e externas do capital;

3) compreender a sociedade e a economia como um subsistema da Natureza, e não o contrário;6 em todas as decisões, levar em conta os limites ao crescimento impostos pelos ecossistemas, e as ameaças climáticas provocadas pela ação humana. O Brasil tem tudo para tornar-se um exemplo para o mundo de nação que restaura os seus biomas e ecossistemas e recupera com audácia e coragem as suas florestas, águas, solos e a sua biodiversidade.

Gostaria muito de receber ao menos uma confirmação sua de que recebeu esta carta. Se o diálogo com você se mostrar possível, estou disposto a escrever mais, a partir do ponto de vista das comunidades sociais a que pertenço atualmente.

Cordialmente,

Marcos Arruda

marcospsarruda@gmail.com

  1. Com base no nosso conhecimento mútuo desde o meu exílio em Genebra, escrevi a vc uma série de cartas propositivas ao longo de três anos. Publiquei uma seleção delas no livro “Cartas a Lula: Outro Brasil é Possível”, 2006, (Editora Documenta Historica). Nessas cartas eu compartilho com você experiências e saberes acumulados em anos de luta política e social, prisão, tortura e exílio, luta contra a ditadura, trabalho político e profissional como economista e educador no exterior e aqui no Brasil, e como membro no PT, ativo na comissão que trabalhava os temas das relações internacionais. Retirei-me do PT em 2005, sentindo o mesmo desencanto de milhares de outrxs ex-militantes, e com a mesma garra de continuar lutando pela libertação de todas as opressões junto ao nosso povo. As cartas lhe eram entregues por um amigo comum, seu colaborador próximo na Presidência. Conforme conto no livro, nem você nem seus ministros deram respostas substanciais às minhas questões e propostas. Por isso, o conteúdo do livro, a meu ver, continua válido e pode dar origem a um diálogo respeitoso e criativo sobre Outro Brasil Possível.

 

1 http://www.nytimes.com/1996/09/28/opinion/school-of-the-dictators.html

2 Ouça a entrevista, com legenda em português, de John Perkins, autor do livro Confissões de um Assassino Econômico, http://www.terremoto.com.br/zeitgeist-addendum/. Ele conta como nossos países estão reduzidos a presas dos interesses corporativos e geopolíticos dos Estados Unidos.

3 “Dormindo com o inimigo”...

4 Entrevista com o Professor Ariovaldo Umbelino, 12.1.2011 - https://www.cartacapital.com.br/politica/politica-agraria-do-governo-lula-valorizou-o-agronegocio

5 “De cada umx segundo suas capacidades, a cada umx segundo suas necessidades”.

6 “A Terra não pertence ao Homo, é o Homo que pertence à Terra. Tudo está interconectado como o sangue que nos une a todos. O Homo não teceu a teia da vida, ele é apenas um fio dela. O que quer que faça com a teia, faz a si mesmo.” (Chefe Seattle, 1855)

 

 

 

 

 

 

 



Conectados e exaustos

9 de Maio de 2017, 18:54, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

 

Exaustos

 



Islândia 7 X Brasil 1

25 de Abril de 2017, 17:09, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

 Islandia parem o cassino financeiro

Eles viraram o jogo e se impuseram. Nós continuamos cabisbaixos, ainda. Quando o povo islandês percebeu que estava perdendo direitos e que uma classe dirigente atroz estava levando o país à bancarrota, eles simplesmente os varreram do mapa. O pequeno país de 320 mil habitantes, próximo à Inglaterra, soube estar à altura dos desafios históricos e os moradores de sua capital, Reykjavik, não deram trégua ao Parlamento e ao Governo. Gigantescos protestos obrigaram o governo a renunciar, o parlamento a se renovar e uma nova constituição foi construída participativamente.

Explicando: O país foi o primeiro a “quebrar” depois da crise de 2008, com desemprego em massa e o povo pagando pela crise, enquanto os bancos nadavam em dinheiro e os políticos seguiam envolvidos com seus próprios “negócios”. Nada que não seja conhecido no Brasil. A indignação do povo fez a diferença e vieram eleições antecipadas, trazendo pessoas mais identificadas com a cidadania e a ética para o parlamento. Os principais assuntos políticos passaram a ser resolvidos com plebiscitos e consultas de diversas naturezas pela internet. Os bancos quebrados foram nacionalizados, ao invés do Estado investir dinheiro do povo para salvá-los, como aconteceu nos EUA e Europa, pra eles continuarem cinicamente ganhando fortunas à custa do sofrimento alheio.

O mais interessante de tudo foi a revisão da Constituição, em 2012: mil e duzentos eleitores foram escolhidos por sorteio e outras  trezentas pessoas foram chamados para representar os trabalhadores, empresários, ONGs, etc. Dessa assembleia cidadã nasceu um documento  de 700 páginas com as bases da Constituição. O passo seguinte foi a convocação de um grupo de trabalho de 25 pessoas, sem conotações partidárias, para redigir o texto constitucional. Esse foi submetido a um referendo pela internet antes de ser votado pelo parlamento, depurado de seus membros mais asquerosos, que foram pra cadeia. É aqui que o Brasil fez seu golzinho no 7x1... já mandamos alguns pra lá.

Talvez você esteja se perguntando: por que eu não fiquei sabendo de nada disso na época? Boa pergunta.  O caso da Islândia é absolutamente renovador da política. Sai completamente do caminho de ignorar que o sistema da democracia representativa está em frangalhos, ou do caminho de apenas pensar em punir a corrupção dos políticos. Sim, ela precisa ser punida, mas vamos botar quem no lugar dos políticos pra governar? A Islândia mostra um caminho: representantes eleitos da cidadania organizada e os da cidadania “desorganizada”, indicados por sorteio; participação popular pelo facebook, twitter, etc, controlando o governo eleito. Já imaginou se a onda pega no Brasil? Nos vingaríamos dos 7 a 1.

(Artigo publicado no jornal "A Tarde" de 24 de abril 2017)

Para conhecer melhor os acontecimentos na Islândia ver documentário (em inglês) no link abaixo sobre o Movimento Cidadão.



Novos Paradigmas: Marcos Arruda e Débora Nunes

3 de Abril de 2017, 22:35, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Partilho aqui um vídeo do Seminário Novos Paradigmas, no qual compartilho a mesa "O agora, a visão estratégica e a transição" com Marcos Arruda, tendo como coordenador Ivo Lesbaupin. O seminário foi promovido pela ABONG - Associação Brasileiras das ONGs e aconteceu em São Paulo.

https://www.youtube.com/watch?v=hD60TFRGGXU&t=2537s

 

 



Gerir nossas casas e nossa cidade

28 de Março de 2017, 13:48, por Débora Nunes - 0sem comentários ainda

Gerir casas e cidades

Os que vivem em condomínios sabem o que significa democracia participativa. Os que vivem em casa com filhos adultos que trabalham, também. Nesses casos, todo mundo contribui para pagar as despesas e a decisão sobre como gastar o dinheiro é coletiva. Alguém faz compras, pagamento e supervisão de serviços, mas sabe ser supervisionado por quem produz a riqueza. O que se vê é que as pessoas tendem a priorizar as despesas necessárias e que “desvio de recursos” são raros.  Do mesmo modo, evita-se o desperdício do próprio dinheiro.  “Obras faraônicas” praticamente não existem e os casos de endividamento além da conta são incomuns para recursos supervisionados.

Porque uma população tão qualificada para gerir o próprio dinheiro não participa do poder nas cidades, se são elas que geram a riqueza do município? Prevista na Constituição como imperativo de governança, a participação na gestão é ainda uma utopia. Em sua maioria, as experiências de participação popular, seja nos orçamentos, sejam nos Planos Diretores, são próximas da farsa. Infelizmente, Salvador não é diferente. Democracia direta não é meia dúzia de reuniões com poucas pessoas, com acesso a poucos dados e sem possibilidade de realmente decidir. Apenas a decisão, e posterior acompanhamento, de como, onde e quando gastar, ou com quais prioridades e critérios se planeja o futuro, pode ser chamada de participação.

Poucos governantes se interessam pela participação cidadã. Incorporar a população nas decisões, como manda a lei, significa serem controlados. Políticos incompetentes e corruptos não querem isso, pois é perigoso para eles. Para os que fingem fazer governança contemporânea, em algum momento seus concidadãos compreenderão que estão sendo lesados.  Para os atrasados em seus modelos políticos, há de vir o momento em que ficarão para trás em face de gestores/as cumpridores da Constituição que querem trabalhar colaborativamente com seus munícipes.

Mas a “culpa” não é apenas dos políticos. Participação é coisa pra gente comprometida com o coletivo. O esvaziamento das reuniões de muitos condomínios mostra o problema. A dificuldade da governança participativa é cultural, pois parte da população só cuida dos próprios assuntos. Para outros, criticar os políticos - e o síndico - é o suficiente.  Como mudar isso? Repetindo o que fazemos em casa, com nossos filhos: treinando-os para serem responsáveis. Fazendo “pedagogia da participação” como fazemos pedagogia da autonomia. Mas falta espírito público para políticas dessa natureza e, por enquanto, apenas uma combativa parte da população luta pelo direito de gerir a própria cidade.  Se olharmos os avanços civilizacionais no decorrer da longa história, esses e essas triunfarão.

 

(Publicado no jornal "A Tarde" dia 28/03/2017