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Cidades do Futuro: novos paradigmas

16 de Abril de 2015, 2:55 , por Débora Nunes - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Em post anterior escrevi brevemente sobre a história do paradigma dito “cartesiano-mecanicista”, hoje dominante nas Universidades, na mídia e no senso comum. Tratei do seu o papel positivo que esse teve na história humana e apontei também seu esgotamento. Essa forma de ser e estar no mundo privilegia a racionalidade, a objetividade e a medição para chegar ao conhecimento. Do mesmo modo, para afrontar a complexidade do mundo, esse paradigma divide os conhecimentos em partes desconectadas umas das outras, para se tornarem passíveis de análise objetiva. Para evitar confusões no entendimento, ele cultiva a certeza e evita respostas múltiplas, assumindo que apenas uma é a verdade. Por fim, para entender e agir sobre o mundo, esse paradigma prevê uma hierarquia que organiza o pensamento e a ação.

Observe como essas maneiras de pensar lhe parecem de modo geral bem naturais...na medicina, por exemplo, esse é o paradigma dominante e todos somos “tratados” segundo esse ponto de vista, item por item. Nos consultórios não há muita conversa, só se acredita nos números dos exames; dividem cada parte de nós em especialidades e as causas profundas e integradas de nossos males não são buscados; procura-se um diagnóstico/certeza para ter uma única prescrição e no final quem tem o poder é o médico e não nós, que somos desaconselhados até a abrir os resultados dos nossos próprios exames.

Se observarmos com atenção, veremos que as consequências de organizarmos o mundo a partir do paradigma cartesiano-mecanicista são: tornar naturais a dominação e a desigualdade; ter foco na quantidade e na análise fria dos fatos, excluindo ou deixando em segundo plano as razões do coração e da intuição; fazer da competição pela verdade única, por posições sociais, pela atenção dos outros, etc., a norma do agir pessoal e coletivo, e, por fim, é ver a exploração dos recursos naturais e humanos como absolutamente convenientes, sem se questionar de fato sobre o desperdício de recursos ou o sofrimento no trabalho, ou pensar na cooperação, na reciclagem e na restauração de recursos.

A necessidade de construir um mundo mais justo, democrático, cooperativo e sustentável exige, politicamente, outro tipo de paradigma. Porém, é da ciência mesma, em diferentes abordagens, que chegam os questionamentos mais firmes à validade do paradigma instaurado por Descartes e Newton séculos atrás. Desde o início do século XX, a física, a biologia, a psicologia, a filosofia, a sociologia etc. identificam as fragilidades do paradigma anterior para explicar e viver o mundo e propõem um paradigma emergente, com diferentes denominações: quântico, holístico, sistêmico, complexo, orgânico ou ecológico. Esse novo paradigma, como se verá, favorece a interdependência, a intuição e a síntese, a cooperação, a qualidade, a conservação dos recursos e o poder compartilhado.

A física foi a primeira a insurgir-se contra o determinismo mecanicista, pois, no microcosmo do átomo, não há certezas, apenas possibilidades. Um dos marcos dessa reação foi o Princípio da Incerteza estabelecido em 1927 por Heisenberg, pelo qual aceita-se que, sendo os elétrons ao mesmo tempo ondas (energia) e partículas (massa), não é possível afirmar categoricamente sua localização (massa), em dado momento, ou sua velocidade (energia). Para entender o átomo, o pesquisador precisa lidar com estimações e não com certezas; ele precisa fazer escolhas de observação assumindo naquele momento que o átomo comporta-se como onda ou como partícula. Mais desafiador ainda: saber que o próprio pesquisador interfere nos resultados de suas pesquisas pela simples proximidade que seus instrumentos têm do átomo.

Então, se os resultados de uma pesquisa são determinados pelo observador, pelo Princípio da Incerteza, como aceitar verdades absolutas? Como não entender que cada ponto de vista humano depende de seu background, de sua história, cultura e posição social?. A academia insiste ainda hoje, quase cem anos depois das descobertas de Heisenberg, que existe uma neutralidade científica, e que é possível ao pesquisador não enviesar os resultados de seu trabalho pelo seu próprio olhar... A antropologia ensina que o máximo que podemos fazer é estarmos atentos e entendermos qual é o nosso próprio ponto de vista e integrá-lo à pesquisa. Só assim seremos capazes de ver o outro, os outros e entendê-los

A física quântica trouxe ainda outro questionamento ao paradigma racionalista ao descobrir o que é chamado de “não localidade quântica”. No momento em que um elétron, por exemplo, passa de um nível energético a outro no interior do átomo, não se consegue identificar sua localização. Objetos quânticos deixam de existir “aqui” e simultaneamente passam a existir “lá” e não podemos dizer que passaram pelo espaço interveniente. É como se eles “não estivessem nesse mundo”, fazendo com que se possa supor a existência de outra dimensão, que não está no aqui e agora. Na verdade, a ciência já descobriu a existência de diversas dimensões, dessas primeiras descobertas quânticas até hoje, e nosso aparato racional é limitado para entender o funcionamento dessas outras dimensões. É a intuição, segundo o próprio Einstein, que nos ajuda a entender o mundo, inexplicável apenas com o uso da racionalidade.

A física quântica é tão cheia de exemplos desconcertantes para o paradigma cartesiano-mecanicista, que o novo paradigma emergente é chamado de quântico por muitos estudiosos. Um dos mais renomados entre eles é Amit Goswami e, no Brasil, Wallace Liimaa, é um dos divulgadores mais conhecidos e inspirados do paradigma emergente. Seu livro, “Princípios quânticos no cotidiano: a dimensão científica da consciência, espiritualidade, transdisciplinaridade e transpessoalidade” é uma boa leitura. Ali ele trata de outros fenômenos que a física quântica explica bem, como a conexão e a interdependência entre todas as coisas (“Bootstrap”) e o “salto quântico”, no qual um acúmulo de mudanças quantitativas favorece uma mudança qualitativa, em saltos.

Tenho usado esses princípios em meu blog para tratar das diferentes “revoluções tranquilas” que estão acontecendo hoje no mundo e que podem estar prenunciando um salto qualitativo de dimensões políticas enormes que é o advento de uma cidadania planetária engajada e conectada pela internet.

Outro pensador que vem contribuindo destacadamente para o desenvolvimento do novo paradigma é Edgar Morin, com sua “Teoria da Complexidade”. Ciente dos avanços das descobertas das ciências exatas, como a física, Morin traz essas novas percepções para o campo das ciências humanas e explica que complexo é diferente do complicado: Enquanto o complicado tende ao ininteligível, incompreensível, o complexo tende ao indeterminado, às respostas múltiplas e à conexão e interdependência entre todas as coisas e seres. A Teoria da Complexidade propõe a superação da dualidade, e sugere a lógica do “terceiro incluído”, ou seja, convida-nos a imaginar outras possibilidades, o caminho do meio budista. Posso dar alguns exemplos: entre o capitalismo e o socialismo, trazer a concepção de uma “economia plural”, como propõe Jean Louis Laville; entre democracia representativa e democracia participativa, inovar com a concepção de uma liderança compartilhada, que sugiro no meu livro “os novos coletivos cidadãos”; entre desigualdade e igualitarismo, a possibilidade de uma equanimidade, na qual os diferentes são tratados diferentemente, mas sempre buscando a justiça para o todo. 

Outra contribuição excepcional para a superação do paradigma racionalista vem das descobertas do biólogo Rupert Sheldrake, com sua “Teoria dos Campos Mórficos” e a ideia da “ressonância mórfica”. Para entender melhor a teoria, o próprio Rupert conta a história do “centésimo macaco”: em um conjunto de ilhas habitadas por macacos de uma determinada espécie, um macaco descobre por acaso o prazer de comer raízes lavadas na água do rio. Outros macacos observam e fazem o mesmo, mas ao chegar ao macaco de número 99, a mudança alcançaria um patamar no qual não é mais necessário o contato direto para aprender a nova maneira de fazer. Assim macacos de outras ilhas, sem qualquer contato, começam a fazer o mesmo, pelo mecanismo de ressonância mórfica.

Para Sheldrake, os campos mórficos são estruturas que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material. Assim, quando uma mudança necessária (que harmoniza um processo) se dá em pequena escala, ela se propaga de forma linear, causal (um macaco que aprende vendo o outro fazer) mas também dentro da não localidade quântica, independente de contato direto, através da ressonância mórfica. Esse seria o motivo que explicaria porque um conjunto suficientemente grande de pessoas meditando juntas pela paz seria capaz de fazer decrescer o número de crimes cometidos nas imediações de Washington, como nos conta Gregg Braden.

A psicologia é um dos campos de estudos mais contributivos para a emergência de um novo paradigma. Desde o início do século XX, quando Gustav Jung propôs o conceito de “Inconsciente Coletivo”, ele estava muito próximo dos campos mórficos de Rupert Sheldrake, descobertos no final do século. Jung descobriu que se pode encontrar em diferentes culturas símbolos muito próximos, independente de terem tido contato. Um exemplo é o mito bíblico da vida que nasce do barro, como o qual Deus fez o corpo do homem, ou a ideia de que o bem mora no céu, no alto, e o mal nas profundezas. Essas simbologias estão presentes em muitas e muitas culturas espalhadas pelo mundo e constituem, segundo Jung, “arquétipos” que os humanos partilham. O conjunto dos arquétipos constitui uma inteligência compartilhada, que não precisa de contato direto, e seria explicada, hoje se sabe, também pela “não localidade quântica”.

Outro exemplo da contribuição da psicologia é o trabalho sobre as “constelações familiares”, de Bert Hellinguer. Esse profissional e pesquisador defende que uma situação vivida pela alma de um indivíduo pode ser sentida por outros não presentes. Assim, uma dada relação interpessoal interpretada por outras pessoas em uma sessão de psicoterapia pode revelar o que sente cada uma das partes e também a constelação de sentimentos interdependentes daquela situação. Pode-se assim curar uma relação dolorida nesse processo no qual um interpretante comunica-se com a alma do interpretado e pode lhe transferir, por exemplo, a compreensão e o perdão para dada situação. Numa interessante entrevista a uma jornalista que perguntava como era possível entender o funcionamento da terapia, Bert Hellinguer responde algo como “tenho 40 anos vendo o processo funcionar; sei que não é possível compreendê-lo pela forma atual de pensar, portanto, não quero explicar, convido-a a viver isso”.

As mudanças de paradigmas, explicadas por Thomas Kuhn em seu livro “A estrutura das revoluções científicas” e muito interessantemente mostradas em um pequeno vídeo, podem ser lentas, mas são, geralmente, largas. Gente de várias áreas, em diversos países, trabalham na direção de um novo modo de ver o mundo, de compreendê-lo e de agir sobre ele, e de repente, num salto quântico, elas passam a ser mais e mais escutadas e compreendidas. Mudar de paradigma não significa enterrar completamente o anterior, que pode continuar a ser válido em aspectos da existência e complementado pelo novo.

Os novos paradigmas propiciam novas formas de pensar, novos valores e novas práticas. Coerente com o que se disse até aqui em relação ao paradigma emergente da complexidade, não se quer negar a lei da gravidade de Newton, nem o princípio da dúvida racional de Descartes, nem o papel da racionalidade para vivermos melhor no mundo, nem a utilidade dos números e das especialidades no saber. Defende-se a integração de novas formas de entender o mundo, válidas em muitos e muitos campos e que inspirem outros modos de conhecimento e organização da vida comum.

Para tentar resumir o que foi dito até aqui, pode-se dizer que a passagem do paradigma cartesiano-mecanicista para o paradigma holístico ecológico, significará passar da lógica auto afirmativa para a integrativa ou do pensamento único para diversidade, ou do “ou” para o “e”; de uma inteligência apenas racional para  uma inteligência  múltipla, incluindo a intuição, a inteligência do corpo e a do coração;  do privilégio da análise para as tentativas de síntese que suscitam ação e nova análise; da forma reducionista e compartimentada de conhecimento para uma abordagem holística e sistêmica; da ação linear, que explora recursos e pessoas, para a não linear, que foca na conservação da riqueza humana e natural.

Do mesmo modo, os valores predominantes nos dois paradigmas são diferentes e passa-se da dominação para parceria e para a liderança partilhada; da expansão, (seja ela territorial, de mercados, de riqueza, implicadas numa visão quantitativa) para a conservação, a manutenção; da competição para a cooperação; do curto para o longo prazo, dos fins justificam os meios para a valorização do processo, do caminho se faz ao andar... Essas formas de pensar e de valorar as coisas e os processos são próximas da energia feminina... mas isso é tema de outro post.  

 


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Tags deste artigo: cidades ecologia Holismo sustentabilidade Novos Paradigmas

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