Ir para o conteúdo
Mostrar cesto Esconder cesto
Voltar a Blog
Tela cheia

Pótnia, a Deusa Mãe

16 de Janeiro de 2019, 2:36 , por Débora Nunes - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
Visualizado 537 vezes

Deusa pótnia

Uma história da humanidade que inclua as mulheres precisa ser escrita. Os documentos sobre o papel delas são praticamente irrelevantes em face dos que destacam os homens. Mas isso está mudando, felizmente, com inúmeros autores e sobretudo autoras, que reescrevem a História de outros pontos de vista. Essa série tem objetivo de contribuir, começando pela pré-história.

Na velha Çatalhöyük, uma das primeiras cidades do mundo, situada na região da Anatólia, na Turquia, Pótnia simbolizava a força e a sacralidade da mulher, sua liderança e seu papel de matriarca benevolente e protetora. Como Deusa Mãe, e com diferentes nomenclaturas, Pótnia vem sendo cultuada desde tempos imemoriais, em todos os continentes, como divindade que representa a vida e, com ela, o nascimento e a morte. Na tradição da Deusa Mãe, ela opera como as faces da Lua: é luminosa pois dá a luz, nutre, cuida, pacifica, vincula-se a tudo que é criativo e se expressa na beleza e na abundância da Natureza. É também escura pois representa aquilo que se passa na obscuridade, como a gestação, o processo que leva à germinação das sementes, a intuição e o mistério da morte.

As primeiras imagens de Pótnia datam de cerca de oito mil anos atrás e, com o tempo, a palavra Pótnia tornou-se um distintivo, pois nas civilizações cretenses haviam muitos tipos de deusas “Potnias”.  Essa palavra era como um título para falar das faces da Deusa Mãe, do mesmo modo que na religião católica Maria, a Mãe de Deus, a Nossa Senhora, tem muitas nomenclaturas. Riane Eisler destaca a Ilha de Creta como uma espécie de continuidade da civilização da Anatólia, pois provavelmente daí vieram, há cerca de seis mil anos, as pessoas  que a colonizaram e que trouxeram o culto à Deusa e seu modo de organização social. As religiões da Deusa, encontradas largamente na Europa antiga, foram combatidos duramente, particularmente desde o surgimento das religiões monoteístas de cunho patriarcal, que veneram um Deus masculino, como o judaísmo, o cristinismo e o islamismo.

A visão da mulher como deusa suprema original só recentemente foi retomada. Apenas a partir da segunda metade do século XX, estudos sobre o significado das numerosas estatuetas de mulheres no período pré-histórico encontradas em diferentes partes do mundo, começaram a aprofundar-se. Foram mulheres como Merlin Stone, Marija Guimbutas e Riane Eisler, entre outras, que compraram a briga da interpretação sobre esses achados, acompanhadas de alguns estudiosos. Até então, e isso é o que se ensina nas escolas até hoje, essas imagens estavam vinculadas apenas a rituais de fertilidade realizados para favorecer a agricultura, que a humanidade apenas começava a dominar.

Nos anos 70, quando várias dessas mulheres fizeram pesquisas de campo  e publicaram trabalhos para restabelecer os fatos históricos, Merlin Stone, historiadora e escultora, lançou seu livro intitulado “Quando Deus era uma mulher” (1976). Nessa obra ela subverte a interpretação estreita de deusa da fertilidade e dizendo que essas estatuetas eram representativas da dividade maior da pré-história, a Deusa Mãe. Stone afirmou que os ritos de consagração da Deusa Mãe foram suprimidos em nome de deuses masculinos com a instituição da sociedade patriarcal. Para Stone, a Torá e o Velho Testamento, por exemplo, trazem uma reinterpretação do mundo, trocando o simbolismo feminino pelo masculino e desqualificando personagens femininas, ou simplemente dando-lhes menor importancia.

Um dos sítios arqueológicos que mais contribuíram para a nova interpretação do culto à Deusa Mãe como fundador da história humana foi a cidade de Çatalhöyük, com suas inúmeras estatuetas femininas e seu culto à deusa Pótnia. Nessa cidade, essas estatuetas estavam por toda parte, eram confeccionadas cuidadosamente e em materiais nobres e foram encontradas em lugares sagrados. As estatuetas masculinas, menos numerosas, realizadas com menor acabamento e encontradas em locais menos sagrados, eram visivelmente menos importantes. O arqueólogo inglês James Mellaaert, que primeiro estudou Catalhoyuc, em 1961, propôs que o predomínio das imagens femininas no Paleolítico sobre as representações masculinas sugeria que que a mulher desempenhava um papel preponderante naquelas sociedades.

Marija Gimbutas, a arqueóloga lituana que escreveu o famoso livro "A Civilização da Deusa", defende que antes da civilização patriarcal existiu uma civilização “matrística”, ou seja, de inspiração feminina e que cultuava a Deusa Mãe. Sua tese, meticulosamente demonstrada, é que essa sociedade não era “matriarcal”, com dominância feminina, mas de igualdade entre os gêneros e de igualdade entre os seres humanos em geral e muito mais pacíficas. O exemplo da cidade de Catalhuyuc, citado por ela, mostra a inexistência de palácios e templos imensos, ao contrário, apenas a presença de casas muito parecidas e de templos de tamanho modesto, cemitérios sem maiores distinções entre os mortos, evidenciando uma sociedade igualitária. Essas sociedadse foram vencidas em invasões por outros povos, belicosos e com sede de domínio, que ela chamou de “kurgos”, cuja existência vem sendo demonstrada por dados recentes sobre o genoma humano.

Mesmo após a “virada patriarcal”, inúmeras deusas permaneceram sendo cultuadas no Oriente Médio e na Europa. Na civilização romana, Pótnia era chamada de “Cibele de Anatólia”, a Senhora dos animais, e foi introduzida na época das Guerra púnicas, à partir da Grécia,  como a “Magna Mater”. Essa deusa romana, entretanto, já era secundária e, como se verá na história seguinte de Hipátia, a cristianização de Roma foi um passo definitivo para a quase extinção da simbologia do sagrado feminino, incluindo a destruição de estátuas, pinturas, literatura e tecelagens. Como se evidencia na história posterior do mundo Ocidental, ou a mulher passou a ser vista como um personagem secundário, ou como um personagem ameaçador, bruxa ou prostituta, símbolo de pecado e impureza. Maria, a mãe de Deus, resta como um contraponto, uma mulher sagrada mas inatingível, pois virgem e mãe ao mesmo tempo.

Riane Eisler, em seu livro “O cálice e a espada”, oferece o modelo societal de parceria inspirado na Deusa Mãe como a perspectiva que a sociedade humana precisa buscar para superar a sociedade de dominção ainda vigente. Ela informa que o modo de vida de Çatalhöyük, depois reencontrado na Creta  antiga, antes de ser invadida por tribos guerreiras, era igualitário e pacífico. Guiado pelas características da Deusa, como ensinado por suas sacerdotizas e sacerdotes, esse modelo de parceria  mostrava maior igualdade social,   igualdade de gênero e um culto à beleza e à vida. A profusão das artes nesses dois períodos e a expressão de uma alegria de viver pelos motivos de sua inspiração são excepcionais. Tanto a produção artística de CatalHuyuc, como a de Creta, privilegiam imagens da Natureza, de rituais de cantos e danças, cenas de gestação e nascimento, muito diferente dos painéis de guerra e sacrifício e de um homem crucificado, encontrados em civilizações posteriores, onde o patriarcado já se tinha imposto. Reencontrar esse modo de vida democrático, igualitério, ecológico e alegre é o desafio da próximas gerações.


Categorias

Mulheres
Tags deste artigo: Matrística Patriarcado Pré-história Çatalhuyuc Deusa Pótnia sagrado feminino mulheres

0sem comentários ainda

    Enviar um comentário

    Os campos são obrigatórios.

    Se você é um usuário registrado, pode se identificar e ser reconhecido automaticamente.

    Cancelar