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Sobre democracia, economia e cupins

25 de Outubro de 2010, 22:00 , por Daniel Tygel - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Escrevi este artigo para a revista Justice Rising, dos Estados Unidos, após minha apresentação no Fórum Social dos EUA. A revista está com uma edição completa específica sobre Economia Solidária, com vários artigos curtos, dentre eles o meu (o terceiro) e pode ser baixada aqui (em inglês): http://www.thealliancefordemocracy.org/pdf/AfDJR51.pdf

Cupim

Democracia é um valor fundamental, que defendemos em várias dimensões da vida social. Infelizmente, há uma fragilidade da realização deste valor, especialmente quando falamos da economia. Estender a democracia para a economia envolve centrar

mos o olhar e nossos esforços sobre o coração de nosso sistema atual, e nos obriga a repensar as bases sobre as quais o atual modelo de desenvolvimento se sustenta.

Qual foi o nível de discussão e democracia na decisão de salvar as grandes empresas e os bancos no auge da crise? Qual a participação da população sobre a atuação do FED, do Banco Mundial, e da emissão de moedas? Existe algum controle social da sociedade civil sobre estas instâncias?

E quais são os motores de desenvolvimento econômico do país? As empresas. Mas como elas funcionam? São democráticas em sua atividade econômica interna? E na sua atividade no mercado, possuem algum controle social pela população?

A Economia Solidária tenta responder a estas perguntas construindo alternativas no âmbito das atividades econômicas, da produção ao consumo. No Brasil, definimos a Economia Solidária em três dimensões diferentes:

  • Economicamente, é um jeito de fazer a atividade econômica de produção, oferta de serviços, comercialização, finanças ou consumo baseado na democracia e na cooperação, o que chamamos de autogestão: ou seja, na Economia Solidária não existe patrão nem empregados, pois todos os/as integrantes do empreendimento (associação, cooperativa ou grupo) são ao mesmo tempo trabalhadores e donos.

  • Culturalmente, é também um jeito de estar no mundo e de consumir (em casa, em eventos ou no trabalho) produtos locais, saudáveis, da Economia Solidária, que não afetem o meio-ambiente, que não tenham transgênicos e nem beneficiem grandes empresas. Neste aspecto, também simbólico e de valores, estamos falando de mudar o paradigma da competição para o da cooperação de da inteligência coletiva, livre e partilhada.

  • Politicamente, é um movimento social, que luta pela mudança da sociedade, por uma forma diferente de desenvolvimento, que não seja baseado nas grandes empresas nem nos latifúndios com seus proprietários e acionistas, mas sim um desenvolvimento para as pessoas e construída pela população a partir dos valores da solidariedade, da democracia, da cooperação, da preservação ambiental e dos direitos humanos.

A Economia Solidária se expressa através de iniciativas coletivas de produção, de comercialização e de consumo, que chamamos de empreendimentos de economia solidária. Por isso, afirmamos que quem participa deste movimento tem as “mãos sujas”, pois ao mesmo tempo que luta para a transformação do atual modelo econômico, precisa efetivamente sobreviver no dia a dia dentro dele. Não se trata, portanto, de um conceito teórico bonito e perfeito. É um processo vivo e com contradições.

Uma das estratégias para o fortalecimento da Economia Solidária é a consolidação de redes e cadeias de produção, comercialização e consumo entre empreendimentos de economia solidária e entre estes e consumidores. À medida que estas redes estão se fortalecendo, estamos retirando recursos econômicos do sistema capitalista concentrador para um sistema em rede que não é concentrador de capital e de poder. Desta maneira, podemos dizer que somos como os cupins: Olhando de fora, a estrutura da casa permanece intacta. Mas dentro de suas paredes, os cupins continuam a corroer a madeira, de modo que um dia esta casa cairá por terra, pois a estrutura foi enfraquecida em suas bases.

 

Brasília/DF, 11 de setembro, dia do Cerrado


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Formação, Organização do movimento

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