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A problemática de hoje em dia

1 de Setembro de 2013, 10:59 , por Bráulio Bhavamitra - 22 comentários | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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"Paramapurusha é meu pai e Parama Prakriti é minha mãe. O universo é meu lar e todos nós somos cidadãos deste cosmo. Este universo é a imaginação da Mente Macrocósmica, e todas as entidades estão sendo criadas, preservadas e destruídas nas fases de extroversão e introversão do fluxo imaginativo cósmico. No âmbito pessoal, quando uma pessoa imagina algo em sua mente, naquele momento, essa pessoa é a única proprietária daquilo que ela imagina, e ninguém mais. Quando um ser humano criado mentalmente caminha por um milharal também imaginado, a pessoa imaginada não é a propriedade desse milharal, pois ele pertence ao indivíduo que o está imaginando. Este universo foi criado na imaginação de Brahma, a Entidade Suprema, por isso a propriedade deste universo é de Brahma, e não dos microcosmos que também foram criados pela imaginação de Brahma. Nenhuma propriedade deste mundo, mutável ou imutável, pertence a um indivíduo em particular; tudo é o patrimônio comum de todos."

Depois de desenvolver a ideia da sociedade humana como uma família integrada, ressaltando que a "a natureza não delegou nenhuma porção dessa propriedade a qualquer indivíduo em particular", e de traçar paralelos com os direitos tradicionais de propriedade de famílias integradas na Índia antiga, Baba se lançou numa dura acusação ao capitalismo, sem se preocupar em suavizar suas palavras:

"Os capitalistas deste mundo moderno são criaturas antissociais e antidharma. Para acumular riquezas imensas, elas reduzem outras pessoas ao estado de pele e osso, obrigando-as a morrer de fome; para deslumbrar as pessoas com o glamour de sua vestimenta, outros se veem forçados a vestir trapos; para ter mais energia vital, sugam a vitalidade dos outros até o fim... Um membro de uma família integrada não será considerado como um ser social, se não possuir o sentimento de unidade com os outros membros dessa família, ou se não quiser aceitar o nobre ideal dos direitos em conjunto e o princípio da racionalidade."

A análise do capitalismo, feita em seguida por Baba, logo o levou a ser rotulado na Índia como um revolucionário social: "Uma vez que toda a propriedade do universo é uma herança comum de todas as suas criaturas, como pode haver qualquer justificativa para um sistema no qual alguns se esbaldam no luxo, enquanto outros morrem de fome por falta de um punhado de grãos?... Considerando os interesses coletivos de todos os seres vivos, é essencial que o capitalismo seja erradicado."

Na opinião de Baba, a mentalidade capitalista - ou, como dizia ele, "a ambição de se tornar rico pela exploração dos outros",- é uma doença psíquica.

"Se os anseios da mente humana não encontrarem o caminho certo para a realização espiritual e psíquica, a mente se ocupará em acumular riqueza física excedente, em detrimento de outras pessoas... Quando os capitalistas declaram que "Nós acumulamos riquezas por meio de nosso próprio talento e trabalho; se os outros tiverem capacidade e empenho, eles que façam o mesmo; ninguém os está impedindo de fazê-lo", eles não se importam com o fato que o volume de recursos naturais do planeta é limitado, enquanto as necessidades são comuns a todos. A riqueza individual excedente, na maioria dos casos, priva outras pessoas das necessidades mínimas da vida."

Baba prosseguiu, passando então a discutir quais métodos deveriam ser adotados para pôr um fim ao capitalismo. Enquanto enfatizava que "nada seria melhor, se fosse possível, do que a erradicação do capitalismo através da persuasão amigável e de apelos humanistas", ele deixava claro que os incontáveis milhões de pessoas que estavam sofrendo não poderiam esperar indefinidamente "pelo dia em que o bom-senso prevaleceria entre os exploradores". Sua argumentação foi diretamente contrária ao ideal gandhiano de não violência, um ideal que é, como Baba posteriormente explicou, uma distorção do antigo princípio iogue de ahimsa, o de não causar mal a outros seres vivos.

"Embora a abordagem humanista funcione em certos casos, ela na maioria das vezes não produz resultado algum; e mesmo quando funciona, demora muito tempo a fazê-lo. Portanto, sempre que necessário, o capitalismo deve ser forçado a abandonar sua ganância voraz por meio de medidas drásticas... Uma enorme pressão circunstancial deverá criada. Para criar essa pressão circunstancial, é absolutamente necessária aplicação da força. Aqueles que acreditam que a não aplicação da força por si só é ahimsa estão destinados ao fracasso. Nenhum problema neste mundo pode ser resolvido quando se adota este tipo de ahimsa."

"Se qualquer país comete atrocidades contra suas minorias ou ataca qualquer vizinho frágil, então os outros vizinhos devem reagir; mobilizando a força necessária, eles devem deter o tirano para estabelecer a paz sutil. Por isso, as pessoas que desejam restaurar a paz sutil terão de fazer esforços contínuos para ganhar forças. É impossível que as cabras estabeleçam a paz sutil numa sociedade de tigres. Infelizmente, aqueles que acreditam que a não violência seja evitar o uso da força não podem estabelecer a paz sutil, e nem defender a liberdade conquistada a duras penas."

Num país onde o ideal gandhiano de não violência era reverenciado igualmente pelo povo e pelos políticos, esse era um argumento que não apenas colocaria Baba firmemente do lado dos mais radicais revolucionários sociais, mas também lhe valeria entre as autoridades governamentais a reputação de ser uma figura "perigosa" para a sociedade indiana.

Após determinar que era para o bem maior dos seres humanos que o capitalismo deveria ser erradicado, Baba continuou com a discussão de como reorganizar a sociedade. Segundo ele, isso começa com a descentralização econômica; a criação de regiões economicamente autossuficientes; e o gerenciamento da indústria, da agricultura, do comércio e negócios através de organizações cooperativas. Na visão de Baba, somente as empresas pequenas demais ou grandes e complexas demais para serem gerenciadas como cooperativas, por exemplo, os negócios muito pequenos ou as indústrias de larga escala como energia e aço, deveriam ser administradas por indivíduos ou pelo estado e governos locais.

Conforme a discussão se desenrolava, Baba ia tocando em diversas mazelas sociais, como o sistemas de castas, a discriminação contra as mulheres, o provincianismo e o comunalismo, o uso indevido da ciência, e outras. Ele ofereceu soluções para cada uma dessas áreas, e isso o levou às questões políticas.

"As cores do provincianismo, do nacionalismo, do comunalismo e do sistema de castas, vêm desbotando com o tempo. Os seres humanos de hoje precisam compreender que num futuro próximo eles terão de aceitar o universalismo. Aqueles que buscam promover o bem-estar social terão que mobilizar toda a sua força vital e seu intelecto para o esforço de estabelecer um governo mundial, abandonando todos os planos de formar organizações comunais ou nacionais."

Ao apontar os diferentes obstáculos para a formação de um governo mundial, Baba sugeriu que o maior empecilho era o medo dos próprios líderes locais perderem seu poder e influência dentro de suas respectivas comunidades. Para contornar tais obstáculos, ele propôs uma transição gradual para o governo mundial, começando pela criação de um fórum global para a reformulação das leis, com o poder administrativo permanecendo temporariamente nas mãos dos diferentes países, para em seguida avançar passo a passo até ceder todo o poder para o órgão global:

"Como [o governo local] não terá qualquer poder de promulgar leis arbitrárias, não será facilitada a nenhum governo a efetivação de atrocidades contra suas minorias linguísticas, religiosas ou políticas conforme os caprichos da maioria governante."

Ao mencionar as deficiências da política partidária, chamando-a de "uma doença mais perigosa do que os germes", ele propôs o estabelecimento de um futuro governo mundial formado por aqueles que trabalhassem fora do âmbito dos conflitos políticos:

"O maior bem-estar social para a raça humana será concretizado se aqueles que desejam estabelecer um governo mundial, ou Ananda Parivara, se envolverem somente em atividades construtivas e serviços altruístas, ao invés de desperdiçarem sua energia vital no turbilhão da política, ou em conflitos políticos... Os estados que cooperarem com esses missionários em suas atividades de serviço social serão considerados favoráveis ao estabelecimento do governo mundial, ou Ananda Parivara. As pessoas comuns dos estados que não cooperarem ficarão inconformadas, e essas pessoas inconformadas vão formar o governo mundial, ou Ananda Parivara, através da revolução."

Em sua análise política, Baba não hesitou em apontar os defeitos intrínsecos à democracia. Ele enfatizou que "como sistema de governo, a democracia não pode ser aceita como o melhor e mais nobre. Entre todos os sistemas que os seres humanos foram capazes de criar até hoje, a democracia pode ser considerada o melhor entre os piores".  Depois de discutir alguns desses defeitos, ele deu a pedra fundamental de sua filosofia social. A liderança, ele apontou, pode ser confiada apenas àqueles que atingiram um grande nível de perfeição ética, mental e espiritual através de treinamento rigoroso. A estas pessoas, ele chamou de sadvipras; e a eles, confiou a responsabilidade de guiar a sociedade. Já tendo afirmado que uma sociedade sem classes é uma ideia utópica e impraticável, Baba ofereceu uma análise da movimentação cíclica da sociedade como um movimento gerado pelo domínio de uma classe psíquica sobre a outra, numa sociedade humana composta por quatro mentalidades predominantes: o shudra, ou a mentalidade da classe trabalhadora; o kshattriya, ou a mentalidade guerreira; o vipra, ou a mentalidade intelectual; e o vaeshya, ou a mentalidade capitalista. Em qualquer época, umas dessas quatro classes é a dominante. O ciclo social passa do shudra ao kshattriya, deste para o vipra e deste finalmente para o vaeshya, sendo que a maioria dos países avançados no presente se encontra na metade da primeira era vaeshya, com a revolução ou a evolução provocando a transição de uma era para outra. No passado, afirmou Baba, a classe governante sempre explorou as massas. Sendo assim, a liderança da sociedade deve ser confiada aos sadvipras, que assimilam as melhores qualidades de todas as quatro classes, e possuem o sólido ideal do bem-estar de todo e qualquer membro da sociedade.

- Somente eles, disse Baba, podem representar os seres humanos de forma desinteressada.

Baba encerrou seu discuso com um antigo verso em sânscrito do Rig Veda, a mais antiga literatura da humanidade. Ele o chamou de o coro dos sadvipras:

  Samgacchaduam samvadadhuam samvo manasijanatam
  Devabhagam yatha purve samjanana upasate
  Saman van acute samanah hrdayani van
  Samanamaastuvo mynah yatha van susahasati

"Vamos nos mover juntos, vamos cantar juntos, vamos conhecer nossas mentes juntos. Vamos compartilhar como os sábios do passado para que todas as pessoas juntas possam desfrutar do universo. Unamos nossas intenções. Que nossos corações sejam inseparáveis. Que nossa mentes sejam uma só mente, enquanto nós, para conhecermos de fato uns aos outros, nos tornamos um só."

 

"A problemática de hoje em dia", P. R. Sarkar. Publicado em "Histórias de um mestre tântrico", página 168, Devashish


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