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Coleta de sementes na floresta conquista jovens

20 de Março de 2015, 16:23 , por Marcelo Inácio de Sousa - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Licenciado sob CC (by-nc-nd)

Hoje (20) à noite vai passar um programa na TV que deve "apresentar", segundo a chamada, o novo perfil do trabalhador do campo. Segundo o programa, eles são jovens, diplomados, conectados, modernizados e ganham bons salários para "viver na roça".

Este programa não é uma novela, mas vai vender uma figura de linguagem ao invés da realidade. Sabe quando alguém diz: "o brasileiro é apaixonado por futebol"? Pois é. O nome disso é sinédoque.

Jovem no campo não é uma espécie em extinção. Muito pelo contrário! Cerca de oito milhões de jovens brasileiros residem no meio rural, segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com idade entre 18 e 29 anos, eles foram responsáveis por acessar 37,4% dos recursos destinados ao Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF), entre os anos de 2002-2013.

Mas a realidade deles está muito longe do programa da TV. Ela é muito mais diversa e árdua. Manter os jovens no campo, com qualidade de vida e acesso às mesmas condições oferecidas ao jovem urbano é um imenso desafio. Não enfrentá-lo significa comprometer, inclusive, as ações pensadas para a agricultura familiar nos próximos anos.

Em meio às dificuldades, é possível encontrar histórias muito curiosas (e relevantes), como a de Milene Alves Oliveira. Ela foi entrevistada para contar sua rotina de "coletora" de sementes. A notícia verdadeira, não aquelas do Programa de TV, foi publicada no site Sementes do Xingu.

Tem sido um desafio envolver os jovens nas atividades rurais e florestais. Na Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX), não é diferente. A maioria dos coletores é formada por adultos e até idosos. Se jovens não entrarem na atividade, o futuro da Associação estará comprometido. Mas o trabalho tem despertado o interesse dos mais novos, que começam a seguir os passos dos mais experientes, garantindo que a região Xingu Araguaia mato-grossense continuará tendo coletores de sementes florestais por muitos anos.

Um desses jovens é Milene Alves Oliveira. Ela tem 16 anos e acompanha sua mãe na coleta de sementes florestais desde os 13. Reside em Nova Xavantina no Mato Grosso e é estudante da Escola Estadual Juscelino Kubitschek. A renda e a qualidade de vida de sua família melhoraram quando eles ingressaram na Rede. Além disso, com essa experiência ela adquiriu um vasto conhecimento sobre as espécies florestais da região. Para Milene, ser coletora significa fazer a diferença no seu meio. Ela incentiva outros jovens a se tornarem coletores de sementes florestais.

Confira a entrevista que Milene concedeu:

ARSX – O que significa pra você ser uma coletora?
MILENE – Significa fazer a diferença. Significa uma porta que Deus abriu para mim e minha família. O que me satisfaz é saber que, o que eu faço hoje, provavelmente será o futuro de amanhã, que o tempo que passo manejando qualquer tipo de espécie não é perdido, pois com todo esse desequilíbrio da natureza, as sementes chegam para dar uma nova esperança de que ainda há uma solução e, pensando dessa forma, sinto-me feliz por ser uma coletora.

ARSX – Como surgiu o interesse pela atividade?
MILENE – Bom, tudo começou quando minha mãe conheceu o Santino, que é o elo do grupo aqui de Nova Xavantina. Com o passar do tempo, nós começamos a ajudar no beneficiamento de algumas sementes para ele e, como a gente tinha muito interesse pelas sementes, ele nos convidou a participar da ARSX. Foi assim que cada vez mais fui me envolvendo na coleta de sementes.

ARSX – Além de você e sua mãe, alguém mais de sua família coleta sementes?
MILENE – A ARSX meio que contaminou minha família. Primeiro a minha mãe, depois eu, meu irmão com a esposa dele e, neste ano, meu pai.

ARSX – Quais espécies que vocês mais coletam?
MILENE – São várias, como o cajazinho da mata, baru, jatobá, murici, jatobá de brinco, copaíba, garapa, etc.

ARSX – Você também faz a coleta de sementes em locais distantes e de difícil acesso?
MILENE – Sim, sempre estou na companhia de minha mãe e, com toda segurança, coletamos em diferentes lugares dentro e fora da cidade, sendo alguns deles em áreas alagadas e de difícil acesso.

ARSX – Qual a maior dificuldade em ser um coletor?
MILENE – No começo, pra gente foi muito difícil, pois minha mãe trabalhava de doméstica e a gente coletava de bicicleta. Era muito corrido. Ela saía do serviço e eu da escola para coletar e beneficiar as sementes. Também coletávamos nos finais de semana e nas férias. Talvez a maior dificuldade seja conciliar a escola com a parte de coleta, porque é frequente minha mãe fazer a coleta de sementes no meio da semana e, como estudo na parte da manhã e pelo menos três vezes na parte da tarde, só me sobram os finais de semana para coletar. Pra quem pensa que ser coletor é tudo um mar de rosas, está enganado, pois como tudo na vida, sempre há momentos bons e os momentos ruins. Ser coletor exige muita responsabilidade e dedicação. Pelo menos comigo, muitas das vezes vêm o cansaço, o desânimo, mas procuro sempre me lembrar do verdadeiro significado de estar ali e, sempre que há uma reunião ou uma coleta em grupo, recarrego minhas forças e vejo como é maravilhoso tudo isso que estou vivendo e o quanto ainda posso viver na Rede de Sementes do Xingu.

ARSX – É possível obter uma boa renda coletando sementes florestais?
MILENE – Com certeza! Só com o dinheiro das sementes, hoje minha mãe possui uma moto e um carro próprio, fez a habilitação dela e parte da construção de nossa casa foi paga com essa renda. Para se ter noção de como a vida da minha família mudou, minha mãe, que sempre trabalhou como empregada doméstica, hoje trabalha para si mesma e nunca nos faltou nada.

ARSX – Além de sementes, vocês coletam outros produtos?
MILENE – Quando começamos a ter uma intimidade maior com as sementes, vimos que havia algumas espécies de fruta com polpa. E, para não desperdiçar, começamos a aproveitar não só a semente, como também a polpa delas. A primeira que comercializamos foi a de murici, na feira de domingo, e, depois, tamarindo. Hoje extraímos a polpa de mais de dez frutas e entregamos para alguns restaurantes aqui da região. Assim, além da renda que vem da venda das sementes, temos a renda da venda de polpas e também da castanha de baru.

ARSX – Que tipos de conhecimento você tem adquirido depois que se tornou coletora?
MILENE – Bom, acho que o conhecimento que mais adquiri foi o reconhecimento de espécies florestais. Quando iniciei na Rede, não tinha a menor noção dos nomes das árvores. Parecia que tudo era a mesma coisa. Já hoje, vejo uma grande diferença. Quando me deparo com uma espécie, automaticamente, a reconheço. Também aprendi a cultivar algumas espécies de sementes em viveiro e a utilizar seus valores medicinais. Desta forma, tento sempre passar o que aprendi na Rede em alguns trabalhos de escola, como feira de ciências ou que tenha tema livre.

ARSX – O que mais a Rede proporcionou a você?
MILENE – Essas sementes foram tão importantes em minha vida que, hoje, quando olho para trás, não consigo compreender como tudo aconteceu. Coisa que nunca imaginei fazer, a ARSX me proporcionou, como uma viagem para São Paulo e outra para São Felix do Araguaia no Mato Grosso. Algo inédito que marcou minha vida, além de várias outras coisas.

ARSX – A maioria dos coletores são adultos e até idosos, com poucos jovens. Qual o seu recado para os jovens?
MILENE – Primeiramente, se você jovem que lida com sementes gosta do que faz, continue neste caminho. Você que ainda não participa, comece, pois a Rede de Sementes do Xingu veio abrir portas para uma vida melhor. Como a ARSX tem em sua maioria adultos e idosos, todo o conhecimento que eles adquirem tem que ser passado adiante. Aí que os jovens entram em ação: Aprendemos com eles e damos continuidade na Rede. Desta forma, convido vocês, nova geração, a fazer parte dessa grande iniciação em favor da natureza.

ARSX – Pretende continuar na atividade?
MILENE – Sim e se tudo der certo, pretendo cursar uma faculdade de agronomia aqui em minha cidade pela Unemat. Mas na verdade, gostaria mesmo é de fazer engenharia florestal. Entretanto, esse curso pela Unemat só se encontra em Alta Floresta-MT.

ARSX – O que um jovem precisa para se tornar coletor?
MILENE – É um privilégio estar na ARSX pelo fato de que para poder participar, você não precisar ser doutor ou algo parecido. Basta ter força de vontade e perseverança. Assim, o mais vem como resultado do seu trabalho.

ARSX – Para concluir, qual seu recado?
MILENE – Bom, para concluir, tudo isso que eu disse é para que as pessoas vejam que se pode viver bem sem degradar a natureza.

[+] FONTE: Sementes do Xingu | Por Rafael Govari (ISA) | Foto: Milene Aves Oliveira

Categorias

Agricultura Familiar, Mato Grosso, Povos e Comunidades Tradicionais
Tags deste artigo: banco de sementes sementes do xingu

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