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Cooperafloresta Empreendimento de Economia Solidária

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Quem somos

12 de Janeiro de 2009, 22:00 , por Desconhecido - | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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A Cooperafloresta nasceu a partir da organização de famílias agricultoras quilombolas no Vale do Ribeira, visando superar as grandes dificuldades existentes na região. Atualmente é formada por 110 famílias organizadas em 22 grupos, envolvendo 322 pessoas nos municípios de Barra do Turvo em São Paulo e Adrianópolis e Bocaiúva do Sul no Paraná.
Pertencemos às comunidades tradicionais e na nossa maior parte, já nos auto-reconhecemos como remanescentes de quilombos. Através da agrofloresta, resgatamos e reconhecemos o valor de nossos conhecimentos e sentimentos sobre a natureza e seu funcionamento. Passamos a entender melhor o grande valor das pessoas e da natureza de nossa região, o Vale do Ribeira, aonde caiçaras, quilombolas, indígenas e outros povos tradicionais, convivem em uma relação muito íntima, com o maior pedaço contínuo de Floresta Atlântica que ainda resta no mundo e também com um berçário de grande importância para a vida de todo o mar, localizado nos municípios de Iguape, Juréia e Cananéia.
Muito mais que uma alternativa de produção e geração de renda que conserva o meio ambiente, encontramos uma nova razão e sentido para a vida. Contribuir com a geração de uma agricultura e de uma sociedade onde a produção e comercialização de grande fartura de alimentos é o fruto do amor das pessoas entre si e com a natureza e desta maneira, da regeneração e conservação das florestas. Assim, também procuramos construir junto com os consumidorescompromissos que vão muito além da simples produção e consumo de alimentos saudáveis e livres de veneno. Passamos também, a participar de grandes movimentos onde nos irmanamos com crescente quantidade de pessoas que comungam destes mesmos ideais, como acontece na Rede Ecovida de Agroecologia, onde estamos unidos com mais de 3 mil famílias agricultoras ecologistas dos estados do Paraná, Santa Carina e Rio Grande do Sul.  É também muito gratificante para nós, receber anualmente aproximadamente 1000 pessoas - agricultores, agricultoras, técnicos, pesquisadores, gestores públicos, consumidores e estudantes – em visitas, oficinas, cursos e estágios para conhecer a experiência desenvolvida pela Cooperafloresta.

 

UM POUCO DA NOSSA HISTÓRIA

O trabalho pioneiro com agrofloresta foi iniciado por duas famílias agricultoras em 1996, a partir de um curso ministrado em Barra do Turvo pelo agricultor Ernst Götsch, pessoa de grande destaque na difusão e prática da Agrofloresta no Brasil. Em 1998 formou-se um grupo de cerca de trinta famílias que começaram a praticar a agrofloresta e a comercializar solidária e coletivamente a produção de suas agroflorestas agroecológicas. As famílias pioneiras e suas agroflorestas foram fundamentais para a capacitação das que vieram depois.
No ano de 2000, nos organizamos em grupos nos bairros e retomamos o antigo costume de fazer mutirões, onde as famílias se ajudam nas lavouras. Os mutirões também servem para aprendizado, para trocarmos experiências e para que cada um conheça a roça do outro.
Com a ampliação do número de famílias, cada grupo passou a eleger um representante para um Conselho, que junto com uma Diretoria eleita por todos os associados, administra a Cooperafloresta. A Cooperafloresta formalizou-se como associação em 20/05/2003.
As famílias antes da agrofloresta sobreviviam com rendas declinantes da produção do feijão cultivado em terras com acentuado processo de degradação, comercializada de forma individualizada em mercados distantes com elevados custos, obtendo renda da agricultura que não ultrapassava 2 salários mínimos anuais e era complementada com a venda de trabalho eventual. Em 2009, mais de 75% das famílias associadas à Cooperafloresta ultrapassou 15 salários mínimos de renda agrícola monetária anual acrescida de grandes melhorias na renda de autoconsumo que superou 4 salários mínimos anuais. Estes resultados são obtidos conservando o meio ambiente e ampliando a biodiversidade local no bioma Mata Atlântica através de 250 ha de agroflorestas mais intensivamente manejadas e outros 500 de manejo mais extensivo, onde predomina a ação do processo natural de regeneração florestal.

“No começo foi bem difícil, a gente sabia pouco, mas a gente tinha certeza que o momento era certo para agrofloresta acontecer. E logo percebi que parece que a coisa tinha vontade própria. E eu me senti feliz em poder estar participando da história desse momento, apesar de todas as dificuldades, em nenhum momento eu pensei em desistir. Eu tinha convicção de que era um momento de aprendizado de uma vida. A gente teria que aprender coisa que já tinha esquecido. Quando digo a gente, digo em termos de humanidade. Que o mundo já não tá mais aguentando todas as agressões que nós humanos temos cometido.”
    (Pedro, grupo Córrego do Franco)

 

O QUE BUSCAMOS

O lema da Cooperafloresta é “União de Gentes e Natureza”.
Todos os seres vivos em cooperação gerando mais e mais vida, assim é que a natureza gerou tamanha diversidade e abundância, o ser humano é um dos resultados deste maravilhoso modo de proceder da vida. Sendo assim, podemos viver em harmonia com a natureza, não só deixando de destruí-la como também contribuindo para a multiplicação da vida. Nosso compromisso é compreender e praticar esta união.
A Cooperafloresta tem como principal missão resgatar e desenvolver a cultura, a cidadania, a soberania alimentar e o grande conhecimento que as comunidades tradicionais e quilombolas da região possuem sobre a natureza, aplicando-o na geração e multiplicação de uma agricultura fundamentada no entendimento e cooperação com os processos naturais que mantém, regeneram e reproduzem a vida e a fertilidade da terra e do ambiente.
A Cooperafloresta entende que o exercício da plena cidadania que sua missão visa promover, pressupõe o acesso à educação, alimento de qualidade, saúde, moradia adequada, trabalho e renda, mas também fundamentalmente ao exercício individual e comunitário na construção de sua história.
Para isso, nossos 22 grupos reúnem-se quinzenalmente em mutirões agroflorestais, onde trabalham coletivamente o manejo das agroflorestas e discutem as questões relativas à sua organização e funcionamento da Associação. O trabalho com associativismo, produção agroflorestal, agentes multiplicadores, microcrédito, sistemas participativos de garantia, comercialização coletiva ética e solidária, juntamente com as parcerias, vêm gerando resultados significativos no âmbito econômico, ambiental, social e cultural: geração de trabalho e renda; organização e protagonismo das famílias quilombolas; resgate e valorização cultural; recuperação e conservação dos recursos naturais; melhoria das relações de gênero e geração; diminuição do êxodo rural, em especial dos jovens para os centros urbanos; construção de parcerias; aproximação com os cidadãos urbanos consumidores no comércio ético e solidário.
As nossas conquistas nos incentivam para socializar e partilhar nossos conhecimentos e experiências, na busca da multiplicação das agroflroesta mundo afora. Assim, a Cooperafloresta desenvolveu um espaço informal de formação e intercâmbio de conhecimento – a Escola Agroflorestal – que envolve os agentes multiplicadores, famílias quilombolas/agricultoras e técnicos da Cooperafloresta na divulgação e multiplicação destas propostas

 

O CAMINHO QUE ESCOLHEMOS

Acreditamos que toda mudança importante começa pelo coração. Ao abrirmos nosso coração, abrimos também os nossos olhos e ouvidos. Então, podemos enxergar e ouvir coisas que não víamos e nem ouvíamos antes. O dono de um coração endurecido pela ideia de que o mundo é uma competição, não tem olhos e ouvidos para procurar perceber, entender e apreciar a grandeza e a beleza do imenso trabalho em cooperação que a natureza realiza. E o nosso coração nos faz crer na Agroecologia! E na construção da Agroecologia nós escolhemos o caminho da Agrofloresta!
Nesta caminhada a Cooperafloresta vem buscando coletivamente desenvolver uma série de ações, que de forma articulada tem promovido inclusão social e geração de renda; recuperação e conservação dos recursos naturais, resgate cultural e protagonismo das famílias agricultoras. São elas:

Organização das famílias agricultoras e quilombolas
A agrofloresta une a família...se não tiver união não tem como dar certo.A agrofloresta estimula o trabalho conjunto com os vizinhos” (Cláudio, grupo Terra Seca)

“Outra importância é que a gente aprende a conviver...com a mulher, com os filhos, com os vizinhos e com as pessoas que vêm visitar a gente. A gente sozinho não faz nada.”           (Sezefredo,Grupo Salto Grande)

Agentes multiplicadores
“Para mim uma das coisas importantes que também aconteceu durante este tempo, foi o trabalho de agente multiplicador. Eu pude passar, que nem na parte dos banheiros secos, fossas e filtros, coisas que eu sabia e que não ficaram só pra mim.” (Gilmar, grupo Três Canais)

O trabalho dos multiplicadores é o ponto chave da agrofloresta. Eu fiquei encantadíssimo. Quando a pessoa é um multiplicador interessado, ela realmente faz com que certas áreas deslanchem. Aprendi, gostei e tudo que a gente gosta, quando bota em prática, funciona bem. Então a gente também pega aquele gosto de passar para frente.
Trabalhar junto, levar aquela prática com bastante carinho. É como adubar. É como chegar terra numa planta novinha. Tem que ter cuidado pra não pisar, pra não amassar a folha. Através dessa amizade, dessa união, desse crescimento, desse gosto que o multiplicador já tem dentro dele, ele passa então para aquela família, que ainda não tem essa prática. Aí a coisa cresce.” (José Baleia, grupo Indaiatuba)

Agrofloresta baseada na estrutura, dinâmica e biodiversidade florestal:
“A mudança dentro da agrofloresta é grande demais. Só se a pessoa quiser se tornar um cego pra não ver. Eu vejo a mudança por mim, eu vejo a esperança por mim. Pra mim foi uma mudança fora do sério, é como você virar uma camisa ao avesso. Imagina que a gente destruía o terreno, tirando toda a camada da terra boa. Eu metia veneno, enxada, muitas vezes virei a terra com enxadão, passava o rastelo e queimava o cisco todo, pra ficar uma terrinha bem limpinha. E hoje a gente vê depois de 2, 3 anos, a mudança que essa área pegou através do sistema de agrofloresta, da plantação consorciada, através de leguminosas, do guandu, como eu gosto e admiro essa planta! Através de plantas e mais plantas! Eu agora até trago cisco de fora pra botar dentro da área, imagina! Eu não ia fazer nunca isso na minha vida! Trazer mato lá de fora pra colocar dentro da área! Deus do céu!"
     (José Baleia, grupo Indaiatuba)

 

Fundo Rotativo de Microcrédito
“Quando começou a Cooperafloresta não tinha recurso para nada. Até aqueles barracões no Seu Sezefredo, as pessoas daqui iam trabalhar de graça lá, para criar a associação, hoje ta aí criada. Tem muito esforço de todo mundo aqui.” (Dolíria, grupo Terra Seca)

 Sistema Participativo de Garantia (SPG)/ Certificação Participativa:
“A minha família sempre dizia para mim... você fica na mão da associação, não pode cortar aqui, não pode cortar lá...mas eu falo pro meu pai: se você vai num banco não tem um monte de regra? ...na agrofloresta e na associação você obedece uma regra no início e depois você cria outras regras...” (Urias, grupo Areia Branca)

Comercialização coletiva, ética e solidária:
“Eu sou apaixonado pela agrofloresta que é uma roça sem fim. Você tem uma roça que toda semana a gente tá colhendo fruto e mandando para o mercado. Você está levando comida e não veneno para qualquer cidadão do mundo... você está levando comida e não droga... mesmo que não seja uma fruta muito bonita como os agrotóxicos fazem... mas você vai comer sabendo que é um alimento saudável... a nossa produção temos orgulho de levar pra mesa... é produzido pelo mesmo ambiente que constrói a terra fértil.” (Ditão, grupo Cedro)

“Eu conversava com a mulher. Ela falava: é só plantar de tudo, que dá para vender. Mas eu pouco acreditava e tinha medo de não dar para manter a casa. Agora estou acreditando mais no modo e na maneira de trabalhar. A gente planta de tudo e de tudo que a gente planta a gente vende. De primeiro plantava arroz, feijão e milho. Não vendia. Uma vez colhi uns vinte, trinta sacos de feijão, na hora de colher, caia o preço. Tinha que cortar empreita para manter a casa. Tinha que entregar de graça o feijão. Perdia tudo e o trabalho virava despesa.”
                                                (Sebastião, grupo Ribeirão Grande)

Escola Agroflorestal:
“A alegria das famílias em nos receber e a felicidade em passar os seus conhecimentos são magníficos, assim como nós também compartilhamos as nossas experiências e saberes.”
(Valéria Jamanini, educanda da Escola Latino Americana de Agroecologia-ELAA)