Ir para o conteúdo
Mostrar cesto Esconder cesto
Voltar a Blog "vida quer viver!"
Tela cheia

Razões para não votar em Aécio Neves, por Euclides Mance

15 de Outubro de 2014, 6:28 , por Daniel Tygel - 1Um comentário | 1 pessoa seguindo este artigo.
Visualizado 479 vezes

Fonte: http://bit.ly/1vuV3kn

Eu me chamo Euclides Mance, sou paulista, de Mogi das Cruzes, e votarei em Dilma Rousseff para presidente do Brasil. Essas são as minhas razões para não votar em Aécio Neves.

 

1. Não se deve votar em Aécio Neves, porque o Brasil e a América Latina não podem ficar submetidos aos interesses econômicos dos Estados Unidos.

 

Fiel à tradição do PSDB, Aécio Neves diz em seu Programa de Governo que fará um reexame das políticas seguidas no tocante à integração regional para [...] restabelecer a primazia da liberalização comercial e [...], em relação ao Mercosul, [...] flexibilizar suas regras a fim de poder avançar nas negociações com terceiros países”, devendo “merecer atenção especial a Ásia [...], os EUA e outros países desenvolvidos”, com uma “estratégia de negociações comerciais bilaterais, regionais e globais, para por fim ao isolamento do Brasil, priorizando a abertura de novos mercados e a integração do Brasil às cadeias produtivas globais.” [Diretrizes Gerais – Plano de Governo Aécio Neves – PSDB, 2014, p. 56] 1

 

É justamente essa liberalização comercial o que os Estados Unidos mais querem há muito tempo, para quebrar o Mercosul e inundar o Brasil e a América Latina com produtos norte-americanos, favorecendo a geração de empregos nos Estados Unidos, e para ampliar o seu poder de decisão sobre as economias latino-americanas por meio de suas empresas. Essa política geraria desemprego em nosso país e nos países vizinhos, em razão da queda de vendas dos produtos locais, como ocorreu nos governos de Fernando Henrique Cardoso.

 

A integração da América Latina e dos BRICS, que se fortaleceu com os Governos Lula e Dilma, é um grande entrave para o projeto neoliberal norte-americano, que sempre almejou construir a Área de Livre Comércio das Américas. Aécio Neves deixa claro, em seu programa de governo, que defende não apenas a liberalização comercial, mas o estabelecimento de negociações comerciais bilaterais com os Estados Unidos, que busca retomar e expandir sua hegemonia econômica sobre toda a América Latina, enfraquecendo a coesão regional: dividir para conquistar!

 

Ainda sobre esse trecho do programa do PSDB, cabe salientar que, segundo o Banco Mundial, os seis maiores países em desenvolvimento (Brasil, Rússia, Índia, China, Indonésia e México) representam 32,3% de todo o PIB global e que os seis maiores países desenvolvidos (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália) representam 32,9% 2. Segundo o Banco Mundial, em estudo publicado em abril deste ano, o Brasil é atualmente a sexta maior economia global, considerando-se o produto nacional segundo o critério de câmbio ou a sétima, considerando-se a paridade de poder de compra das moedas nacionais, respondendo por nada menos que 56% do PIB da América Latina3. Nada disso seria possível se estivéssemos isolados e desintegrados das cadeias produtivas globais, como erroneamente diz o Programa de Governo de Aécio Neves.

 

2. Não se deve votar em Aécio Neves, porque o projeto de desenvolvimento do Brasil não pode ficar subordinado às forças do mercado, que concentram a riqueza e empobrecem a maioria da população.

 

Uma parte dos brasileiros, com menos de 25 anos, que já nasceu na era da Internet, talvez não saiba que desde o final da ditadura militar, em 1985, temos diferentes projetos de desenvolvimento em disputa no Brasil: o autoritário, que enaltece o Estado repressivo e auto-referenciado; o neoliberal, que enaltece e empodera os atores do mercado; e o projeto democrático e popular, que depende da participação dos atores populares da sociedade civil na formulação e sustentação das políticas, para poder avançar na transformação do país em benefício da maioria da população.

 

 

O projeto neoliberal, assumido pelo PSDB, de Aécio Neves, defende o Estado mínimo, o livre mercado, as privatizações, o fortalecimento do sistema financeiro privado e a economia conduzida pelos investimentos do grande capital internacional, que é considerado o principal ator para o desenvolvimento do Brasil.

 

Aliados históricos desse projeto são o DEM (antigo PFL) e setores do PMDB, federações da indústria e comércio, agronegócio, banqueiros e especuladores estrangeiros. Em razão disso, quando Aécio Neves sobe nas pesquisas de intenção de voto, os indicadores da bolsa de valores sobem junto com ele, pois os grandes investidores e especuladores sabem que, com sua vitória, os interesses do grande capital serão favorecidos: seus ganhos irão aumentar. Cabe recordar que Armínio Fraga, possível ministro da Fazenda num eventual Governo Aécio, trabalhou seis anos em Nova York administrando fundos para George Soros, um dos maiores especuladores financeiros globais.4

 

Por outra parte, o projeto democrático e popular, assumido pelo PT, defende que o principal ator do desenvolvimento é o setor popular da sociedade civil e adota um modelo de desenvolvimento que se sustenta na distribuição de renda em favor dos mais pobres, no aumento real dos salários, na redução do impacto ecológico do desenvolvimento, na defesa dos direitos sociais, no combate aos preconceitos, na cooperação regional latino-americana, na participação institucional da sociedade na definição e condução das políticas, através de orçamento participativo, conselhos consultivos e deliberativos, plebiscitos, referenduns e conferências públicas para orientação das políticas de Estado.

 

Destacam-se, entre os aliados históricos em torno desse projeto, o PV, o PSB, o PC do B e setores do PMDB, movimentos populares, sindicais e culturais. O PV, entretanto, progressivamente abdicou do conceito de sustentabilidade social para manter-se apenas na defesa da sustentabilidade ambiental e recomendou o voto em Aécio Neves para o segundo turno. A Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, recém-criada, assumiu em seu discurso eleitoral a perspectiva de um capitalismo verde e orientou seus filiados a votarem em Aécio, branco, nulo no segundo turno – o que provocou uma divisão no interior da própria Rede5. Para uma parte dos seus filiados isso sepultou a chamada nova política, pois ao liberar o voto em Aécio e não liberar o voto em Dilma, a Rede se alinhou politicamente ao bloco do PSDB. O PSB, por sua vez, no transcurso de sua campanha nesse ano, veio abdicando de defender princípios centrais do socialismo e da economia solidária, como a autogestão dos meios de produção pelos trabalhadores, em troca de alianças com o grande capital a fim de ampliar vantagens eleitorais, culminando, no segundo turno, em seu apoio ao candidato do PSDB6. Essa decisão foi duramente criticada por uma parcela do partido, que a caracterizou como um “suicídio político-ideológico”.7 Desse campo democrático e popular, ao longo dos anos, surgiram, entre outros partidos, o PCO e o PSTU, que propõem voto nulo nesse segundo turno, e o PSOL, que orientou seus filiados a votarem em Dilma, branco ou nulo.

 

Por último, o projeto autoritário, derrotado com o fim da ditadura militar, permanece presente no Brasil e vai se reerguendo, com diferentes matizes e vozes, defendendo um moralismo conservador e a repressão exercida por aparelhos de Estado como a solução mágica para diferentes problemas. É capitaneado pelo DEM, com o apoio de latifundiários, madeireiras, mineradoras, especuladores imobiliários, segmentos do agronegócio e setores religiosos fundamentalistas, tanto evangélicos quanto católicos. A ideia de constituir governos com os melhores, que, pairando acima de quaisquer interesses, saberiam encontrar as soluções adequadas para todos os problemas, e que por meio do Estado poderiam efetivar tecnicamente essas soluções conduzindo a sociedade por tais caminhos virtuosos sob o seu sábio comando, é tipica desse pensamento aristocrático, autoritário e conservador.

 

Não foi por acaso que o PFL, criado por forças políticas que defenderam a ditadura militar, foi o principal aliado do PSDB nos governos de Fernando Henrique Cardoso e permanece agora, sob a sigla DEM, na coligação de Aécio Neves. Com a morte de Mario Covas, em 2001, morreu também o que restava de social-democracia no PDSB. Nesta eleição de 2014, candidatos do PSDB e de diferentes partidos de menor expressão, apoiaram-se no discurso de direita, moralista e autoritário para eleger-se, havendo significativo crescimento da bancada de parlamentares com esse perfil, não apenas no Congresso Federal – possivelmente o mais conservador desde 1964 8 – como também nas Assembleias Legislativas de muitos estados. O bordão do deputado federal mais votado do PSDB nesse ano em Goiás foi “45 do calibre e 00 da algema” – bordão esse avalizado pelo partido como slogan de campanha em seu horário eleitoral. Todos esses atores estão perfilados agora com Aécio para derrotar Dilma.

 

Não foi por acaso que Aécio não aceitou as condições estabelecidas por Marina em favor dos trabalhadores rurais sem terra e dos indígenas e de não reduzir a maioridade penal, para apoiá-lo. Pois isso seria contrário à posição do DEM que faz parte de sua coligação. Isso seria igualmente inaceitável, tanto para os latifundiários que sempre combaterão o avanço da reforma agrária, quanto para as madeireiras, mineradoras e setores do agro-negócio que consideram as comunidades indígenas um atraso para o Brasil, quanto para os setores que acreditam que a repressão e o encarceramento de adolescentes e jovens é o caminho certo para enfrentar o crime organizado que obriga esses adolescentes e jovens a operar sob o mando de suas quadrilhas. Aécio preferiu assim o apoio desses setores autoritários a atender aos apelos de Marina. É evidente a transição da bancada do PSDB para uma postura cada vez mais moralista e autoritária, ao estilo “45 do calibre e 00 da algema”. A bancada do DEM continua encolhendo e o partido pela primeira vez ficou sem eleger um governador, justamente porque um setor do PSDB, com perfil político idêntico ao DEM, está ocupando, cada vez mais, o lugar que cabia a esse seu tradicional aliado no espectro político do país.

 

3. Não se deve votar em Aécio Neves porque o projeto de desenvolvimento nacional com distribuição de renda, que trouxe prosperidade para a maioria da população brasileira nos governos Lula e Dilma, não deve ser interrompido. Esse projeto deve ser aprofundado, com o fortalecimento da economia solidária e com maior democratização do Estado, por meio de mecanismos institucionais de participação popular.

 

Para entender a situação do Brasil é preciso compará-lo com países de seu porte, que são as sete maiores economias do mundo, e não com os países menos industrializados, como a grande mídia sempre faz. Os indicadores de desemprego e de crescimento em 2013 para essas economias mostram que o Brasil tem melhor desempenho econômico que a maioria delas.

 

PIB nominal, Taxas de Crescimento Econômico e de Desemprego

Oito Maiores Economia do Mundo – Ano 2013

 

País

Taxa de

Desemprego

Taxa de

Crescimento

PIB Nominal

(Trilhões US$)

China

4,1

7,7

9,240

Brasil

5,4

2,5

2,245

Estados Unidos

7,4

1,9

16,800

Reino Unido

7,5

1,7

2,521

Japão

4,0

1,5

4,901

Alemanha

5,3

0,4

3,634

França

10,3

0,2

2,734

Itália

12,2

-1,9

2,071

Fonte: Banco Mundial, OCDE, FMI e IBGE 9

 

O crescimento econômico de um país, entretanto, não significa necessariamente prosperidade para toda a sua população, podendo beneficiar apenas os setores sociais mais empoderados economicamente. E se tal crescimento for ecologicamente insustentável, ele também contribuirá para acelerar a destruição do planeta. Por isso é preferível tomar como indicador do desenvolvimento a elevação do bem-viver do conjunto das pessoas, assegurando-se simultaneamente as sustentabilidades econômica, ecológica e solidária necessárias para a sua realização. Portanto, o crescimento que concentra a renda ou agride os ecossistemas, como ocorre na maioria dos países, não é sustentável do ponto de vista solidário nem ecológico, e não pode ser tomado como parâmetro de comparação para analisar o desenvolvimento do Brasil.

 

Mas, atendo-nos a esse indicador, vejamos então a situação de algumas regiões do país. Conforme o Banco Central, na região nordeste, a economia cresceu 2,55% no segundo trimestre deste ano de 2014, comparada com o primeiro trimestre, em que já havia crescido 2,12%. Em 2013 esteve acima da média nacional10. Em 2012 cresceu aproximadamente o triplo da média brasileira11. O crescimento da região nordeste nos últimos 12 anos, particularmente do comércio, está acima da média nacional12. Mas porque isso ocorre? Entre outros fatores estão os programas de transferência direta de renda, de elevação real dos salários e de crédito para os mais pobres, que ativaram a economia das regiões onde vive a maioria proporcional da população beneficiada pelas políticas de transferência de renda e de inclusão socioeconômica – nordeste e norte –, incrementando atividades de comércio e de serviço, mas também no setor de transformação, dado que uma parcela dos produtos consumidos por essa população passou a ser produzida nos próprios territórios gerando postos de trabalho nessas regiões. O crescimento da indústria da construção civil, com a edificação de moradias, igualmente impactou na atividade econômica desses territórios.

 

Se essas políticas federais tivessem sido reforçadas no sudeste do país pelos governos estaduais, possivelmente o desenvolvimento econômico dessa região, particularmente em São Paulo e Minas Gerais, teria sido maior, pois a distribuição de renda dinamiza a atividade econômica em diferentes cadeias produtivas. Ela contribui, igualmente, para reduzir a violência, eliminando uma de suas principais causas que é a exclusão socioeconômica das pessoas.

 

Possivelmente, os eleitores de Minas Gerais compreenderam isso pelo impacto das políticas federais junto às populações mais pobres de seu estado, particularmente no semiárido mineiro, e tenham optado por essa perspectiva de desenvolvimento sustentável com distribuição de renda, o que se refletiu na vitória do PT para o Governo de Minas, derrotando o candidato do PSDB apoiado por Aécio Neves.

 

Já na região metropolitana de São Paulo, vimos claramente, no primeiro turno, a vitória de Dilma em áreas periféricas, onde a vida da população pobre prosperou, graças às políticas federais de sustentação dos empregos com juros baixos, de transferência de renda, de facilitação para a compra de moradias, veículos e eletrodomésticos e de ingresso dos jovens em universidades13.

 

Entretanto, como os principais veículos de comunicação do país são grandes empresas econômicas que estão sediadas em São Paulo e Rio de Janeiro e têm como grandes patrocinadores as empresas que igualmente defendem o modelo de desenvolvimento neoliberal, eles exercem forte pressão na formação da opinião pública na região sudeste, particularmente nesses dois Estados, em favor do modelo neoliberal defendido pelo PSDB e seus aliados.

 

Todavia, para avançar na real democratização econômica do Brasil, é necessário ir além do que já foi feito nesses 12 anos, e desenvolver, entre outras coisas, uma vigorosa política de apoio à economia solidária, em que os trabalhadores associados são proprietários das empresas ou cooperativas em que atuam, propiciando a organização de redes colaborativas que integram essas iniciativas com total autonomia, segundo os princípios de autodeterminação dos fins e de autogestão dos meios – que são centrais à economia solidária. Conforme o mapeamento de 2007 realizado pela Secretaria Nacional de Economia Solidária, vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, esses empreendimentos econômicos solidários, autogestionados pelos próprios trabalhadores, somavam 22 mil iniciativas, com aproximadamente um milhão e setecentos mil trabalhadores e trabalhadoras, e com uma produção anual estimada na casa de R$ 8 bilhões, assegurando a geração de renda para milhares de famílias em atividades produtivas14. Esses empreendimentos vêm organizando redes colaborativas solidárias e cadeias produtivas em diferentes setores15. Foi somente a partir dos governos do PT que passaram a existir políticas públicas que favorecem a expansão da economia solidária como forma de democratizar a economia do Brasil com base na autogestão de empresas pelos trabalhadores.

 

Fortalecer a economia solidária em São Paulo e Minas Gerais, e em toda região sudeste, com a organização de bancos comunitários, redes de consumidores, de comercio solidário e de empresas autogestionadas – como vem se propagando no nordeste e em outras regiões do país e da América Latina – daria um novo impulso ao desenvolvimento de toda a região sudeste.

 

O Programa de Aécio Neves fala uma única vez na economia solidária, afirmando que vai assegurar linhas de fomento para o setor [p.39]16 Mas o seu projeto de desenvolvimento é incompatível com a lógica de autogestão democrática e de distribuição de riqueza da economia solidária. Pois a construção de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos vai na contramão de assegurar a soberania econômica nacional defendida pela Economia Solidária. Para ele a economia solidária não passa de política compensatória para gerar trabalho e renda aos excluídos do mercado. Pelo contrário deveria entender o que a UNRISD - Instituto das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social, vem confirmando, com seus eventos mundiais sobre a economia social e solidária, analisando-a em suas potencialidades e limites: que ela é uma das principais alternativas existentes para a construção de sociedades democráticas sobre o aspecto econômico, ao propiciar a organização de iniciativas, redes e cadeias de produção, comercialização e consumo autogestionadas pelos trabalhadores, gerando trabalho, renda e desenvolvimento econômico e social. Isso, entretanto, é socialista demais para o PSDB, não para a ONU 17.

 

Por fim, o perfil da ocupação por setores econômicos no Brasil está evoluindo do mesmo modo que nas economias desenvolvidas, em que o aperfeiçoamento tecnológico da agricultura e da indústria vem reduzindo a cada ano o número de postos de trabalho nesses setores e ampliando postos de trabalho no setor de comércio e serviços, de economia do conhecimento e de produção de bens intangíveis.

 

Empregos por Setores. Mundo e Regiões.
Empregos no setor como porcentagem do emprego total

Região

Agricultura

Indústria

Serviços

 

2000

2010

2000

2010

2000

2010

Mundo

40.5

34.0

20.4

22.1

39.1

43.9

Economias Desenvolvidas e União Europeia

5.5

3.7

27.3

22.4

67.3

73.8

Europa Central e Sudeste Europeu (exceto UE) e CEI

25.8

20.6

24.7

24.4

49.6

55.1

Asia Oriental

47.7

34.9

23.4

28.6

29.0

36.4

Sudeste Asiático e Pacífico

49.7

42.5

16.4

18.2

33.9

39.2

Asia Meridional

59.5

51.4

15.6

20.7

24.9

27.9

América Latina e Caribe

20.5

16.2

21.6

22.2

58.0

61.6

Oriente Médio

22.4

16.9

24.4

25.7

53.2

57.4

Norte da África

30.5

28.5

19.4

21.8

50.1

49.7

África Subsahariana

66.3

62.0

7.9

8.5

25.9

29.6

Fonte: OIT. 2012 18

 

 

Essa tendência global, de queda da participação da indústria no conjunto dos empregos impacta profundamente, no Brasil, no setor do ABC em São Paulo. O governo do Estado de São Paulo, administrado nos últimos 20 anos pelo PSDB, não soube formular políticas para essa grande transição da economia global e insiste na busca de investimento estrangeiro para o setor industrial do estado, como forma de revigorar a indústria paulista. E, como se não fosse responsável pelo fracasso de sua política, transfere ao Governo Federal as consequências de sua falta de visão estratégica para o desenvolvimento do estado que governa, com o discurso fácil de combater o PT, justamente porque o desenvolvimento do Brasil está levando o país a essa nova etapa de transição tecnológica que São Paulo terá de atravessar, tal como vem ocorrendo nas nações desenvolvidas.

 

Se os governos do PSDB que administraram São Paulo tivessem entendido que a única forma de consolidar os seus polos industriais é desenvolver vigorosamente o setor da economia do conhecimento, diretamente conectado a eles, estaria havendo uma transição dos postos de trabalho perdidos na indústria para esse novo ramo de produção que está em crescimento acelerado em todos os países emergentes. Como se percebe, o crescimento da indústria na Ásia não ocorre simplesmente por haver mão de obra barata e qualificada, mas pelo desenvolvimento da economia do conhecimento embutida na micro-eletrônica. É sintomático que importantes empresas brasileiras nesse setor estejam justamente sediadas fora do estado de São Paulo.

 

Ocorre que é cada vez maior o volume de componentes intangíveis, tanto operacionais como de comunicação, embutidos nos produtos industriais de maior valor agregado. Se São Paulo deseja seguir como polo industrial importante no contexto global, necessita rapidamente construir uma estratégia para consolidar e expandir um vigoroso polo de produção de bens intangíveis e de componentes eletrônicos a serem embutidos em seus produtos industriais, agregando-lhes, assim, maior valor tecnológico. A dependência de recepção tecnológica de multinacionais para agregar valor aos produtos industriais produzidos em São Paulo – consequência esperada da política do PSDB – não assegurará ao povo paulista a soberania sobre o desenvolvimento econômico do seu próprio território.

 

O estado de São Paulo não merece ficar atado à essa visão neoliberal de desenvolvimento e deveria estar mais atento ao que ocorre, por exemplo, com certas as regiões industrializadas da Espanha, as quais se aprofundam numa grave crise e possuem taxas muito altas de desemprego, enquanto outras regiões industriais da mesma Espanha, com forte presença de Redes de Economia Solidária19, como na região de Mondragón, tem elevados indicadores de atividade econômica, organizada com a força dos complexos cooperativos, bem acima da média nacional20.

 

4. Não se deve votar em Aécio Neves porque o seu modo de combater a inflação, conforme a tradição do PSDB, é realizado com vistas a beneficiar os grandes grupos econômicos e o capital internacional, em prejuízo do povo brasileiro e da soberania econômica nacional.

 

Nos anos 90, propagou-se por toda a América Latina, um receituário neoliberal de combate à inflação, que teve origem num consenso realizado em Washington em 1989 21. Os governos alinhados a esse programa adotavam as mesmas medidas que, invariavelmente, favoreciam às grandes corporações transnacionais, aos bancos e aos especuladores.

 

No Brasil, o PRN, PFL e o PSDB, entre outros partidos, foram os executores dessa política nos governos de Fernando Collor e Itamar Franco e nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso. O Plano Real é o seu exemplo maior. Para combater a inflação, a receita adotada foi ampliar a oferta, incentivando a importação de produtos estrangeiros, e reduzir a demanda interna, aumentando juros, diminuindo o poder de compra dos trabalhadores e reduzindo a atuação econômica do Estado. O aumento de consumo popular nos primeiros anos do Plano Real, frequentemente citado em defesa dessa política, esteve associado, entre outros fatores, à diminuição da poupança das famílias e ao crescente endividamento da população, pois não houve aumento real nos salários dos trabalhadores. No essencial, a proposta de Aécio Neves, segue essa mesma tradição do PSDB. Para que os mais jovens entendam melhor, explico como isso era feito.

 

Para aumentar a oferta, facilitou-se a entrada de produtos estrangeiros, com a redução de impostos sobre importação, para que ficassem mais baratos que os produtos nacionais. Isso ajudava a conter a inflação. Por outro lado, as empresas brasileiras, não conseguindo baixar os preços de seus produtos, tiveram suas vendas diminuídas. Muitas delas faliram e o desemprego aumentou. Outras se tornaram importadoras ou foram compradas por empresas estrangeiras. Nessa época, os Estados Unidos quase conseguiram fazer da América Latina a área de seu livre comércio. Alguns países, como a Argentina, chegaram até mesmo a adotar o dólar americano como moeda oficial. Mas a Alca foi derrotada graças à resistência dos setores populares latino-americanos, que lutaram em defesa da soberania de seus países.

 

Para diminuir a demanda de consumo e sustentar o Plano Real, aumentou-se enormemente a taxa de juros, que chegou ao pico de 45%. Como a rentabilidade do sistema financeiro era maior que a obtida com a produção e venda de bens e serviços, as empresas reduziram seus investimentos produtivos e ampliaram investimentos em títulos do governo, pois isso era mais rentável. Para o consumidor, as taxas de juros altas significaram igualmente prestações mais altas, inibindo compras no crediário e reduzindo o consumo. Mas elas também provocaram a inadimplência dos que haviam comprado a prazo e que, com salários estagnados, não conseguiam mais pagar suas prestações. Preferindo investir no sistema financeiro que pagar salários, muitos empresários dispensaram trabalhadores aumentando o desemprego.

 

Assim, consequência esperada da elevação dos juros era também provocar o desemprego, obtendo-se com isso a desejada redução de consumo, com o objetivo de conter a inflação. O alto desemprego, por sua vez, também gerou uma pressão na redução dos salários pagos aos trabalhadores empregados, pois muitos trabalhadores desempregados aceitavam fazer o mesmo serviço por menores salários. E isso diminuía o custo das empresas para produzir, o que poderia, na lógica neoliberal, atrair investimentos estrangeiros em busca de mão-de-obra qualificada e barata. Por sua vez, as multinacionais que compravam empresas brasileiras traziam dólares para o país, mas também enviavam seus lucros para o exterior. E, no final, com essas políticas, a balança comercial brasileira ficou negativa por muito tempo – pois as importações eram maiores que as exportações22. As dívidas externas e interna aumentaram e o Brasil, financeiramente quebrado, teve de recorrer ao Fundo Monetário Internacional por três vezes – em 13/11/98 23, 23/08/01 24 e 29/08/02 25 – recebendo em empréstimos respectivamente US$ 41 bilhões, US$ 15 bilhões e US$ 30 bilhões para a economia brasileira não colapsar26.

 

Por outra parte, setores da população desempregada e endividada começaram a realizar saques em super-mercados em meio a uma situação estrutural de exclusão, fome e miséria que havia se agravado no país. A CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tomou posição em defesa da população faminta em sua 36ª Assembleia Geral em abril de 1998. E a Folha de São Paulo assim noticiou no dia seguinte: Bispos defendem saques a supermercadosProgressistas e conservadores apoiam posição de d. Marcelo Carvalheira, expressa em congresso da CNBB27 Essa era realidade do Brasil, sob as políticas neoliberais do PSDB.

 

Enquanto a população faminta saqueava supermercados, a elevação das taxas de juros, que se tornaram as mais altas do mundo, alcançando a cifra de 45% ao ano em 4 de março de 1999 28, aumentava os ganhos dos especuladores rentistas que aplicavam em títulos públicos no país. O Brasil se tornou o paraíso dos especuladores financeiros. Eles traziam dólares, trocavam por reais e investiam em títulos do Tesouro Nacional, com margens que cobriam a inflação e variações do cambio, assegurando ganhos fabulosos a cada ano29. Foi assim que a dívida interna do Brasil, durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, saltou de R$ 59,2 bilhões em julho de 1994 para R$ 624 bilhões, em dezembro de 200130, chegando a corresponder a 57% do PIB em 2003 31.

 

A dívida interna tornara-se uma bola de neve e o Brasil o paraíso do rentismo e da especulação. Fortunas foram ganhas por especuladores nacionais e internacionais, que, para aumentar ainda mais os seus ganhos, pressionavam as cotações do dólar, atuando nos mercados de cambio, nos dias anteriores às datas em que esses papéis tinham de ser resgatados pelo Tesouro Nacional, forçando para cima a alteração das taxas a serem pagas pelo Governo32. Além disso, papéis, que no jargão do mercado eram “moedas podres”, foram recomprados no mercado internacional, por valores baixíssimos, e posteriormente utilizados com seu valor de face na compra de empresas estatais, em privatizações que transferiram patrimônio público a grupos privados em operações que lesaram a nação brasileira e nunca foram apuradas pelo Congresso Nacional. Somente de 1991 a 2000, mais de US$ 11 bilhões em moedas podres foram usadas nos processos de privatização33.

 

Outro mecanismo de combate à inflação, próprio da tradição do PSDB, é o corte de gastos públicos. Ocorre que todo investimento do Governo, realizando obras, injeta dinheiro na economia, ativa diferentes cadeias produtivas, remunera trabalho, ativa o consumo e dinamiza os fluxos econômicos. Por isso, nos governos de Fernando Henrique, cortar gastos públicos foi considerado uma das melhores armas para conter a inflação. Pois o dinheiro acumulado com essa economia era, por sua vez, usado para pagar os juros da dívida pública. E os principais beneficiários diretos dessa política de austeridade foram os especuladores financeiros que se enriqueciam, a cada dia, comprando os títulos do Tesouro Nacional.

 

O programa de Governo de Aécio Neves vai pelo mesmo caminho do corte de gastos públicos para reduzir a demanda e conter a inflação. A redução dos gastos públicos tem, portanto, dois objetivos: o de reduzir a atividade econômica do país, diminuindo a demanda, e o de assegurar margens de superávit fiscal que permitam cobrir a elevação de gastos com o pagamento de taxas de juros, que serão igualmente aumentadas com a justificativa de conter a inflação. Como consequência dessa redução da atividade econômica, a exemplo do ocorrido no Plano Real, têm-se igualmente uma redução dos níveis de emprego, o que no receituário do PSDB também contribui para reduzir a inflação.

 

Durante os governos de Fernando Henrique, esse corte de gastos esteve associado à defesa de um Estado mínimo, enxuto e eficiente, que se dedicasse à segurança, saúde e educação. Com essa justificativa, o PSDB privatizou empresas públicas, como a Vale do Rio Doce, usando o dinheiro obtido para abater a dívida pública, transferindo para atores privados um patrimônio que era do povo brasileiro. Na privatização da Vale, por R$ 3,3 bilhões, o especulador George Soros participou com R$ 100 milhões.34 No caso da Petrobras, jornais como a Folha de São Paulo chegaram a noticiar, em 27 de dezembro de 2000, a decisão do Governo do PSDB em mudar o nome da empresa para Petrobrax35, a fim de melhorar a sua imagem internacional. Mas a sua privatização acabou sendo evitada graças a uma grande mobilização da sociedade brasileira.

 

Agora, em 2014, seguindo essa mesma lógica, Armínio Fraga já antecipou, com relação ao BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, qual seria a posição do governo Aécio Neves sobre os bancos públicos:

esse é um modelo que não é favorável ao crescimento e ao desenvolvimento [...] pois, tende a ser capturado por interesses públicos e privados, alocar mal o capital, e com frequência acumular prejuízos enormes também. Essa área precisa de uma correção de rumos [...]. Os bancos públicos precisam ser administrados com padrões muito mais rígidos. Provavelmente vai chegar a um ponto em que vai ficar claro assim, para que eles não tenham tantas funções. Não sei muito bem o que vai sobrar no final da linha, talvez não muito”.36

 

Assim, qual seria o futuro dos bancos públicos num possível governo Aécio Neves? Embora Armínio Fraga diga que não esteja advogando fechar o BNDES, qual seria o “o final da linha” para os bancos públicos caso o PSDB assuma novamente o governo do país?

 

Por fim, a última arma para conter a inflação no receituário neoliberal do Consenso de Washington, adotada pelo PSDB durante o Plano Real, foi o que ficou conhecido como âncora cambial. A equipe de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, durante o governo de Itamar Franco, ajustou as taxas que deram o valor de base do Real para que ele valesse um pouco mais que um dólar. Isso assegurou a eleição de FHC para presidente. O cambio entre essas moedas ficou, então, estabilizado num patamar de valorização do Real. Isso prejudicou as exportações brasileiras durante anos e somente foi modificado em janeiro de 1999, meses depois de Fernando Henrique ter assegurado a sua vitória para o segundo mandato presidencial.37

 

Para manter a inflação sob controle, o receituário neoliberal cogitava a dolarização das economias. Era um passo importante para os Estados Unidos construírem a ALCA – a Área de Livre Comércio das Américas. Mas a equipe de Fernando Henrique criou a URV – Unidade Real de Valor, que serviu de indexador de contratos para, em seguida, criar o Real em paridade com a URV. Quando foi lançada, uma URV valia um dólar. Mas esse indicador foi propositalmente atualizado ao longo do tempo considerando-se distintos índices de inflação, de modo a apreciá-lo frente à moeda americana. Assim, quando o Real foi criado em 1 de julho de 1994, ele valia um pouco mais que um dólar. Com uma moeda estável “mais forte que o dólar”, Fernando Henrique Cardoso ganhou as eleições presidenciais naquele ano38.

 

Ao final do segundo governo de Fernando Henrique, o país estava endividado e em crise39. A sociedade queria mudanças. E por isso elegeu o Presidente Lula, que era a expressão de um projeto de desenvolvimento com distribuição de renda, um projeto democrático e popular. Esse projeto, cumpriu um primeiro ciclo importante na transformação do país, mas necessita ser aprofundado, fortalecendo a participação da sociedade no controle do Estado e o desenvolvimento sustentável do Brasil, sob os aspectos econômico, ecológico e solidário.

 

Por tudo o que argumentei aqui, a eleição de Aécio Neves representa um grave retrocesso para o Brasil e para a América Latina, por abandonar o projeto democrático e popular que promoveu doze anos de desenvolvimento com distribuição de renda e por aliar-se com setores autoritários que renegam a democracia e os direitos humanos como valores fundamentais.

 

Perdoem-me por haver aprofundado tanto os argumentos. Mas, como filósofo, esse é meu dever de ofício.

 

Dilma Presidente!

 

 

---------------------------------------------------

 

Sobre o autor:

 

Euclides Andre Mance é filósofo. Nos anos 1980 e 1990 foi professor universitário de Filosofia da Ciência e Filosofia Latino-Americana. Atuou como consultor da Unesco e FAO em projetos de Desenvolvimento Sustentável. É coordenador do Instituto de Filosofia da Libertação e Diretor Executivo de Solidarius Brasil. Entre seus livros estão A Revolução das Redes e Redes de Colaboração Solidária, publicados pela Editora Vozes.

 

2Flávia Sarmento. Banco Mundial destaca papel dos emergentes na economia global. 30/04/14

http://g1.globo.com/globo-news/conta-corrente/platb/2014/04/30/banco-mundial-destaca-papel-dos-emergentes-na-economia-global/

 


1Um comentário

  • E2f29e3e3057b427be53db4322711cf8?only path=false&size=50&d=identiconsilvinha
    22 de Outubro de 2014, 13:46

    Análise Interessantíssima

    Muito interessantíssima a sua análise!


Enviar um comentário

Os campos são obrigatórios.

Se você é um usuário registrado, pode se identificar e ser reconhecido automaticamente.

Cancelar