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A dialética da contaminação do tomate do CRAISA em Santo André

18 de Janeiro de 2016, 11:54 , por Consumo Consciente ABC - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Por Victor Dimitrov

O campo, ainda existe o campo, com todos aqueles agricultores e agricultoras, com suas enxadas e máquinas colhendo o tomate e o alface do prato feito diário do trabalhador urbano. Esses homens e mulheres que ainda guardam a cultura caipira, o jeitinho singelo e acima de tudo o conhecimento para produzir alimentos, esses pedem socorro, do tipo retratado na marcha eslava de Tchaikovsky, pois se trata de um atentado a vida.

Barracão de venenos de um camponês.

Após a audiência pública em Santo André sobre a contaminação dos agrotóxicos ficou evidente que a população urbana do ABC está se alimentando de veneno, o último laudo feito pelo Instituto Biológico do Estado de São Paulo apontou a presença de 17 tipos diferentes de agrotóxicos em amostras de tomate pizzadoro, sendo três não permitidos. Graças ao companheiro Marcelo Novaes, proeminente defensor público, adquirimos informações preciosas sobre onde começar o rastreamento e através de uma abordagem etnográfica chegar até esses agricultores e alertá-los sobre o que está acontecendo na cidade.

A equipe de extensão rural do CCABC visitou cinco agricultores entre Piedade e São Miguel Arcanjo para verificar como o tomate pizzadoro está sendo produzido, dos cinco agricultores, todos utilizam os agrotóxicos descritos no laudo do Instituto Biológico, haviam até outros, inclusive grande quantidade de herbicida glifosato, mas não o 2,4D, conforme não analisado pelo biólogo responsável e preconizada a importância de análise pelo companheiro Marcelo Novaes.

Na sua maioria, o trabalhador rural já está numa idade avançada.

A hipótese de coquetel, pelo menos nesses agricultores que foram visitados é falsa, os agrotóxicos são aplicados durante o ciclo da cultura, o coquetel, ou seja, a mistura dos químicos é impossível segundo os agricultores, pois caso haja mistura um inibe o funcionamento do outro.

Os custos de produção dos agricultores são desconhecidos, o que sabem é que precisam entregar para garantir a sobrevivência, para se ter uma ideia, de toda a renda da terra descontando os custos voláteis de produção, o que sobra para a família camponesa são R$900,00 por mês, um pouquinho mais que o salário mínimo. Toda a renda fica nas mãos das indústrias de veneno e para os atravessadores que levam os produtos para os grandes mercados da cidade, por exemplo, o CRAISA. Há um abismo econômico e social que distancia os agricultores dos atravessadores e da cidade.

As notícias veiculadas pelos jornais ABCD Maior, Carta Capital e TVT apontando o agricultor como "ganancioso" são falsas e demonstram um total descaso com a informação. Os camponeses que produzem nosso tomate do dia-a-dia estão tomando a decisão de utilizar veneno pois a mão-de-obra para manter o cultivo tradicional está se escasseando e os camponeses estão ficando idosos e sem energia para manter suas roças, o veneno e a semente híbrida acaba sendo a solução para otimizar o trabalho, mas há uma vontade de mudar por parte deles.

As sementes utilizadas são híbridas, o camponês perdeu a cultura da semente crioula e gasta muito dinheiro.

Os jovens não querem mais ficar na terra, não veem futuro e a desesperança tomou conta, muito por causa desse abismo econômico e social entre camponeses e atravessadores. Ser agricultor virou sinônimo de sofrimento e nenhum jovem com sã saúde quer sofrer.

O ritmo de trabalho desses agricultores é intensa, abastecer os donos do trabalho improdutivo da cidade não é fácil, a entrega dos produtos é feita para o revendedor (atravessador) ou para uma packing house, que é uma estação que recebe a produção, embala e envia para os supermercados. O camponês não participa do valor agregado e os consumidores urbanos também não participam do processo de produção, ou seja, tanto o camponês quanto o consumidor urbano estão alienados do processo que a indústria de químicos vem impondo, por isso que os veículos de informação, que deveriam informar "enchem linguiça" e ao invés de defender o trabalhador rural, aguçam a desesperança e a dicotomia.

Dentro do campo da educação popular, apresentamos aos agricultores nosso plano de transição agroecológica, e suspirando, esses agricultores que abordamos deram sinais positivos de esperança e estão abertos a mudança, não querem mais produzir com veneno, mas ainda há o desafio de vencer o tempo do mercado, o tempo da cidade que não liga muito para o tempo do campo. Há que se ter um esforço conjunto da sociedade. Os trabalhadores urbanos, já que consomem, precisam se organizar no sentido de fomentar ou financiar o esforço de trabalhador produtivo no campo. Trocas precisam ser feitas.

O CCABC persistirá na valorização do agricultor e da cultura camponesa e qualquer penalização pelo uso de agrotóxicos por parte do agricultor será repudiada, há que penalizar o rombo tributário e fiscal promovido por essas indústrias da morte e sabemos claramente que em primeiro lugar há que ser combatido com empenho o abismo que se criou entre o mercado e o agricultor, não adiantaria nada fazer uma transição agroecológica e manter as pútridas relações comerciais entre o campo e a cidade.
Fonte: http://consumoconscienteabc.blogspot.com/2016/01/a-dialetica-da-contaminacao-do-tomate.html

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