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Sobre o ter e o ter

22 de Julho de 2014, 15:14 , por Débora Nunes - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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A partir de hoje irei partilhar pequenos textos de minha autoria que refletem sobre a vida e/ou que compartilham experiencias inovadoras de coletivos cidadãos que estão mudando o mundo sem que este mundão velho da TV, do consumo e do vazio interior nem perceba...

Começo com: 

 

Sobre o ter e o ter

 

Ouvimos ad nauseum que vivemos um tempo em que o ter é mais importante que o ser. A frase é inócua, pois é raríssimo que um ser humano normal não ache que o ser é pelo menos tão importante quanto o ter, portanto não há desacordo e não se avança. Difícil então é questionar-se sobre a relação positiva e profunda de cada pessoa com o ter. Para chegar mais rápido ao ponto, evoco a velha roupa bonita, macia de tão usada, cheia de lembranças de coisas vividas e que é tão difícil de aposentar. Esta relação afetiva com o ter, com algo que tem significação para o ser profundo, é que precisa ser valorizada.

Num mundo de modas rápidas e produtos descartáveis seria necessário uma relação mais densa com o ter, que prolongue e dê significado aos objetos. O que existe abundantemente é uma relação viciosa com o comprar. A emoção de adquirir algo novo, sem defeitos, sem história. Tanto que, pros mais endinheirados, é comum esquecerem nos armários o que compraram após consumirem a emoção do momento da compra. O mesmo “vício” é a relação com o descartável, com o prático, o que não dá trabalho, o que desaparece após o uso dos nossos olhos sem deixar vestígios depois de passado o caminhão do lixo. Só que não desaparece de fato.

Dados os resultados do consumo sem fim para o planeta, este comportamento de ligeireza com o ter deverá ser revisto, sob pena de catástrofes climáticas cada vez mais cotidianas. A durabilidade do produto ano após ano, seja ele um prato, um computador ou uma geladeira, a reinvenção da roupa por um novo acessório ou nova combinação, a escolha criteriosa de produtos alimentícios que de fato construam nosso corpo e não distraiam nossa fome íntima serão a nova ordem. Do mesmo modo que consertar um objeto usado significará respeito por ele, por si mesmo e pelo mundo. A Seva Ioga, a ioga que praticamos trabalhando concentradamente, faz do gesto mais simples de colar cacos, remendar, lavar e limpar, um ato de meditação, de encontro consigo mesmo, de respeito para com o objeto. Que o ter seja reabilitado, no bom sentido.

 

 

 

22 de julho de 2014


Fonte: Débora Nunes

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