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Cidades que mudam, gente que vive melhor

2 de Setembro de 2018, 12:07 , por Débora Nunes - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Cidades em transição A terra em minhas mãos julho 2016

Com grande lentidão, a compreensão da urgência de mudar a lógica da organização social, particularmente nas cidades, vem se aprofundando. Desde as primeiras reflexões sobre a finitude dos recursos da Terra, ainda nos anos sessenta do século passado, ao progressivo entendimento sobre os limites do crescimento econômico, até a tomada de medidas para diminuir o impacto da ação humana no planeta, foram-se algumas décadas. No novo milênio, ações se multiplicaram, mas atingem, por enquanto, pequeno número de pessoas. Conhecer melhor esses movimentos vanguardistas ajuda a disseminar experiências e a inspirar inovações. O movimento “Cidades em Transição” é um deles e seu foco é a melhoria da qualidade de vida urbana evitando o aprofundamento das mudanças climáticas em curso.

A ideia surgiu na pequena Totnes, na Inglaterra, em 2004, mesma cidade onde foi fundado o famoso Schumacker College, que ensina ecologia e novos paradigmas e homenageia o mentor da ideia “small is beautiful”. O professor de permacultura Rob Hopkins e seu amigo Naresh Giangrande convenceram conterrâneos a ajudá-los na iniciativa de transformar a cidade com discussões que aconteciam após sessões de cinema. Em 2006, o “Transition Towns Totnes” foi lançado como movimento que buscava reduzir drasticamente na cidade o uso de derivados de petróleo e todo tipo de emissão de CO2. Esse gás de efeito estufa é o maior inimigo do meio ambiente e sua emissão é uma consequência do uso excessivo de bens industrializados. As primeiras ações em Totnes foram a produção de alimentos orgânicos em hortas coletivas urbanas, a redução do consumo de energia e de água e a reciclagem de lixo na casa dos envolvidos.

Hoje o conceito de Transition Towns ganhou o respeito de instituições e governos e o movimento está implantado em 14 países. As Cidades em Transição mostram que as melhores soluções vêm do engajamento da própria população em mudar seu comportamento. Vê-se pequenas inciativas tendo grande impacto não só pelo menor desperdício e poluição, mas por envolver as comunidades em ações cooperativas que promovem amizades e sentimento de ser útil a si e ao mundo. A criação de jardins e pomares em terrenos abandonados, a organização do empréstimo de ferramentas e aparelhos de uso descontínuo, os mercados de bens usados, a produção de vegetais e frutas de forma cooperativa, a compostagem de resíduos orgânicos para produção de adubos para os jardins colaborativos, a organização de ateliers de consertos de bens e a criação de moedas locais são algumas das inciativas que ajudam a economizar dinheiro e a proteger a Natureza.

O envolvimento dos governos reforça as ações e lhes dá maior escala e maior impacto, como a construção de centrais de energia solar cooperativa, o desenvolvimento de redes de captação de águas de chuva em prédios públicos e privados, programas de consumo consciente em escolas e órgãos públicos, de reaproveitamento de alimentos em supermercado e feiras, de reflorestamento de nascentes, entre tantas outras iniciativas. Entretanto, sem o convencimento das comunidades, não é possível desenvolver soluções duradouras e os governos estão percebendo isso mais e mais, sobretudo os das pequenas cidades, como Totnes, onde tudo começou. A construção de cidades mais resistentes a crises econômicas e ecológicas, é um movimento horizontal, em que as pessoas se envolvem voluntariamente e acabam por reconfigurar a sociedade local e, consequentemente, por influenciar o mundo.

Rob Hopkins tornou-se uma referência, sobretudo após a publicação, que fez com Ben Brangwyn, do “Manual das Iniciativas de Transição”, no qual descreve como fazer coletivamente um plano de trabalho para desenvolver maior resiliência e solidariedade em cidades, bairros, coletivos. A resiliência (capacidade de um sistema em resistir a choques externos) consiste em construir maior autonomia das comunidades em face de dificuldades, e o Manual é facilmente acessível na internet, em várias línguas. Estudos mostram que todos os processos da Transição para modelos de vida mais ecológicos acabam por reforçar a economia do lugar, favorecendo empregos locais, melhorando a renda da comunidade e ajudando a superar a pobreza.

O movimento chegou ao Brasil em 2009 quando foram realizados “Treinamentos para a Transição” em vários estados. Com em outros lugares do mundo, as cidades e bairros que adotaram os objetivos do movimento estão trabalhando para mudar seu modelo de organização socioeconômico em direção a soluções mais sustentáveis e participativas. Isso implica, certamente, em resgatar o vínculo das pessoas com o lugar em que moram, mas também em buscar soluções para o desemprego e a violência, entendendo a complementaridade entre ações ambientais e sociais para o bem viver coletivo. O movimento segue tecendo sua história no âmbito nacional e, na dimensão internacional, a inclusão de experiências do movimento Transitions Towns no badalado filme francês “Demain” (“Amanhã”) contribuiu muito para sua divulgação. Como toda ação de inovação nesses tempos pré-colapso, inspirar é mais importante que conquistar novos adeptos, pois o que está em jogo é a construção de uma sociedade viável que depende de milhões de iniciativas de milhares de movimentos.

 

 


Categorias

Economia, Política, Desenvolvimento territorial, Agroecologia, Produção, comercialização e consumo
Tags deste artigo: economia solidária ecocidadania mobilização cidadã cidades Transição

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