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Política, meio ambiente e eleições

11 de Outubro de 2018, 9:47 , por Débora Nunes - 0sem comentários ainda | Ninguém está seguindo este artigo ainda.
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Destruição ambiental emerson

Texto de Emerson Andrade Sales

 

Esta semana, em pleno turbilhão do processo eleitoral brasileiro, foi divulgado o sumário do AR6, mais recente relatório do IPCC, grupo de 721 cientistas de 90 países encarregado pelas Nações Unidas para estudar o impacto das mudanças climáticas no planeta. O relatório, após a análise de mais de seis mil estudos científicos, afirma que temos apenas 12 anos para evitar uma grande catástrofe climática. O Acordo de Paris, assinado por 197 países em 2015, dos quais 18 ainda não ratificaram, propõe ações para evitar um aquecimento global de 2oC até 2050 em relação ao início da era industrial, mas este novo relatório mostra que mesmo um aquecimento de 1,5oC até 2040, o que é bastante provável, trará consequências catastróficas, como escassez de comida e grandes incêndios.

Os países signatários deste acordo não estão cumprindo suas metas, pois em vez de redução, observou-se em 2017 um aumento de 1,6% nas emissões totais de CO2 relacionadas ao uso dos combustíveis fósseis - petróleo, carvão mineral e gás natural. Isto é sobretudo devido a um aumento na demanda por petróleo de 1,5% ao ano em média. Os Estados Unidos, a maior economia do planeta e segundo maior emissor de gases de efeito estufa, tem um presidente de direita que zomba dos estudos científicos, abandonou o Acordo de Paris, e estimula a queima intensiva de carvão para gerar energia elétrica. O Brasil, sétimo maior emissor de gases causadores do efeito estufa, corre o risco de eleger um presidente de extrema direita, que disse também ter a intenção de abandonar o Acordo, dentre outros planos absurdos, como o de extinguir o Ministério do Meio Ambiente, e incluir este tema no Ministério da Agricultura. Vale lembrar que agricultura para ele, e sua base de apoio eleita maciçamente neste 1º turno, significa o agronegócio extensivo, principal causador da devastação dos ecossistemas no mundo inteiro, com imensos impactos na biodiversidade, no solo, subsolo, uso da água, e emissão de gases de efeito estufa, sobretudo o óxido nitroso, não comentado pela mídia.  Esses temas precisam ser considerados pelos eleitores brasileiros neste momento decisivo para a democracia no país, e com repercussões muito além das nossas fronteiras convencionais.

Para evitar um aquecimento global de 1,5oC, a emissão total de gases de efeito estufa precisa cair 45% até 2030, em relação à 2010, e 100% até 2050, e o uso do carvão mineral para gerar eletricidade precisaria cair de cerca de 40% do total gerado atualmente para no máximo 7%, segundo o mesmo relatório. Energias renováveis, como a solar e a eólica, teriam que passar do nível atual, cerca de 20% da eletricidade consumida, para 67%. Tudo isso é tecnicamente possível, mas depende de ação política e cidadã, no prazo imediato. Não há mais tempo algum a perder. Somos nós os únicos responsáveis pelo nosso destino. Não existem, nem nunca existirão, soluções mágicas.

Entender a gravidade do contexto, e agir em todos os níveis, do local, comunitário, até o mais amplo possível, é crucial neste momento, assim como combater sem trégua a irracionalidade da maioria dos governantes, que beira a loucura, pois sabe-se muito bem que esta exploração desenfreada dos recursos naturais tem seus limites, os limites biofísicos do planeta, que dão suporte à vida. Todas as espécies conhecidas tem de forma inata o instinto de autopreservação; até agora, os humanos estão contrariando este princípio da vida, talvez por ignorância, ingenuidade, porém agora chega-se ao ponto crítico, não há como negar; somos individualmente e coletivamente os responsáveis pelo nosso próprio destino.

Uma decisão eleitoral tem reflexos muito mais amplos do que se imagina; vê-se por exemplo o caso norte americano, que está trazendo consequências para toda a humanidade. Com a ascensão de Donald Trump, os programas de substituição de fósseis perderam a prioridade. Com o esgotamento do estoque mundial de petróleo, sua carência está sendo suprida por hidrocarbonetos recuperados de areias betuminosas e pelo  óleo de xisto, que são ainda mais destrutivos ambientalmente. Entretanto Trump vem tendo crescente apoio por ter aumentado a autonomia dos EUA, diminuindo drasticamente sua dependência do Oriente Médio.

O “sucesso” da política do presidente Trump nesta área faz-se em detrimento dessas e das próximas gerações, pois tratam-se de fontes de energia insustentáveis a longo termo, que usam tecnologias com impactos imensos no curto e médio termo. Os hidrocarbonetos são extraídos por mineração extensiva, no caso das areias  betuminosas, o que está destruindo o Estado de Alberta no Canadá, principal produtor, e por fratura de rochas no subsolo, através da injeção de líquido a alta pressão, no caso do óleo de xisto,  causando contaminações, abalos sísmicos, dentre outros impactos.  Isso levou a imensos protestos e à proibição dessas práticas em alguns estados norte-americanos mais avançados em relação à sustentabilidade. O governo Trump já está realizando a prospecção destas fontes em outros locais do planeta, numa atitude similar à lógica bélica do petróleo que causou tantas guerras, degradação, destruição de comunidades e países, que até hoje não conseguem se reestruturar, como o Iraque e Afeganistão.

Amparada pelas decisões do presidente, infelizmente cresce, nos EUA, toda a indústria relacionada aos fósseis, e retrocedem todas as políticas voltadas para a eficiência energética, tecnologias limpas, e a taxação das emissões de carbono, que o antecessor presidente Obama pretendia implantar. O carvão, combustível fóssil mais poluente de todos, responde hoje por 30% da geração de eletricidade nos Estados Unidos, e a previsão da Agência de Informações em Energia deste país, é que este cenário ficará estável até o final do século, já que existe estoque para tal. Mesmo raciocínio tem a Associação Mundial de Carvão, que corrobora as projeções da Agência Internacional de Energia e apontam para o uso mundial estável deste combustível no médio prazo, contestando as indicações dos cientistas, de que é preciso deter o uso deste, e dos demais combustíveis fósseis, para que as metas do Acordo de Paris sejam atendidas.

O que eles sugerem é que sejam feitos investimentos em novas tecnologias para captura de carbono, ou megaprojetos de geoengenharia, como por exemplo colocar na atmosfera partículas bloqueadoras da radiação solar, visando conter o aquecimento global. Estas ações não vão nas causas, são paliativos, dando-lhes permissão para poluir... Existem muitos estudos nestas áreas, porém nenhum com viabilidade técnico econômica demonstrada para uso em larga escala, e apontam para riscos de efeitos secundários gravíssimos para a natureza e todos os seres vivos.

O que não se discute são os custos indiretos: a queima de carvão, petróleo e gás natural têm sérios e duradouros impactos negativos na saúde pública, nas comunidades e ecossistemas locais e no clima global. Estes custos são escondidos; nós não pagamos pelo custo do câncer, ou de muitas outras doenças, e pela perda de biocapacidade, que inviabilizará as futuras gerações, quando pagamos nossa conta de eletricidade ou a da gasolina - mas esses custos são reais. Um estudo detalhado realizado por pesquisadores da Universidade de Medicina de Harvard em 2010 estima que apenas para o caso do carvão, estes custos escondidos correspondem a cerca de um terço do gasto com eletricidade de uma família típica dos Estados Unidos.

O que de fato importa não é prioridade dos programas destes governantes: o uso sóbrio e consciente dos recursos naturais, o aumento da eficiência energética, a substituição imediata das fontes fósseis por renováveis, em todos os setores. Quando se discute política energética, estão em jogo a biocapacidade do planeta, a manutenção da vida, a continuidade das espécies, a saúde dos seres vivos, não apenas dos humanos, ou seja, a qualidade da vida que teremos em breve e a do nossos descendentes. É estreito demais pensar apenas em curto prazo, em retorno financeiro de corporações, em produtos internos brutos, em volumes de negócios, temas prioritários para os governos de direita. Nada disto pode superar o verdadeiro valor da vida,  o prazer de viver bem, aqui e agora, em comunhão com os outros e com a natureza. Este é o maior patrimônio que podemos deixar aos que irão continuar nesta jornada, os que virão depois de nós.

O candidato Haddad propõe: uma economia de baixo impacto ambiental e alto valor agregado; promoção do direito à água e ao saneamento básico; desmatamento zero, proteção da socio biodiversidade e o papel da Amazônia na transição ecológica; nova governança para a chamada transição ecológica. De início, em seu programa destaca-se a proposta de uma reforma fiscal verde, que progressivamente aumentará o custo das emissões de gases de efeito estufa e premiará investimentos e inovação de baixo carbono. Por outro lado, o candidato da extrema direita afirmou que, se eleito, retirará o país do citado compromisso internacional, o Acordo de Paris. O plano de governo deste candidato não tem propostas específicas nos temas de clima, redução do desmatamento ilegal ou universalização do saneamento básico.

Um voto numa urna implica em tudo isso, são alguns segundos apenas, mas tem repercussões por anos, décadas, gerações... Nestes poucos dias que virão os brasileiros decidirão se corroboram com esta triste tendência norte-americana, a qual felizmente encontra reação forte local e internacional, ou se, escapando das muitas armadilhas e falácias que lhes foram deliberadamente aplicadas, escreverão uma outra história, coerente com a sua vocação democrática e de sensibilidade às questões ambientais.


Categorias

Meio-ambiente, Desenvolvimento territorial, Política, Economia
Tags deste artigo: combustíveis fósseis insustentabilidade eleições 2018 Transição sustentabilidade

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