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January 12, 2009 22:00 , by Unknown - | 1 person following this article.

A humanidade em evolução: primeiras aldeias, antes de 3500 a.C.

January 2, 2019 9:36, by Débora Nunes - 0no comments yet

Jan 2109 primeiras aldeias

Pré-história: O pré-patriarcado, antes de 3500 a.C.

(RESUMO)

Débora Nunes

A liberação paulatina da exposição aos rigores da Natureza foi uma grande evolução para a humanidade, que se diferenciou assim, passo a passo, das demais espécies animais. A saída da pura animalidade, nesse sentido, se fez de formas variadas, constituindo um tipo de vida humana primitiva, onde uma evolução intrincava-se com outra permitindo mais proteção, conforto e sociabilidade. O domínio do fogo permitiu afastar animais ferozes, trazendo uma vida mais protegida, particularmente para crianças e idosos. A invenção de ferramentas rústicas e o uso do fogo na culinária insipiente permitiram a manipulação e o cozimento dos alimentos e assim uma alimentação mais digesta, variada e passível de ser armazenada.  A liberação da exposição aos rigores do clima, através da confecção das primeiras roupas e sapatos rudimentares e da construção de abrigos contra a chuva e o sol, significaram um aprofundamento dessa vida mais confortável, protegida e abundante. As aldeias, vinculadas à prática da agricultura, ampliaram essas características por serem cercadas, pela existência de silos de armazenamento e pelas rotinas coletivas que se ampliam com o sedentarismo.

Em certo sentido, a criação da arte e da espiritualidade – aí onde nasce o pensamento simbólico – foram também uma grande liberação. A relação com o sagrado significou inventar uma ritualização na qual a humanidade pedia proteção e benção às deidades da Natureza e sentia que “acalmava” sua ira. Os raios e trovões, as inundações e as secas, os vendavais, os ciclones e terremotos, os frios e calores intensos, etc, eram angústias que os seres humanos viviam pelo mistério das origens desses fenômenos. A ritualização da relação com a Natureza dava aos humanos, provavelmente, a sensação de poder compreendê-la, tornando-os menos angustiados. Nessa mesma perspectiva encontra-se o desenvolvimento artístico, que teve seus primórdios como parte da ritualização dos sentimentos humanos. A conjuração dos medos e a gratidão pela fertilidade da terra e das mulheres, a gratidão pela beleza, pelos prazeres da comida, da dança,dos cantos e do sexo, pelo sucesso da caça, entre outras bençãos, deram origem aos painéis murais das cavernas e as estátuas da Deusa Mãe. Assim, a religião e a arte significaram a amplificação da  existência cotidiana para a esfera da abstração. O desenvolvimento da imaginação e com ela da linguagem, foi uma das condições de humanização.

Um aspecto particular desse período é que as sociedades se organizavam a partir de uma igualdade de gênero. As sociedades nômades e coletoras, assim como os primeiros assentamentos humanos, organizavam-se com tarefas definidas por aptidões biológicas e pessoais de homens e mulheres, de jovens e velhos. A complementariedade dessas aptidões  permitia uma divisão igualitária de poder. O poder era concebido como poder de servir e como poder de criar, como forma de honrar o.a.s as pessoas mais experientes e talentosas e que assim podem guiar uma coletividade a situações cada vez mais mais prósperas, mais seguras, mais pacíficas e mais sãs. Em alguns momentos o poder estava mais relacionado a aspectos do convívio e cccuuumprimentos das regras coletivas, outras da saúde e comunicação com as divindades, outras com a necessidade de defesa e assim diferentes pessoas podiam assumir posições de comando, como caciques, xamãs ou guerreiros, a depender do momento e da demanda da comunidade.

Se esse primeiro afastamento das condições ambientais naturais significou uma grande evolução desse período, foi também, provavelmente, a remota origem da ideia de progresso como “libertação do jugo da Natureza”.  Ao longo da civilização humana a busca do domínio do meio ambiente foi uma constante: quanto mais a humanidade se empoderava com a invençao de novas tecnologias, menos a Natureza era vista como sagrada, até tornar-se um “objeto” dominado. A construção de espaços humanos (aldeias e posteriormente cidades, metrópoles e megálopes) nos quais as condições naturais são “vencidas” até que se tornem quase invisíveis num mar de concreto e asfalto foram expressão disso, assim como a exploração contínua dos recursos naturais até sua exaustão. Essa ideologia é tão profundamente arraigada que o momento atual, de entendimento dos magníficos processos de funcionamento da Natureza e de resgate do respeito à sua inteligência maior, exige esforço profundo das gerações que estão hoje vivendo sobre a Terra.

(Esse é um resumo do que você verá no livro "A humanidade em evolução", a ser publicado ano que vem. Para participar de sua escritura, comente e acompanhe o blog para ver os próximos resumos).

 



Uma ciência pós materialista já existe

December 27, 2018 3:41, by Débora Nunes - 0no comments yet

Religiao ciencia

Hoje em dia milhares de profissionais no mundo utilizam saberes que situam-se na fronteira da ciência convencional, com resultados fantásticos, mas ainda são considerados mais ”bruxos” que profissionais sérios. Na psicologia, esse é o caso dos que trabalham com constelações familiares, hipnoterapia, xamanismo, terapias de vidas passadas, entre outras tantas. Seus pacientes reconhecem os efeitos dos tratamentos, mas os colegas mais conservadores os levam pouco a sério. Do mesmo modo, relatos de antropólogos que usaram métodos xamânicos, como rituais de ayhuasca ou wachuma, para descobrirem onde encontrar múmias e lugares sagrados dos povos que estudam, são relativamente comuns. Depoimentos de grandes artistas e cientistas dizendo que “receberam” os insigts para comporem suas obras, também são frequentes. Para a ciência materialista tudo isso é bobagem e charlatanismo, mesmo que os resultados práticos sejam relevantes.

Para o pós-materialismo científico, estas descobertas e curas são explicadas com uma noção básica de que a realidade não material permite um tipo de conexão que independe do espaço-tempo. Isso pode ser melhor entendido a partir de conceitos como entrelaçamento quântico, ressonância mórfica, e incosciente coletivo, dentre outros. Sem entrar em detalhes sobre esses conceitos, que podem facilmente serem encontrados pela internet, onde pode-se encontrar também a literatura acadêmica sobre o assunto,  a questão que se pretende discutir nesse texto é porque há tanta resistência para discutir avanços que apontam para uma análise científica mais ampla. Porque, sendo a ciência um pensar que se sabe limitado e em constante mutação, abrir-se para novos modelos explicativos é tão difícil em certos meios intelectuais? E porque os novos paradigmas, por outro lado, são tão bem recebidos pelo público em geral?

As reações mais comuns à fenômenos como os citados antes, ou sobre episódios de quase morte ou de mediunidade, entre outros, são: “isso não é científico”, ou “não se pode - ou não se deve - misturar ciência e espiritualidade”. O fato destes fenômenos estarem ligados a saberes ancestrais de povos originários de várias partes do mundo perturba ainda mais a discussão. Depois de oprimidas, essas práticas passaram a ser mais e mais respeitadas, mas como fenômenos culturais e não como modos de entendimento e ação sobre o mundo. O que é a ciência atualmente vigente se não uma forma de entendimento e ação sobre o mundo que utiliza uma base racional oriunda da cultura européia, principalmente? Esta ciência de base racional européia foi tão profundamente inserida nas culturas de todo o planeta que não são apenas os intelectuais europeus que reagem a outros entendimentos do mundo como “não científicos”. Essa reação ainda é generalizada, mesmo que menos intensa no oriente.

A ideia de que a matéria é energia é algo profundamente ligado à culturas ancestrais dos cinco continentes, mas foram os europeus, mais uma vez, que de certa forma a “reabilitaram” como legitimamente científica, a partir das descobertas da física quântica, no início do século XX. As  noções de chi para os antigos chineses, de axé para povos africanos tradicionais, de prana para os vedas da India, do espírito da pachamama para os povos andinos,  entre outros, explicam, cada uma a seu modo, como o espírito fecunda a vida. Quando a física quântica diz algo semelhante, a ciência tradicional, que não pode prescindir das descobertas quânticas - se não teria que renunciar aos computadores, celulares e mil outras coisas - quer restringir o uso dessa ideia ao funcionamento de aparatos, mas não ao entendimento do mundo.  O fato de que intelectuais como Fritjof Capra, Amit Goswami, Greg Braden e Rupert Sheldrake tenham percebido a relação entre essas culturas ancestrais e os novos paradigmas quântico-holístico-sistêmico-ecológico da nova ciência, os fizeram internacionalmente conhecidos, mas também combatidos como “pouco científicos”.

O dogmatismo da ciência materialista diz que tudo se baseia na matéria, que a consciência vem do cérebro, que o amor vem dos hormônios,  que tudo se extingue com a morte do corpo, entre outros “absurdos” do ponto de vista da ciência pós materialista.  Vê-se portanto um combate, no velho estilo do mundo patriarcal, em que só existe uma verdade, em que essa verdade é estabelecida pelos mais “aptos”, e que na luta para estabelecer a verdade e ser dono dela vale qualquer esforço. Esse esforço hoje pode ser argumentativo, mesmo que ferino e desmoralizante, como chamar um profissional de pouco sério ou um argumento coerente e consistente sobre aspectos sutis do mundo de não científico. Esse já foi um combate mortal, pela força, no caso dos colonizadores europeus com o.a.s xamãs dos países colonizados, ou no caso da inquisição européia com os “hereges” da Idade Média. Milhões de hereges e de xamãs, coincidentemente sobretudo mulheres, tidas como bruxas, foram  executados e queimadas nas fogueiras, nos tempos mais duros de imposição da cultura européia.

É importante atentar para o fato de que as visões de mundo que baseiam a ciência estão sempre se reportando ao momento histórico em que estão inseridas. O paradigma cartesiano e mecanicista, que trouxe grandes avanços para o entendimento da realidade e que ainda hoje estrutura o nosso  mundo, se criou em um momento histórico em que a antes irrelevante Europa consolidava sua influência econômica e intelectual em todos os continentes. Renée Descartes, francês e Isaac Newton, inglês, destacam-se na base argumentativa da ciência ainda hegemônica. Do mesmo modo, a concepção de novos paradigmas – de base quântica, que buscam uma visão integradora do mundo (holístico-sistêmica) e que avançam em uma abordagem ecológica, não antropocêntrica – é um fenomeno cultural do final do século XX e do século XXI. Em um mundo política e economicamente multipolar, ameaçado de colapso ambiental e no qual assiste-se uma progressiva feminização das sociedades, é natural que outros paradigmas busquem se estabelecer para melhor interpretar o momento histórico.

A relação entre ciência e espiritualidade, que se destaca nos novos paradigmas, encontra base interpretativa, entre outras, na chamada “física da alma”, de Amit Goswami, ou no “tao da física”, de Fritjof Capra, mas é nas tradições de conhecimento ancestrais, como foi dito antes, que elas encontram um eco particularmente importante. É compreensível a valorização crescente das culturas ancestrais em um mundo no qual as pessoas perdem o sentido da existência pela velocidade das transformações, pela invasão dos aparatos tecnológicos em suas vidas e pela absurda futilidade do consumismo. A superficialidade das respostas atuais sobre “quem somos nós” –  um.a consumidor.a? um perfil nas redes sociais? um projeto profissional de sucesso? – não tem comparação com as respostas que a sabedoria ancestral, seja ela chinesa, andina, indiana ou africana, etc., nos dá, concebendo uma conexão entre matéria e espírito, oferecendo um sentido para a vida.

Os novos paradigmas, tanto como visão de mundo, quanto como base de organização da ciência, ajustam-se melhor às características que o mundo atual vem adquirindo. Ainda há resistências importantes, sobretudo no meio intelectual, mas elas serão aos poucos vencidas. Os novos paradigmas acatam a pluralidade e validam a ideia de que para melhor apreender a realidade, várias abordagens são necessárias, várias verdades podem coexistir, inclusive algumas defendidas pelo velho paradigma, que podem continuar valendo. Uma vez que a realidade torna-se cada vez mais complexa, mais multicultural, menos hierárquica – a começar pelas relações humanas no seio das próprias famílias – só a cooperação entre pensamentos diferentes pode levar à um entendimento mais relacional e profundo do mundo, a uma visão mais integral do todo. Não é coincidência que essas abordagens sejam muito mais naturais para a inteligência tida como feminina.

Clássicos do entendimento científico, como Karl Popper, ao defender que o processo de refutação é a maior arma para se chegar à verdade e que a discussão científica é uma verdadeira luta em que “os argumentos são como espadas”, revelam uma visão excessivamente competitiva da ciência. Como Popper, muitos outros autores desenvolveram argumentos epistemológicos (como conhecemos e o que conhecemos?), ontológicos (qual a natureza do ser que conhece?), hermenêuticos (como interpretamos o que lemos no mundo?) que ajudaram o pensamento humano e a ciência a evoluirem. À luz dos novos paradigmas, entretanto, percebe-se que muitas vezes esses autores partem de uma visão de mundo que limita essa evolução por imaginar a verdade como um fato único a ser disputado. Mais cooperação faria muito bem à ciência, como à economia, como aos relacionamentos, como à vida em geral. Entender o papel do patriarcado como concepção de dominação na tessitura do pensamento científico nos abre para uma nova conexão entre ciência e valores, entre ciência e política, entre ciência e o sentido da vida. Os novos paradigmas, mais includentes e portadores de racionalidades mais plurais, mais femininos, mais ecológicos, mais multiculturais, estão realizando uma revolução no pensamento científico. No campo da História, um livro que se destaca nessa revolução do pensamento foi escrito por Riane Eisler e intitula-se “O cálice e a espada”. Nele, a autora evidencia como o patriarcado moldou a realidade e o olhar hegemônico sobre o mundo e como perceber isso pode trazer novas perspectivas epistemológicas, ontológicas e hermenêuticas.

É interessante observar também que, pelo menos nas ciências humanas, cada vez mais se valorizam artigos e livros com uma pluralidade de referências e não mais citações dos mesmos autores consagrados da academia européia e americana. Quando se vê bibliografias com referências que contêm autoras e autores, com origens continentais diversas, que são de períodos históricos diferentes e de origem disciplinar múltipla, percebe-se, de modo geral, uma argumentação mais abrangente, mais inovadora. Na medida em que a penetração de uma visão paradigmática mais ampla for se reforçando, textos com essas características tenderão a ser mais respeitados cientificamente simplemente porque, ao abrirem perspectivas, enriquecem a compreensão do mundo, que está se complexificando cada vez mais.

É comum também que o.a.s autores.as que se baseiam nos novos paradigmas sejam mais “enraizados” no real e não apenas teóricos e que sejam mais preocupados com a democratização do conhecimento. Assim, buscam escrever de modo mais compreensível,  traduzindo seus termos disciplinares em palavras acessíveis para um público mais amplo, incluindo imagens e vídeos para se comunicar. Ao demonstrarem sensibilidade com os desafios humanos do dia a dia e evitarem abstrações excessivas, dialogam com as pessoas comuns, que usam mais sua experiência pessoal como referência de entendimento da existência e assim sentem-se mais à vontade de ler e opinar. Essa democratização da experiência de debate intelectual traz à ciencia um aspecto novo, agregador, que reconhece a necessidade de que o conhecimento saia de suas torres de marfim, que se enriqueça e dialogue com outras formas de conhecimento, evitando o elitismo.

É natural que novas visões de mundo e novos parâmetros de cientificidade tateiem nos primeiros tempos. Mesmo Einstein questionou princípios hoje consagrados da física quântica. Só a liberdade de pensar, de pesquisar e de experimentar podem consolidar novas visões de mundo. Por isso mesmo, recentemente, diversos documentos vêm sendo assinados por cientistas respeitados pedindo maior abertura no meio científico para que os novos paradigmas façam seu caminho de abrir horizontes, de testar suas premissas, de pesquisar livremente. O “Manifesto por uma ciência pós materialista” é um deles. Lançado em 2014 e com centenas de assinaturas de cientistas de todos os horizontes, ele afirma que a ideia de que a matéria é a origem e a organizadora do Universo é apenas um pressuposto, e não uma “verdade científica”, pois nunca foi provada. Para a ciência pós-materialista, muito do que hoje é tido como anti-científico porque não se coaduna com o pressuposto materialista, tornar-se-ia perfeitamente compreensível e científico caso se partisse da premissa de que a consciência é a base de tudo.

Outros manifestos, outras pesquisas, outros artigos e livros vêm sendo publicados, outras instituições de pesquisa têm sido criadas, a maioria fora das Universidades, que nesse momento são, de modo geral, guardiãs do velho paradigma. Um dos motivos para isso é que seus professores foram formados nele e não se dispõem a questioná-lo até mesmo com medo das críticas dos colegas. Mas o tempo não pára e o novo sempre vem. Ajudá-lo a se fortalecer é um desafio pra quem tem coragem. Sempre foi assim e Descartes e Newton, fundadores do paradigma que hoje se mostra insuficiente, nos seus tempos de vida foram corajosos o suficiente pra afirmar que a realidade era muito maior do que cabia nos estreitos dogmas da religião. Que possa a ciência atualmente tida como verdadeira não se tornar tão dogmática quanto as religiões que queriam se impor pelo argumento da autoridade.  Manter o espírito investigador da ciência, o princípio da dúvida, a valorização da argumentação consistente com os fatos não tem nenhuma contradição com a ideia de que o mundo e a experiência humana são muito mais amplos do que pensa a ciência materialista.

Versão em francês

https://www.pressenza.com/fr/2018/12/il-existe-deja-une-science-post-materialiste/

 

Versão em espanhol

https://www.pressenza.com/es/2018/12/ya-existe-una-ciencia-post-materialista/

 

 

 



The subtle field and political action? opening new horizons in Brazil and the world

December 17, 2018 20:05, by Débora Nunes - 0no comments yet

Hare om tat satThe results of the Brazilian elections led to relevant, in-depth analyses of the political history and the future of the country. But the question "why was rationality thrown to the wind exposing us to the direst consequences?” keeps dogging us without a clear answer. Analysing the influence of the subtle field can help us understand how this came about and what awaits us, since much of what happened cannot be accounted for by the prevailing rationality. The quantum-holistic-systemic-ecological paradigm recognizes the immaterial dimension of the world as a new field of knowledge. When the material dimension has been dissected in the light of the Cartesian paradigm – as well as historical and dialectical materialism, which is part of it – and so many questions remain unanswered, it is time to dig further.

Current rationality is based on an ability to construe events through numbers, comparisons, hierarchical relationships between concepts and data, and the necessary "material proof". This is not sufficient, however, to help us interpret reality, for the latter also comprises subtle phenomena whose understanding requires a different order of rationality. One way of interpreting these phenomena is by calling on the notion of "morphogenetic fields" proposed by Rupert Sheldrake, an English biologist who views them as a universal field formed by actions, thoughts and feelings throughout individual and collective history. To understand this field we need to consider the phenomenon of "quantum entanglement", in which electrons, photons and even molecules remain interconnected independently of space-time and behave in a interconnected way. Another important notion of the new paradigm is the "quantum leap" phenomenon, when a discontinuous and unexpected change of state occurs when certain conditions are met.

These and other notions of the quantum-holistic worldview will help us complement and shore up our observations, deductions and generalizations about reality. The explanatory model of "family constellations" will be used to understand what happened in Brazil in these elections, and although there are many other ways of approaching the subtle field, this model seems particularly effective in inspiring the necessary action in the energetic field. This action, with its new content, will be presented below. It complements the humanist, ecological and emancipatory political action that is already well known, the "activism" that the Brazilian extreme right is trying to smother – to no avail. Activism translates into many forms of popular education that stimulate critical thinking, into citizen organization within people’s movements, unions, NGOs and political parties, into an integrated progressive network of groups, into concrete civil society action in the areas of social justice, ecology and the rich world of solidarity economy, ecovillages, etc. Other kinds of activism include actions in Parliament, protests in the street and on social networks. Combining these actions with those that involve the subtle dimension will be vital to get Brazil out of its predicament.

Bert Hellinger, the initiator of the family constellations therapy, argues that human behaviour is related to the existence of something akin to a "universal soul," or morphogenetic field that feeds on our stories, is activated and eventually ”sticks” when repeated often enough. He posits that our emotions and our conflicts are related to ancestral loyalties and also that old, unhealed negative emotions can be experienced again by people in a family, group, or nation. Hellinger lived in South Africa and learned from shamans how to relate to ancestors and to the web of relationships that unites us beyond space-time, as taught by the quantum paradigm.  In his method, he developed the original insight of Virginia Satir, who organized healing groups in which strangers interpreted characters from the tragedy experienced by a member of the group and felt as if they were the people represented, even mimicking their gestures or using the same vocabulary.

In family constellation healing sessions, people reach the "universal soul" or the "akashic registers", where everything is "written", thus allowing a person to feel what the other feels when connecting with him/her. The people represented will also experience the effects of the healing session, as if they were quantum related with the person interpreting. When the conflict is properly represented, they may feel different even without being aware of the group’s work, sensing, for example, that they have been listened to, understood and forgiven. This method is widely used in Brazil and in the world, with great psychotherapeutic success, including as a cure for ancestral conflicts manifesting themselves in people's lives today.

But what do the subtle relationships among humans have to do with the Brazilian elections? Brazilian history is rife with painful memories of oppression for millions of our indigenous ancestors, slaves, quilombolas, but also women, poor people, gays and many others. Brazil is plagued with outrageous inequality, racism and prejudice and has experienced two dictatorships whose crimes - torture, deaths and disappearances – have not been properly identified and punished. Added to this are all the ills suffered today by young blacks from the suburbs, prisoners, and humiliated people from all walks of life. This suppressed pain and anger has not been overcome, creating a "field" that is still in need of healing and redemption. All this is stuck in Brazil’s throat. It is obvious that this past pervades our culture as well as our "souls" and these pains keep smouldering in us unconsciously, leading to behaviours of either compassion or hatred. Unless we do our healing and forgiveness work, these energies will always be latent, ready to make a "quantum leap" when triggered by violent external situations.

I believe that what happened in Brazil, in addition to all that was described in fairly accurate, realistic and pertinent analyses, was completed by a powerful movement in the subtle field. For reasons linked to what many call the change of era we are currently going through - such as the beginning of the age of Aquarius, the end of the Kali-Yuga, the end of the world in the Maya calendar, the collective activation of the heart chakra –, there is a great movement of light and shadow in the subtle field. Some people are more connected with the field of light, others with the field of shadow, and this has to do with the alignment of their body, mind and heart and subsequent self-worth. This occurs when we are more in line with what the "greater purpose" wants for us: the joy of exercising our talents for the sake of our love for one another, for ourselves, and for the progress of all.

Let us move on to the dark energy movement. This heritage in the Brazilian morphogenetic field was activated in the elections by the intense manipulation by social networks of hatred among the most easily influenced. These people were identified through their posts on social networks by artificial intelligence algorithms. As they were numbed by the subtle negative field their hatred could be countered neither by our rational arguments nor by objective data. The #elenão street demonstrations - the wonderful women’s movement, rooted in yin, which represents luminous healing, balancing

the yin and yang cosmic energies - also gave rise to fear, activating the decompensated male’s (yang’s) field of domination, which still rules the world. In the face of fear, the desire to control the libertarian choice of others and the desire for protection by a "saviour of the fatherland" paved the way for the far right. In other words, the reptilian and limbic brain drives hate while the rationality of the neocortex fails; thus arguments only hit home in discussions with people more connected with themselves, with their hearts, who responded positively when moving away from hatred, which is the most visible face of dark energies.

The "dark" movement occurred in the subtle field of the most fragile people, but such phenomena can also be positive, which happened in Brazil too. Fuelled by acts of generosity, feelings and thoughts of love in Brazil’s ancestral history and by the spiritual alignment of many Brazilians today, the new era movement based on horizontality and togetherness has been activated. Respectful conversations with family members, meditations and prayers for Haddad's victory, mutual recognition of shared humanist and ecological values as well as forgiveness sessions created a vertiginous movement of positive energies in the streets of Brazil to prevent regression. Millions of us spoke up, triggering the turn-of-the-vote phenomenon. Even though we had no material direction there probably was a loving direction in the subtle field, with a distinct sense of each person’s responsibility for the destiny of all - the quantum web of life.  There was not enough time but the possibility for a renewal of politics by these new citizen movements remains in our hands. Knowing how to activate them will be fundamental to get over these difficult times more speedily.

Another element needs to be added to future explorations - another perception in the subtle field that operates across the world and that is related to Gustav Jung's idea of the collective unconscious. It is a kind of subtle knowledge, independent of local culture, that moves like air, without borders, helping to interpret the world from what Jung calls "archetypes". Among these archetypes is the idea that the sky is high up and bright and that hell is below and dark or that life came from mud (or clay, in the Christian acceptation), common to most cultures. It is likely that a new archetype is arising right now, related to the environmental, financial and political collapse of our civilization because of today’s worsening systemic crisis. Though people are increasingly informed they deny the possibility of systemic collapse, refusing to talk about it and pretending that nothing is happening. But the collective unconscious is informed and susceptible to primordial fear and a desire for survival. Fear always leads to the desire for protection and domination. This reinforces everything that has been said about Brazil and also has a planetary dimension.

The way out of the manipulation of minds and of subtle energies by the far right forces that manipulate fear and hatred is already emerging in Brazil. Committed citizens across the world are alert, knowing that every country is threatened by the same weapons that were used in Trump’s United States and in Brexit UK. A lot of us realize that our insufficient electoral turnout shows the way forward. We strengthened democracy with our awareness of the impending danger, our joyful togetherness on the streets and the sense of individual responsibility for the fate of all which took over Brazil.

Something new happened too : never in a Brazilian election was there so much activity in the subtle field; never have there been so many individual and collective meditations, so many emanations of light towards our people and our land from all over the world; never have there been so many active visualizations of the reality to be co-created in the subtle field so that it will manifest itself in the material field - such as the image of the candidate wearing the presidential sash or his inauguration.  Fernando Haddad was a worthy representative of positive energies, which always manifest themselves in a friendly, peaceful and joyous way. He and us were moved by the courage to be responsible for our destiny, by the conviction that only love can overcome hatred; we did all that was in our power both in the material world and in the subtle world. The growing recognition of the existence of this other side of reality will boost our humanist, ecological and libertarian forces, leading to a complementary form of political action.

Translation reviewed and edited by Simone Kunegel

 

 



Le champ subtil et l'action politique: ouvrir de nouveaux horizons au Brésil et dans le monde

November 5, 2018 3:53, by Débora Nunes - 0no comments yet

Hare om tat sat

Face aux résultats des élections brésiliennes, des analyses approfondies, pertinentes et importantes ont été faites et seront importantes pour notre histoire politique et pour notre avenir. Mais la question "pourquoi la rationalité a-t-elle quitté le terrain et ne nous a-t-elle pas défendus du pire?" continue à marteler sans une réponse claire. Analyser l’influence du champ subtil peut aider à voir comment nous sommes arrivés à ce point au Brésil et ce qui nous attend, puisqu’une grande partie de ce qui s’est passé ne se situe pas dans le champ de la rationalité en vigueur. Le paradigme quantique-holistique-systémique-écologique amène la reconnaissance de la dimension immatérielle du monde en tant que nouveau champ de connaissances. Quand la dimension matérielle a été disséquée avec compétence par le paradigme cartésien et par le matérialisme historique et dialectique, qui en fait partie, et pourtant il reste tant de questions, il est temps d'aller plus loin.

La rationalité actuelle repose sur la capacité à comprendre la logique des événements avec des nombres, des comparaisons, des relations hiérarchiques entre des concepts et entre des données, ainsi que sur la notion de nécessaire "preuve matérielle". Cette rationalité n´est pas suffisante en ce moment pour comprendre la réalité car celle-ci est aussi composée de phénomènes subtils dont la compréhension nécessite un autre ordre de raisonement. Une façon d'interpréter ces phénomènes est apportée par la notion de "champs morphogénétiques" proposée par Rupert Sheldrake, un biologiste anglais, qui les conçoit comme un champ universel formé d'actions, de pensées et de sentiments au long de l'histoire individuelle et collective. Pour comprendre ce domaine, il est nécessaire de rappeler le phénomène de "l'intrication quantique" dans lequel électrons, photons et même des molécules restent interconnectés indépendamment de l'espace-temps et se comportent de manière conectée. Une autre notion importante du nouveau paradigme est la compréhension du phénomène du "saut quantique", c'est-à-dire lorsqu'un changement d'état discontinu et inattendu se produit lorsque les conditions sont données. Celle-ci et d'autres notions de la vision du monde quantique holistique aideront à rendre nos observations, déductions et généralisations à propos de la réalité plus complètes et donc plus compétentes.

Le modèle explicatif des "constellations familiales" sera utilisé pour comprendre ce qui s'est passé au Brésil lors de ces élections et, même s'il existe de nombreuses autres possibilités pour aborder ce domaine subtil, celui-ce semble particulièrement utile pour inspirer l'action nécessaire dans le domaine du champ energetique. Cette action, au contenu nouveau, sera présentée ultérieurement et complète l'action politique humaniste, écologique et émancipatrice déjà bien connue, cet "activisme" que l'extrême droite a promis d´éteindre au Brésil, et qu´elle n´arrivera jamais à le faire. L'activisme se traduit par de nombreuses formes d'éducation populaire stimulant la pensée critique, l'organisation citoyenne au sein de mouvements, syndicats, ONG et partis politiques, l'articulation entre différents groupes au sein d'un vaste réseau progressiste, les actions concrètes de la société civile en matière de justice sociale, écologie et le riche univers de l’économie solidaire, des écovillages, etc. Les actions dans le niveau parlementaire, les manifestations de rue et celles menées dans les réseaux sociaux, etc. constituent autre type d'activisme. La combinaison de ces actions avec celles qui atteignent la dimension subtile sera essentielle pour sortir le Brésil de la situation dans laquelle il se trouve.

Bert Hellinger, le créateur de la méthode des constellations familiales, affirme que le comportement humain est lié à l'existence de quelque chose qui ressemblerait à une "âme universelle" ou à un champ morphogénétique, qui se nourrit de nos histoires et s'active lorsque suffisamment répété pour se "fixer". Il propose que nos émotions et nos conflits soient liés à des fidélités ancestrales et que de vieilles émotions négatives non guéries puissent être à nouveau vécues par des membres d'une famille, d'un groupe ou d'une nation. Hellinger a vécu en Afrique du Sud et a appris avec de chamanes la façon de traiter avec les ancêtres et avec le réseau de relations qui nous unit au-delà de l'espace-temps, comme l'enseigne le paradigme quantique. Dans sa méthode, il a développé la vision originale de Virginia Satir, qui a organisé des groupes de guérison où des inconnus interprétaient des personnages du drame vécu par quelqu'un et ressentaient  comme s´ils étaient réelement les gens interprétés, imitant même des gestes ou répétant des mots courants dans leur vocabulaire.

Dans les sessions de constelations familiales, les membres du groupe de guérison accèdent à "l'âme universelle" ou au "archive akashique", où tout est "écrit" et permettrait ainsi à une personne de ressentir ce que l'autre ressent lors qu´elle se connecte avec elle. À leur tour, les personnes interprétées, comme si elles étaient quantiquement reliées à l’interprète, ressentaient les effets de la séance de guérison. Elles peuvent passer à ce sentir différemment, même sans connaître le travail du groupe, en percevant soi mêmes, par exemple, comme ayant été écouteés, comprises et pardonnées, etc., lorsque le conflit ait été correctement interprété. Cette méthode est largement utilisée au Brésil et dans le monde, avec un grand succès psychothérapeutique et permet de guérir des conflits ancestraux qui se manifestent aujourd'hui dans la vie des gens.

Mais qu'est-ce que les relations subtiles entre humains ont à voir avec les élections brésiliennes? L’histoire du Brésil est imprégnée de souvenirs douloureux d’oppression envers des millions de nos ancêtres indiens, esclaves, quilombolas, mais aussi envers les femmes, les pauvres, les gays, etc. À l'inégalité abominable de notre société, au racisme et aux préjugés s´ajoutent les crimes des deux dictatures que nous avons connues, les tortures, les morts et les disparitions qui n´ont pas été suffisamment éclaircies, ni punies. A tout cela, s´ajoute les souffrances d’aujourd’hui, de jeunes noirs de la périphérie, des prisonniers, des humiliés de toute sorte. Cette immense souffrance et colère réprimées, qui non pas été exprimées pour être ensuite surmontées, a créé un "champ" qui, jusqu'à présent, n´a pas pu se manifester sous forme de guérison et de rédemption. Tout cela est coincé dans la gorge du Brésil. Il est évident que notre culture est imprégnée de ce passé, mais nos "âmes" le sont également, et ces douleurs nous envahissent inconsciemment conduisant à des comportements de compassion ou de haine. Sans l'aide d'un travail de guérison, de pardon, ces énergies seront toujours latentes, prêtes à faire un "saut quantique" lorsqu'elles sont activées par des situations exterieures détonantes.

Ainsi, ce que je crois qui s'est passé au Brésil, en plus de tout ce qui a été dit objectivement dans des analyses assez précises, réalistes et pertinentes, a été complété par un mouvement intense dans le domaine subtil. Pour des raisons qui ont à voir avec ce que beaucoup appellent le changement d'époque dans lequel nous vivons aujourd'hui (début de l'ère du Verseau, fin du Kali-Yuga, fin du monde du calendrier maya, activation collective du chakra du cœur, etc.) il existe un grand mouvement de lumière et d'ombre dans le champ subtil. Certaines personnes ont davantage accès au champ de lumière, d'autres au champ d'ombre, cela étant relié à l'alignement personnel du corps, de l'esprit et du cœur et au sentiment d'appréciation de soi qui en découle. Cette appréciation vient lorsque nous sommes plus en phase avec ce que le "but plus grand" veut pour nous: la joie d'exercer nos talents pour l'amour de l'autre, pour nous-mêmes et pour l'évolution de tous/toutes.

Passons au mouvement des énergies négatives: tout cet héritage du champ morphogénétique brésilien a été activé lors de ces élections par la manipulation intense de la haine par les réseaux sociaux chez les personnes les plus vulnérables. Comme vous le savez, ces personnes ont été facilement identifiées, grâce à leurs publications sur les réseaux sociaux, par des algorithmes de l´Intelligence Artificielle. La réaction de haine de ces personnes ne pouvait pas être combattue par nos arguments rationnels, par les données et les mots cohérents que nous avons dits, car les gens étaient émoussés par le champ négatif subtil. D'autre part, le merveilleux mouvement féminin - Yin - qui représente une action de guérison lumineuse, d'équilibre des énergies cosmiques Yin et Yang, a également fait peur et a activé le champ de domination du mâle décompensé qui domine encore le monde. Face à la peur, le désir de domination sur les choix libertaires de l’Autre, associé au désir de protection et la consequente recherche d’un «sauveur de la patrie», a ouvert la voie à l’extrême droite. En d’autres termes, le cerveau reptilien et limbique active la haine et la rationalité du néocortex ne fonctionne pas. C’est pourquoi nos arguments ont été porteurs  seulement dans les échanges avec des personnes plus connectées avec eux-mêmes, avec leur cœur, et elles ont répondu en s´eloignant de la haine qui est la face la plus visible des énergies négatives.

Le mouvement "obscur" s'est produit dans le champ subtil des personnes les plus fragiles, mais ces phénomènes se produisent également de manière positive et cela s'est également produit au Brésil. Stimulé par des actions généreuses, des sentiments et des pensées aimantes dans notre histoire ancestrale et par l'alignement spirituel de chacun.e de nous, le mouvement de la nouvelle ère basé sur l'horizontalité et l'amour du collectif a été activé. Dans nos conversations respectueuses avec les membres de la famille, dans les méditations et les prières pour la victoire de Haddad, dans les pratiques de pardon de type Hoponopono, dans la reconnaissance mutuelle des valeurs humanistes et écologiques partagées, un mouvement vertigineux d’énergies positives a envahit les rues du Brésil pour éviter le pire. Sans qu'il y ait une direction matérielle objective (mais avec une direction affectueuse dans le domaine subtil, probablement) et en contact avec le sens des responsabilités de chacun.a avec le destin de touos - la toile de la vie quantique - nous sommes allés sur le terrain pour des millions et le phénomène "Vire-voto" s'est produit. Nous n'avons pas eu le temp souffisant, mais les possibilités de renouvellement de la politique par ces nouveaux collectifs citoyens restent entre nos mains. Il sera fondamental de savoir comment les utiliser pour surmonter le plus rapidement possibles les moments difficiles qui sont déjà presents.

Il est important d'ajouter un autre élément pour des explorations futures, un autre donné dans le domaine subtil qui opère dans le monde entier et qui concerne l'idée d´inconscient collectif de Gustav Jung. C'est une sorte de connaissance subtile, indépendante de la culture locale, qui arrive comme l´air, sans frontières, et qui aide à interpréter le monde à partir de ce que Jung a appelé d´ "archétypes". Parmi ces archétypes figurent, communs à la plupart des cultures, l´idée que le ciel est en haut et est lumineux et que l'enfer est au-dessous et sombre,  et que la vie est issue de la boue (ou de l'argile, au sens chrétien). Il est probable qu'un nouvel archétype est en cours de construction à ce moment, lié à l'effondrement de la civilisation actuelle sur les plans environnemental, financier et politique, ainsi que dans la crise systémique qui sévit aujourd'hui et que s'aggrave. Les gens sont de plus en plus informés mais nient la possibilité d'un effondrement systémique, n'en parlent pas et prétendent qu'il ne se passe rien. Mais l'inconscient collectif s'informe et s'ouvre à une peur primordiale et à un désir de survie. La peur suscite toujours le désir de protection et de domination. Ainsi, tout ce qui a été dit sur le Brésil est renforcé et se revêt d´une dimension planétaire.

Le moyen de sortir de la manipulation des esprits et des énergies subtiles par les forces d'extrême droite qui manipulent la peur et la haine s´est déjà manifesté au Brésil. La citoyenneté engagée de la planète entière est consciente, sachant que chaque pays est menacé par les mêmes armes que celles utilisées au Brésil, aux États-Unis de Trump, dans le Brexit d'Angleterre et ailleurs. Beaucoup se rendent compte que l´action incomplète qui a été menée au Brésil pour le virage des élections est une voie à suivre. Nous avons renforcé les forces démocratiques quand on a compris clairement le danger imminent, quand on a accomplit  une union joyeuse de nos efforts pour la démocratie dans les rues et quand la comprenhension de la responsabilité de chacun.e face au destin de tous s´est mise en route partout au Brésil. Notre effort de dialogue pour changer des votes ("vira-voto"), plein de comprehension et d'amour a été un exemple pour le monde car il a reussit a  changer des millions de votes, malgré le temps qui nous a manqué.

En outre, quelque chose de nouveau s’est produit: jamais, lors d’une élection brésilienne, il n’y a eu autant d’action dans le domaine subtil. Nous n'avons jamais vu autant de méditations individuelles et collectives, autant d'émanations de lumière vers notre peuple et notre territoire faites par des gens du monde entier. Nous n'avons jamais vu d'aussi nombreuses visualisations actives pour co-crééer la réalité dans le champ subtil pour qu´elle puisse se manifester dans le champ matériel, telles que l'image du candidat avec la bannière présidentielle ou de la fête de sa possession à Brasília. Haddad était un digne représentant des énergies positives qui se manifestent toujours de manière cordiale, sereine et joyeuse. Mobilisés lui et nous mêmmes par le courage d'être responsables de notre destin et par la conviction que seul l'amour peut vaincre la haine, nous avons fait tout ce qui était possible dans le monde matériel et dans le monde subtil. La reconnaissance croissante de l'existence de cet aspect de la réalité redoublera nos forces humanistes, écologiques et libertaires vers une forme de politique complémentaire. Hare Om Tat Sat. Le manifeste et le non-manifesté font partie de la réalité. Namaste.



O campo sutil e a ação política: abrindo novos horizontes no Brasil e no mundo

November 4, 2018 7:20, by Débora Nunes - 0no comments yet

Hare om tat sat

Diante do resultado das eleições do Brasil tem-se feito análises profundas, pertinentes e importantes pra nossa história política e para nosso futuro. Mas a pergunta  “por que a racionalidade saiu de campo e não nos defendeu do pior?” continua martelando sem uma resposta clara.  Analisar a influência do campo sutil pode ajudar a ver como chegamos até aqui no Brasil e sobre o que nos aguarda, pois muito do que aconteceu não está no campo da racionalidade vigente.  O paradigma quântico-holístico-sistêmico-ecológico traz o reconhecimento da dimensão imaterial do mundo como novo campo de conhecimento. Quando a dimensão material foi dissecada com competência pelo paradigma cartesiano e pelo materialismo histórico e dialético, que é parte dele, e mesmo assim restam tantas perguntas, é hora de ir além.

A racionalidade atual é baseada na capacidade de compreender a lógica dos eventos com números, comparações, relações hierárquicas entre conceitos e entre dados e com a noção da necessária “prova material”. Ela não está sendo suficiente para compreender a realidade porque essa é composta também pelos fenômenos sutis, cuja compreensão necessita de outra ordem de racionalidade. Uma forma de interpretação desses fenômenos é trazida pela noção "campos morfogenéticos", propostos por Rupert Sheldrake, um biólogo inglês, que os concebe como um campo universal formado por ações, pensamentos e sentimentos ao longo da História individual e coletiva. Para entender esse campo é necessário trazer à mente o fenômeno do “entrelaçamento quântico” no qual elétrons, fótons e mesmo moléculas mantêm-se interligados independente do espaço – tempo e comportam-se de maneira relacionada. Outra noção importante do novo paradigma  é a compreensão sobre o fenômeno do “salto quântico”, ou seja, quando acontece uma mudança de estado descontínua e inesperada, quando as condições são dadas. Essas e outras noções da visão de mundo quântico-holística ajudará a que nossas observações, deduções e generalizações sobre a realidade sejam mais completas e assim, mais competentes

O modelo explicativo das “constelações familiares” será usado para compreender o que aconteceu no Brasil nessas eleições e embora existam muitas outras possibilidades de abordagem do campo sutil, essa parece particularmente fecunda para inspirar a necessária ação no campo energético. Essa ação, de conteúdo novo, será apresentada mais adiante e complementa a ação política humanista, ecológica e emancipadora que já se conhece bem, o tal “ativismo” que a extrema direita quer extinguir e não conseguirá nunca. O ativismo se traduz em educação popular de muitos tipos que estimulam o pensamento crítico, em organização cidadã em movimentos, sindicatos, ONGs e partidos, em articulação entre diferentes grupos em uma grande rede progressista, em ações concretas da sociedade civil no campo da justiça social, da ecologia e no rico universo da economia solidária, das ecovilas etc. Ações no ambiente parlamentar, as manisfestações de rua e aquelas feitas nas redes sociais etc são outro tipo de ativismo. A combinação dessas ações com aquelas que atingem a dimensão sutil será vital para tirar o Brasil da situação em que se encontra.

Bert Hellinger, o criador do método das constelações familiares,  defende que o comportamento humano está relacionado com a existência de algo que seria como uma “alma universal”, ou um campo morfogenético, que se alimenta de nossas histórias e que se ativa quando suficientemente repetido para se “fixar”. Ele propõe que nossas emoções e nossos conflitos tem relação com lealdades ancestrais e também que emoções negativas antigas, não curadas, podem ser novamente vividas por pessoas em uma família, em um grupo, em uma nação.  Hellinger viveu na África do Sul e aprendeu muito com xamãs sobre como lidar com os ancestrais e com a teia de relações que nos une para além do espaço-tempo, como nos ensina o paradigma quântico. Em seu método, ele desenvolveu o insight original da Virginia Satir, que organizava grupos de cura onde pessoas estranhas interpretavam personagens do drama vivido por alguém e elas se sentiam como as pessoas interpretadas, imitando até gestos ou repetindo palavras comuns do seu vocabulário.

Nas sessões de constelações familiares, as pessoas do grupo de cura acessam a “alma universal” ou o “arquivo ackáshico”, em que tudo está “escrito” e que, portanto, permitiria que uma pessoa pudesse sentir o que a outra sente ao conectar-se com ela. Por sua vez, as pessoas interpretadas, como se estivessem quanticamente entrelaçadas com quem as interpreta, sentem os efeitos da sessão de cura. Elas podem a passar a sentir-se de outra forma, mesmo sem saberem do trabalho do grupo, percebendo-se, por exemplo, como tendo sido escutadas, compreendidas e  perdoadas, etc, quando o conflito é adequadamente interpretado. Esse método é amplamente utilizado no Brasil e no mundo, com grande sucesso psicoterapêutico e serve para cura, inclusive, de conflitos ancestrais que se manifestam na vida das pessoas hoje.

Mas o que as relações sutis entre os humanos têm a ver com as eleições no Brasil? A história brasileira é permeada de memórias dolorosas de opressão à milhões de nossos ancestrais índios, escravos, quilombolas, mas também às mulheres, aos pobres, aos gays, etc. À iníqua desigualdade de nossa sociedade, ao racismo e ao preconceito, juntam-se os crimes das duas ditaduras que já vivemos, às torturas, mortes e desaparecimentos não adequadamente esclarecidos e punidos. Tudo isso junto com as dores de hoje, de jovens pretos das periferias, de prisioneiros, de humilhados em todos os horizontes. Esse imenso sofrimento e raiva reprimidos, ao não serem expressos para poder serem superados,  criaram um “campo” que até hoje não pôde se manifestar num sentido de cura e redenção. Tudo isto está entalado na garganta do Brasil. É visível que nossa cultura está impregnada desse passado, mas nossas “almas” também estão, e essas dores fervilham em nós inconscientemente, conduzindo a comportamentos de compaixão ou de ódio. Sem ajuda de um trabalho de cura, de perdão, essas energias estarão sempre latentes, prontas a fazer um “salto quântico” quando ativadas por situações externas detonantes.

Então, o que acredito que aconteceu no Brasil, além de tudo que já foi objetivamente dito em análises bastante apuradas, realistas e pertinentes, foi completado por um intenso movimento no campo sutil. Por razões que tem a ver com o que muitos chamam de mudança de era que vivemos atualmente (início da era de Aquarius, fim da Kali-yuga, fim do mundo do calendário maya, ativação coletiva do chacra do coração, etc.), temos um grande movimento de luz e sombra no campo sutil. Algumas pessoas acessam mais o campo de luz, outras mais o campo de sombra, e isso está vinculado ao alinhamento pessoal do corpo, mente e coração e consequente sentimento de apreciação por si mesmo.a. Essa apreciação acontece quando estamos mais alinhados com o que o “propósito maior” quer para nós: a alegria de exercemos nossos talentos em prol da amorosidade uns com os outros, de nós mesmos e da evolução de todo.a.s.

Vamos ao movimento das energias negativas: toda essa herança no campo morfogenético brasileiro foi ativada nessas eleições pela intensa manipulação do ódio pelas redes sociais nas pessoas mais suscetíveis. Como se sabe, essas pessoas foram identificadas facilmente,  através de suas postagens nas redes sociais, pelos algoritmos da Inteligencia Artificial.  A reação de ódio destas pessoas não podia ser combatida pelos nossos argumentos racionais, pelos dados e palavras coerentes que dizíamos, pois as pessoas estavam embotadas pelo campo sutil negativo. Por outro lado, o maravilhoso movimento feminino - Yin - que representa uma ação luminosa de cura, de equilíbrio das energias cósmicas Yin e Yang, também “assustou” e ativou o campo da dominação do Yang descompensado – masculino – que ainda domina o mundo. Diante do medo, o desejo de domínio sobre a escolha libertária do.a.s outro.a.s, junto com o desejo de proteção na busca de um “salvador da pátria”, abriu as portas para a extrema direita. Em outros termos, o cérebro reptiliano e límbico aciona o ódio e a racionalidade do neocórtex não funciona, e por isso os argumentos só adiantaram nas trocas com pessoas mais conectadas consigo mesmas, com seus corações, que responderam afirmativamente ao se afastar do ódio, que é a face mais visível das energias negativas.

O movimento “obscuro” se dava no campo sutil das pessoas mais fragilizadas, mas esses fenômenos também acontecem positivamente e isso também se deu no Brasil. Estimulados por ações generosas, por sentimentos e pensamentos amorosos na nossa história ancestral e pelo alinhamento espiritual de cada um.a de nós, o movimento da nova era que se baseia na horizontalidade e amorosidade dos coletivos se ativou. Em nossas conversas respeitosas com familiares, nas meditações e orações pela vitória de Haddad, nas práticas de perdão Hoponopono, no reconhecimento mútuo de volores humanistas e ecológicos partilhados, um movimento vertiginoso de energias positivas encheu as ruas para evitar o retrocesso. Sem que houvesse uma direção material objetiva (mas com direção amorosa no campo sutil, provavelmente) e em contato com o sentimento de responsabilidade de cada um.a com o destino de todo.a.s – a teia da vida quântica - nós fomos a campo aos milhões e o fenômeno vira-voto aconteceu. Não deu tempo, mas as possibilidades de renovação da política por esses novos coletivos cidadãos continuam em nossas mãos. Saber usá-las será fundamental pra que os tempos difícieis que já estão aí sejam superados mais rapidamente.

É importante acrescentar outro elemento pra explorações futuras, outro dado no campo sutil que está agindo no mundo todo e que se relaciona com a ideia mais conhecida de inconsciente coletivo, de Gustav Jung. Trata-se de um tipo de conhecimento sutil que independe da cultura local, que chega como o ar, sem fronteiras, e ajuda a interpretar o mundo a partir do que Jung chamou de “arquétipos”. Entre esses arquétipos estão as ideias de que o céu está no alto e é luminoso e que o inferno está abaixo e é treva ou que a vida veio da lama (ou do barro, na acepção cristã), comuns na maioria das culturas.  É provável que um novo arquétipo esteja se construindo nesse momento, relacionado ao colapso da civilização atual em termos ambientais, financeiros, políticos, na crise sistêmica que se vive hoje e que está se agravando. As pessoas estão cada vez mais informadas, mas negam a possibilidade de colapso sistêmico, não falam sobre o assunto e fazem de conta que nada está acontecendo. Mas o inconsciente coletivo está informado e se abre para um medo primordial e um desejo de sobrevivência. O medo sempre leva ao desejo de proteção e domínio e assim, tudo o que se falou antes sobre o Brasil se reforça e tem dimensão planetária.

A saída para a manipulação das mentes e das energias sutis pelas forças da extrema direita que manipulam o medo e o ódio já se esboçou no Brasil. A cidadania engajada do planeta inteiro está atenta, sabendo que cada país está ameaçado pelas mesmas armas que foram usadas nos Estados Unidos de Trump, no Brexit da Inglaterra e em outras partes. Muitos percebem que nossa virada eleitoral incompleta mostra o caminho a seguir. Reforçamos as forças democráticas com nossa clareza acerca do perigo iminente para a democracia, com nossa alegre união nas ruas e com o sentimento de reponsabilidade individual com o destino de todos que tomou conta do Brasil. Nosso esforço vira-voto de diálogo e amorosidade foi um exemplo pro mundo.

Além disso tudo, algo novo aconteceu: nunca numa eleição brasileira houve tanta ação no campo sutil. Nunca se viu tantas meditações individuais e coletivas, tantas emanações de luz em direção ao nosso povo e ao nosso território feitas por gente do mundo inteiro. Nunca se viu tantas visualizações ativas da realidade a ser co-criada no campo sutil para se manifestar no campo material, como a imagem do candidato com a faixa presidencial ou da festa de sua posse. Haddad foi um digno representante de energias positivas que sempre se manifestam de forma cordial, serena e alegre. Movidos ele e nós pela coragem de sermos responsáveis pelo nosso destino, pela convicção de que só o amor pode vencer o ódio, fizemos o que foi possível no mundo material e no mundo sutil. O reconhecimento crescente da existencia desse aspecto da realidade redobrará nossas forças humanistas, ecológicas e libertárias rumo a uma forma complementar de fazer política. Hare Om Tat Sat.  O manifesto e o não manifesto fazem parte da realidade. Namastê.



Política, meio ambiente e eleições

October 11, 2018 9:47, by Débora Nunes - 0no comments yet

Destruição ambiental emerson

Texto de Emerson Andrade Sales

 

Esta semana, em pleno turbilhão do processo eleitoral brasileiro, foi divulgado o sumário do AR6, mais recente relatório do IPCC, grupo de 721 cientistas de 90 países encarregado pelas Nações Unidas para estudar o impacto das mudanças climáticas no planeta. O relatório, após a análise de mais de seis mil estudos científicos, afirma que temos apenas 12 anos para evitar uma grande catástrofe climática. O Acordo de Paris, assinado por 197 países em 2015, dos quais 18 ainda não ratificaram, propõe ações para evitar um aquecimento global de 2oC até 2050 em relação ao início da era industrial, mas este novo relatório mostra que mesmo um aquecimento de 1,5oC até 2040, o que é bastante provável, trará consequências catastróficas, como escassez de comida e grandes incêndios.

Os países signatários deste acordo não estão cumprindo suas metas, pois em vez de redução, observou-se em 2017 um aumento de 1,6% nas emissões totais de CO2 relacionadas ao uso dos combustíveis fósseis - petróleo, carvão mineral e gás natural. Isto é sobretudo devido a um aumento na demanda por petróleo de 1,5% ao ano em média. Os Estados Unidos, a maior economia do planeta e segundo maior emissor de gases de efeito estufa, tem um presidente de direita que zomba dos estudos científicos, abandonou o Acordo de Paris, e estimula a queima intensiva de carvão para gerar energia elétrica. O Brasil, sétimo maior emissor de gases causadores do efeito estufa, corre o risco de eleger um presidente de extrema direita, que disse também ter a intenção de abandonar o Acordo, dentre outros planos absurdos, como o de extinguir o Ministério do Meio Ambiente, e incluir este tema no Ministério da Agricultura. Vale lembrar que agricultura para ele, e sua base de apoio eleita maciçamente neste 1º turno, significa o agronegócio extensivo, principal causador da devastação dos ecossistemas no mundo inteiro, com imensos impactos na biodiversidade, no solo, subsolo, uso da água, e emissão de gases de efeito estufa, sobretudo o óxido nitroso, não comentado pela mídia.  Esses temas precisam ser considerados pelos eleitores brasileiros neste momento decisivo para a democracia no país, e com repercussões muito além das nossas fronteiras convencionais.

Para evitar um aquecimento global de 1,5oC, a emissão total de gases de efeito estufa precisa cair 45% até 2030, em relação à 2010, e 100% até 2050, e o uso do carvão mineral para gerar eletricidade precisaria cair de cerca de 40% do total gerado atualmente para no máximo 7%, segundo o mesmo relatório. Energias renováveis, como a solar e a eólica, teriam que passar do nível atual, cerca de 20% da eletricidade consumida, para 67%. Tudo isso é tecnicamente possível, mas depende de ação política e cidadã, no prazo imediato. Não há mais tempo algum a perder. Somos nós os únicos responsáveis pelo nosso destino. Não existem, nem nunca existirão, soluções mágicas.

Entender a gravidade do contexto, e agir em todos os níveis, do local, comunitário, até o mais amplo possível, é crucial neste momento, assim como combater sem trégua a irracionalidade da maioria dos governantes, que beira a loucura, pois sabe-se muito bem que esta exploração desenfreada dos recursos naturais tem seus limites, os limites biofísicos do planeta, que dão suporte à vida. Todas as espécies conhecidas tem de forma inata o instinto de autopreservação; até agora, os humanos estão contrariando este princípio da vida, talvez por ignorância, ingenuidade, porém agora chega-se ao ponto crítico, não há como negar; somos individualmente e coletivamente os responsáveis pelo nosso próprio destino.

Uma decisão eleitoral tem reflexos muito mais amplos do que se imagina; vê-se por exemplo o caso norte americano, que está trazendo consequências para toda a humanidade. Com a ascensão de Donald Trump, os programas de substituição de fósseis perderam a prioridade. Com o esgotamento do estoque mundial de petróleo, sua carência está sendo suprida por hidrocarbonetos recuperados de areias betuminosas e pelo  óleo de xisto, que são ainda mais destrutivos ambientalmente. Entretanto Trump vem tendo crescente apoio por ter aumentado a autonomia dos EUA, diminuindo drasticamente sua dependência do Oriente Médio.

O “sucesso” da política do presidente Trump nesta área faz-se em detrimento dessas e das próximas gerações, pois tratam-se de fontes de energia insustentáveis a longo termo, que usam tecnologias com impactos imensos no curto e médio termo. Os hidrocarbonetos são extraídos por mineração extensiva, no caso das areias  betuminosas, o que está destruindo o Estado de Alberta no Canadá, principal produtor, e por fratura de rochas no subsolo, através da injeção de líquido a alta pressão, no caso do óleo de xisto,  causando contaminações, abalos sísmicos, dentre outros impactos.  Isso levou a imensos protestos e à proibição dessas práticas em alguns estados norte-americanos mais avançados em relação à sustentabilidade. O governo Trump já está realizando a prospecção destas fontes em outros locais do planeta, numa atitude similar à lógica bélica do petróleo que causou tantas guerras, degradação, destruição de comunidades e países, que até hoje não conseguem se reestruturar, como o Iraque e Afeganistão.

Amparada pelas decisões do presidente, infelizmente cresce, nos EUA, toda a indústria relacionada aos fósseis, e retrocedem todas as políticas voltadas para a eficiência energética, tecnologias limpas, e a taxação das emissões de carbono, que o antecessor presidente Obama pretendia implantar. O carvão, combustível fóssil mais poluente de todos, responde hoje por 30% da geração de eletricidade nos Estados Unidos, e a previsão da Agência de Informações em Energia deste país, é que este cenário ficará estável até o final do século, já que existe estoque para tal. Mesmo raciocínio tem a Associação Mundial de Carvão, que corrobora as projeções da Agência Internacional de Energia e apontam para o uso mundial estável deste combustível no médio prazo, contestando as indicações dos cientistas, de que é preciso deter o uso deste, e dos demais combustíveis fósseis, para que as metas do Acordo de Paris sejam atendidas.

O que eles sugerem é que sejam feitos investimentos em novas tecnologias para captura de carbono, ou megaprojetos de geoengenharia, como por exemplo colocar na atmosfera partículas bloqueadoras da radiação solar, visando conter o aquecimento global. Estas ações não vão nas causas, são paliativos, dando-lhes permissão para poluir... Existem muitos estudos nestas áreas, porém nenhum com viabilidade técnico econômica demonstrada para uso em larga escala, e apontam para riscos de efeitos secundários gravíssimos para a natureza e todos os seres vivos.

O que não se discute são os custos indiretos: a queima de carvão, petróleo e gás natural têm sérios e duradouros impactos negativos na saúde pública, nas comunidades e ecossistemas locais e no clima global. Estes custos são escondidos; nós não pagamos pelo custo do câncer, ou de muitas outras doenças, e pela perda de biocapacidade, que inviabilizará as futuras gerações, quando pagamos nossa conta de eletricidade ou a da gasolina - mas esses custos são reais. Um estudo detalhado realizado por pesquisadores da Universidade de Medicina de Harvard em 2010 estima que apenas para o caso do carvão, estes custos escondidos correspondem a cerca de um terço do gasto com eletricidade de uma família típica dos Estados Unidos.

O que de fato importa não é prioridade dos programas destes governantes: o uso sóbrio e consciente dos recursos naturais, o aumento da eficiência energética, a substituição imediata das fontes fósseis por renováveis, em todos os setores. Quando se discute política energética, estão em jogo a biocapacidade do planeta, a manutenção da vida, a continuidade das espécies, a saúde dos seres vivos, não apenas dos humanos, ou seja, a qualidade da vida que teremos em breve e a do nossos descendentes. É estreito demais pensar apenas em curto prazo, em retorno financeiro de corporações, em produtos internos brutos, em volumes de negócios, temas prioritários para os governos de direita. Nada disto pode superar o verdadeiro valor da vida,  o prazer de viver bem, aqui e agora, em comunhão com os outros e com a natureza. Este é o maior patrimônio que podemos deixar aos que irão continuar nesta jornada, os que virão depois de nós.

O candidato Haddad propõe: uma economia de baixo impacto ambiental e alto valor agregado; promoção do direito à água e ao saneamento básico; desmatamento zero, proteção da socio biodiversidade e o papel da Amazônia na transição ecológica; nova governança para a chamada transição ecológica. De início, em seu programa destaca-se a proposta de uma reforma fiscal verde, que progressivamente aumentará o custo das emissões de gases de efeito estufa e premiará investimentos e inovação de baixo carbono. Por outro lado, o candidato da extrema direita afirmou que, se eleito, retirará o país do citado compromisso internacional, o Acordo de Paris. O plano de governo deste candidato não tem propostas específicas nos temas de clima, redução do desmatamento ilegal ou universalização do saneamento básico.

Um voto numa urna implica em tudo isso, são alguns segundos apenas, mas tem repercussões por anos, décadas, gerações... Nestes poucos dias que virão os brasileiros decidirão se corroboram com esta triste tendência norte-americana, a qual felizmente encontra reação forte local e internacional, ou se, escapando das muitas armadilhas e falácias que lhes foram deliberadamente aplicadas, escreverão uma outra história, coerente com a sua vocação democrática e de sensibilidade às questões ambientais.



A peste emocional tem cura

October 10, 2018 3:24, by Débora Nunes - 0no comments yet

Conversa para salvar o brasil 

Consegui! A extrema indignação e raiva que senti ao assistir aquele vídeo grotesco e ler aquelas palavras de ódio foram sendo vencidas aos poucos com respiração e força interior. A sensação foi de vitória quando consegui responder à pessoa que o enviou com calma e educação, evidenciando a montagem e convidando-a a ver os fatos de maneira isenta. Não tenho a mínima ideia se ela vai ponderar algo sobre o que eu disse, mas tenho a clara ideia de que eu venci o clima que a extrema direita quer espalhar no Brasil. Mantive, com esforço, a minha paz de espírito e de algum modo reverti a situação, não aderindo à escalada de medo e ódio que só favorece o candidato da intolerância.

Para conseguir isso foi bom trazer à mente a máquina subterrânea, movida a muito dinheiro, que está produzindo esses vídeos e nas pessoas que estão sendo pagas para disseminarem essas mentiras. O fato da extrema direita quase ganhar as eleições brasileiras no primeiro turno está intimamente relacionado com a vitória de um homem desqualificado como Trump como presidente dos Estados Unidos. Está  vinculado à vitória do Brexit, quando, perplexos, ingleses e europeus viram a opção pela saída da Inglaterra da União  ganhar o pleito, com todas as consequências negativas para ambos lados. Esses fenômenos têm ao menos uma característica em comum: a manipulação das pessoas pelas redes sociais através de empresas contratadas para manipular emoções, estimulando o ódio.

Acredito firmemente que vamos vencer essas eleições conversando, argumentando, ouvindo e chamando as pessoas à razão e à convivência civilizada. Cada um e cada uma vencendo sua própria aversão e fazendo o que eles não esperam: sair da armadilha deles. Não convenceremos os que visceralmente estão a favor da barbárie, ou que terão vantagens com ela, mas faremos pessoas ao redor deles pensarem no que poderia acontecer se o Brasil se deixasse levar pelas fake news e absurdos do whatsapp e se tornasse um país armado, violento, racista, homofóbico e intolerante com quem pensa diferente. Eu mesma, uma moderada que fala e pratica a paz interior como caminho de transformação pessoal e do mundo, já fui agredida verbalmente nas redes sociais e ameaçada de exílio com uma passagem só de ida para a Venezuela. Imaginem os mais apaixonados... iriam ser torturados e fuzilados?

Sim, voltando à peste emocional e sua cura. William Reich viu o movimento de ódio se disseminando pela Alemanha na época de Hitler como uma espécie de doença contagiosa. Seus estudos sobre o comportamento mostravam como os humanos estão expostos a reações violentas em cadeia quando as condições são dadas. A raiva, a impotência, as dificuldades da vida e as repressões psicológicas, principalmente sexuais, são combustível para a peste emocional e sua disseminação. Como todo contágio, ele é mais provável em quem está mais debilitado. Observem em torno de vocês: as pessoas que mais disseminam o ódio não coincidem com aquelas que se sentem menos reconhecidas? Não são as que que não suportam que outras pessoas, sobretudo as mais pobres, usufruam de direitos como ir à Universidade e viajar de avião? Não são os conservadores empedernidos que querem controlar as escolhas libertárias dos outros?

Porém, se os que disseminam mentiras são milhares, os que “curtem” calados essas mentiras e votam na direita são milhões, como sabemos. Reich dizia que se a “peste” contamina tantos é porque todos e todas temos ódios e repressões que podem nos impedir de ver com clareza a realidade e, por exemplo, votar em um candidato desqualificado e cujo programa é o de favorecer as elites. Os nordestinos foram mais resistentes à onda contagiosa porque os efeitos das políticas sociais foram tão concretos que o senso de realidade foi mais forte. O caminho da cura para a peste emocional passa, num primeiro momento, por nós mesmos.

A pessoa a quem respondi no Facebook está comprometida racionalmente com o projeto da extrema direita ou está acometida dessa doença que incita o ódio pela manipulação da informação? Quando respondemos educadamente a uma montagem em vídeo, foto ou uma mensagem raivosa falada ou escrita estamos mostrando que existe um modo sadio de conviver. Isso bota água fria na fervura e, ao baixar a temperatura, dá tempo e condição para as pessoas que as seguem refletirem e deixarem de seguir os manipuladores. Acredito que se excluímos os que votam na extrema direita de nossos contatos e convívio deixamos campo livre para que a mentira se dissemine sem contestação, para que o ódio pareça ser o normal. Não é fácil a convivência com o intolerável verbal, mais esse intolerável ainda é verbal. Com os que mataram Marielle e Mestre Moa a mão da justiça tem que ser implacável.

Em uma semana não vamos curar as causas profundas da peste emocional, tanto as materiais quanto as repressões milenares, mas podemos reverter muitos votos com civilidade e convencer pessoas que se abstiveram no 1º turno a ir votar no 2º pra evitar o pior. Amenizaria muito o clima de raiva ao PT se o partido pedisse desculpas pelos erros que cometeu, mas ele ainda não o fez por uma visão antiquada – e muito masculina – de que nos fragilizamos quando reconhecemos erros. Que bobagem imensa. Os acertos do PT seriam muito mais valorizados se reconhecessem seus erros. Ok, eles ainda não o fizeram, mas em nossas respostas civilizadas aos ataques e em conversas privadas com familiares e amigos nós podemos fazer, ecoando a opinião de tantos petistas que se envergonharam com muito do que viram, mesmo tendo clareza de toda a manipulação da mídia e perseguição de certos juízes.

A peste emocional será vencida quando sairmos nós mesmos da intensidade emotiva contra pessoas do outro lado, mantendo nossa indignação e luta contra as ideias do outro lado. Venceremos quando conseguirmos fazer com que pessoas que não gostam do PT e de Lula, mas que prezam a democracia, se sintam motivadas a ir votar em Haddad. Venceremos  quando fizermos uma barreira de emoções positivas que impeça a peste de avançar e reduza seu campo de influência. Está nas nossas mãos, e não nas de Haddad ou do PT apenas, vencer a extrema direita. É imprescindível que a campanha desse excelente candidato organize a união da cidadania contra a ditadura, fazendo alianças sólidas e programáticas. Vamos assim corrigir as atrocidades cometidas pelos golpistas no campo legal, social e econômico. Vamos assim aprofundar a conquista de direitos já praticada até aqui e que transformou o Brasil num país respeitado. Respire, converse com sua família e amigos, vá pra rua, pro seu telefone ou seu computador, veja quem será a pessoa que testará sua paciência hoje e responda calmamente. Perdoe-se se não conseguir nas primeiras vezes. A causa é imensa e vale a pena. A peste pode ser vencida.

 



Só o amor pode vencer o medo

October 3, 2018 10:05, by Débora Nunes - 0no comments yet

Medo e liberdade 460x283

Milhões de brasileiros, e sobretudo brasileiras, nos enchemos de alegria e emoção com as manifestações de 29.09.2018. O sentimento de estarmos juntos e sermos fortes contra o obscurantismo propiciava essa emoção prazerosa, essa euforia emancipada que a liberdade nos dá. As imagens inesquecíveis de uma das maiores manifestações feministas da história do mundo falam por si: milhões de pessoas desfilando em paz, cada uma portando em si mesma os traços de suas escolhas. Gente poeta e músico cantando suas rimas pela liberdade; gente preta ostentando sua cores, seus cabelos frizados, suas homenagens aos ancestrais; gente gay e sua bandeira multicolorida rindo e dançando pela euforia de serem quem são e se amarem sendo assim; gente de todo tipo se abraçando ao encontrar um companheiro ou companheira de lutas nesse Brasil que exigiu tanto de duas gerações pra restabelecer a democacia e sair da semi-escravidão. Lindo de ver pra nós que estamos nesse desafio cotidiano de sermos nós mesmos, de pagar o preço de viver como acreditamos ser o certo, de buscarmos profundamente a igualdade e a emancipação. Sobretudo nós, mulheres.

Mas como nos viram aqueles que ainda não declararam sua autonomia, nem sentiram o sabor da liberdade de serem quem são? Olharam pra nós com medo. Viram o perigo de que os valores tradicionais “da família” pudessem ser abalados inclusive em suas casas. Viram nossos sorrisos, beijos e abraços como “libertinagem” confrontando seus próprios desejos escondidos de serem espontâneos. Viram aquela massa de mulheres botando por terra o establishment, o “modo normal de ser”, como algo de desestruturador de suas vidas. Essa vida que buscam manter intocável, mesmo que doa, com medo da incerteza do novo, com medo da liberdade.

A liberdade causa medo porque significa também responsabilidade, significa ter que estar à altura do que virá, sem poder controlar.  A corrida em busca de um “pai severo” que livre os que têm medo da incerteza fez as intenções de voto para o candidato da direita subir. Os argumentos que envolvem o comunismo, a Venezuela, Cuba, os “ladrões do PT” são só uma desculpa, na maior parte das vezes. Muito pouca coisa, racionalmente, poderiam fazer as pessoas terem medo de um governo do PT, cujas escolhas de aliança com as elites foi oposta àquela de Chavez, de confronto total.

Quando uma criança tem medo de um monstro imaginário atrás da porta, o abraço da mãe, ou pai, é muito mais efetivo que a frase “não tem monstro nenhum, filho”. Não adianta argumentar racionalmente com esses que resolveram votar na extrema direita. É muito mais uma necessidade de se sentirem protegidos e amados, sem pagar o preço da responsabilidade pelos próprios atos. Não deixar que essa onda de medo atinja a nós mesmos e espalhar amor e acolhimento é nossa maior defesa agora. Reforçar o “campo mórfico” da compaixão em face do medo dos outros, vibrando empatia pelas fraquezas tão humanas de quem tem medo, é mais poderoso que esbravejar contra o que nos ameaça. Vamos conversar calmamente com quem está confuso, confiar nas vitórias que já tivemos até aqui e manter a paz de espírito para vencer. O que acontecer nos encontrará fortes e dispostxs a defender a liberdade, a igualdade e a fraternidade, valores universais destinados a ganhar, como nos mostra a História.

 



O paradigma quântico e a transformação do mundo

September 23, 2018 2:26, by Débora Nunes - 0no comments yet

Observador quântico 

Débora Nunes

As afirmações da física quântica - que trabalha o infinitamente pequeno e até o infinitamente grande - parecem à primeira vista não fazer muito sentido quando olhamos o mundo na escala humana. Entretanto, essa nova base paradigmática que vai certamente organizar o entendimento humano sobre o mundo no futuro está se tornando cada vez mais compreensível e essa é uma excelente notícia. O pensamento humanista e ecológico que combina a histórica busca por um mundo mais justo e mais democrático com o respeito à sacralidade da Natureza será grandemente beneficiado por esse novo paradigma e tentarei mostrar por quê.

Uma das bases da física quântica é que tudo é, ao mesmo tempo, matéria e energia. Foi dessa descoberta que nasceram todas as mudanças na física que vêm sacudindo a visão de mundo então estabelecida. Até aqui, tanto os historiadores tradicionais, que contaram a história dos vencedores, quanto os historiadores marxistas, que deram espaço aos oprimidos e explicam o mundo pela luta de classes, abordaram a história essencialmente pelo seu aspecto material. Uma história “quântica”, incoporaria a dimensão imaterial, energética, do mundo. Como exemplo, ela abordaria a influência do inconsciente coletivo nos processos históricos ou a tendência cósmica de  equilíbrio Yin – Yang, ou masculino e feminino. Uma história contada pelo ponto de vista das mulheres, ou pelo ponto de vista do inconsciente coletivo, faz inteiramente sentido nessa abordagem. Sendo construída como está sendo, será emancipatória e confortará nossos anseios progressistas. Continuemos.

Outra base importante da física quântica  diz que o olhar do observador define a realidade.  Cientistas do porte de Werner Heisenberg, Eugene Wigner, Roger Penrose ou Erwin Schrodinger desenvolveram esse estranho aspecto quântico: O mundo é o que a gente vê. Até aqui a História foi mostrada como se as pessoas comuns tivessem um papel histórico quase irrelevante e essa afirmação diz que cada pessoa constrói o mundo com seu olhar. Isso quer dizer que as imensas forças econômicas e as estruturas sociais  que modelam o mundo não existem? Não, isso quer dizer que as pessoas precisam acreditar nelas para que existam. O dinheiro, esse imenso poder, nada mais é que uma crença, uma convenção, uma verdade intersubjetiva. Se deixarmos coletivamente de acreditar no valor de uma moeda, ela não valerá mais, isso é um fato histórico que aconteceu diversas vezes. Do mesmo modo, um general perverso só consegue afrontar cem recrutas armados porque eles acreditam que o general é poderoso. Eles e os oficiais que punirão os soldados se eles tentarem algo contra o general. Sim, o modo como olhamos o mundo é poderosíssimo.

Corroborando a importancia do Sr. João Ninguém ou da Sra. Maria Ninguém, tão caros ao pensamento da esquerda democrática, está o conceito físico de “salto quântico”. Aqueles mesmos elétrons que são matéria e energia ao mesmo tempo e que se configuram como realidade segundo nosso olhar - ou seja, são matéria no momento em que escolhemos olhá-los assim e são energia quando o vemos assim - eles “saltam” estranhamente. Os elétrons saltam de um orbital para outro quando recebem ou perdem energia. E seu salto pode acontecer com pequenas inserções de energia. Até aqui a História foi mostrada como se apenas as grandes forças tivessem possibilidade de fazer avançar o mundo – ou fazê-lo retroceder. Eis que a física quântica diz que uma grande mudança de estado não se dá necessariamente por um contínuo acúmulo de forças, mas pode ser uma mudança abrupta, complexa, que depende de muitas variáveis e que pode acontecer sem um “impulso maior”. Isso quer dizer que a qualquer momento eu ou você podemos fazer a diferença em uma mudança capital para o mundo, apenas porque somos “a gota d’água” que faltava pro salto histórico-quântico acontecer.

A essa responsabilidade histórica que cada pessoa tem para mudar o todo Amit Goswami deu o nome de “ativismo quântico”. Esse grande físico indiano radicado nos Estados Unidos nos fala constantemente de outra base conceitual quântica bastante “trivial”. É sobre a existencia de universos paralelos. Quando o famoso elétron salta entre um orbital e outro ele simplesmente desaparece. Nenhum instrumento conseguiu localizá-lo até hoje, depois de mais de um século de descoberta desse fato e depois de um desenvolvimento tecnológico abissal. Os físicos comuns e as sumidades pioneiras do tipo Niels Bohr ou Max Plank concordam que o elétron está em outra dimensão, e inclusive hoje se sabe que essas dimensões imateriais são muitas. Voltando à História, isso quer dizer que ela também está conectada com dimensões ainda não conhecidas, pois se expressa através da matéria que por sua vez é feita de elétrons que são matéria e energia e que as vezes dão um passeio por outras dimensões. Como iremos contar a influência histórica dessas outras dimensões? O Universo material-energético teria seus desígnios? Quais seriam eles?

Traz-se agora um outro princípio quântico segundo o qual tudo é um. Esse é um fundamento da ecologia e da percepção de que o que fazemos à Terra fazemos a nós mesmos. A realidade, além de interconectada diretamente, é também “não local” para a física quântica, ou seja, a conexão entre tudo que existe não é impedida pela distância. Tudo está, portanto, conectado e o movimento das asas de uma borboleta no Rio de Janeiro pode fazer chover em Pondicherry.  Em termos históricos, Einstein poderia ter dito que todos os processos são globais e que cada indivíduo está conectado e interfere no todo.  A construção da realidade inclui a vontade e ação de cada pessoa e um pequeno grupo pode propiciar um salto quântico, se as condições são dadas. Juntando a isso a ideia dos “desígnios do Universo”, pode-se olhar a História de diferentes maneiras e deduzir a direção que ela está tomando. Não seria a de um processo evolutivo espiralado, ou seja, com altos e baixos, em direção a mais igualdade e respeito aos direitos humanos, às minorias particularmente e uma maior liberdade de expressão das características de cada pessoa?.

Em tempos de Trump, de Temer e de alguns que querem prolongar o golpe, não parece que estejamos evoluindo, mas a História não pode ser olhada apenas contingencialmente, há que olhá-la a longo prazo. Como Hitler e outros monstros, esses também estão condenados ao limbo da História. O que é interessante é que, se a História seria influenciada pelos desígnios do Universo, o livre arbítrio humano e a imaturidade da nossa espécie dentro da história cósmica pode nos levar sempre a retrocessos. Em física quântica nada é certo, tudo são probabilidades e viver na incerteza é a arte dos físicos e deveria ser a de nós todo.a.s., para evoluírmos, mas isso é outra história.  Para a física quântica o real é o que  acontece quando todas as outras possibilidades colapsam.  E o “colapso de possibilidades” de Amit Goswami é construído pelo olhar e pela ação de cada um.a..

Na medida em que esses conhecimentos quânticos sobre a natureza da realidade causem mudanças profundas no olhar humano sobre o mundo, tudo vai mudar. Uma imensa evolução aconteceu no Renascimento quando o racionalismo mecanicista de Decartes e Newton se tornou a visão do mundo hegemônica. Construímos o conhecimento laico, a democracia representativa, o capitalismo que pagava salários aos trabalhadores, a independências das colônias, os direitos sociais e trabalhistas... Quando isso tudo está se desintegrando, um novo salto é necessário. Os novos marcos conceituais quânticos e seus elementos de criatividade podem abrir nosso imaginário sobre a interpretação da História nos ajudando a construí-la. Eles nos mostram que ela é uma construção coletiva onde nossos pensamentos, sentimentos e ações cotidianas serão tão importantes quanto as velhas grandes forças históricas, que continuam agindo.

Dois grandes pensadores de esquerda que já se foram tinham um pensamento “quântico”, cada um a seu modo. Se “ futuro é uma astronave que tentamos pilotar”, como diz Toquinho, precisamos de mapas, mas também de saber onde queremos ir. Eduardo Galeano falava de ter clareza da Utopia que buscamos, que será cada vez mais aperfeiçoada e portanto, distante, mas será sempre nossa guia. Antonio Gramsci  nos dizia que para prever o futuro necessitamos olhar a realidade de forma objetiva e ter, ao mesmo tempo, um projeto que queremos ver triunfar (se não estaríamos levando em consideração apenas o projeto dos poderosos desse mundo). Por fim, Edgar Morin, o grande pensador atual da complexidade, do terceiro incluído (a onda-partícula quântica), diz que não podemos desprezar os movimentos periféricos, aqueles que acontecem nos subterrâneos da sociedade e considerar apenas as grandes forças, pois o improvável aconteceu muitas vezes e o que era marginal tornou-se inúmeras vezes trinfante. Improváveis saltos quânticos em direção a mais democracia, ecologia e justiça são prováveis, sobretudo se pensarmos que  estamos indo em direção a uma civilização mais amorosa. E que “a história é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente, todo aquele que a negue”, como já dizia Milton Nascimento.

 

Esse texto foi publicado no jornal OUTRAS PALAVRAS. Se você quizer saber mais sobre o assnunto, leia outros textos relacionados ao paradigma quântico que publiquei no meu blog e que estão linkados abaixo.

https://cirandas.net/deboranunes/blog/um-novo-jeito-de-ver-e-antever-o-mundo-o-paradigma-quantico-e-ecologico

https://cirandas.net/deboranunes/blog/cidades-do-futuro-novos-paradigmas

 

 



Cidades que mudam, gente que vive melhor

September 2, 2018 12:07, by Débora Nunes - 0no comments yet

Cidades em transição A terra em minhas mãos julho 2016

Com grande lentidão, a compreensão da urgência de mudar a lógica da organização social, particularmente nas cidades, vem se aprofundando. Desde as primeiras reflexões sobre a finitude dos recursos da Terra, ainda nos anos sessenta do século passado, ao progressivo entendimento sobre os limites do crescimento econômico, até a tomada de medidas para diminuir o impacto da ação humana no planeta, foram-se algumas décadas. No novo milênio, ações se multiplicaram, mas atingem, por enquanto, pequeno número de pessoas. Conhecer melhor esses movimentos vanguardistas ajuda a disseminar experiências e a inspirar inovações. O movimento “Cidades em Transição” é um deles e seu foco é a melhoria da qualidade de vida urbana evitando o aprofundamento das mudanças climáticas em curso.

A ideia surgiu na pequena Totnes, na Inglaterra, em 2004, mesma cidade onde foi fundado o famoso Schumacker College, que ensina ecologia e novos paradigmas e homenageia o mentor da ideia “small is beautiful”. O professor de permacultura Rob Hopkins e seu amigo Naresh Giangrande convenceram conterrâneos a ajudá-los na iniciativa de transformar a cidade com discussões que aconteciam após sessões de cinema. Em 2006, o “Transition Towns Totnes” foi lançado como movimento que buscava reduzir drasticamente na cidade o uso de derivados de petróleo e todo tipo de emissão de CO2. Esse gás de efeito estufa é o maior inimigo do meio ambiente e sua emissão é uma consequência do uso excessivo de bens industrializados. As primeiras ações em Totnes foram a produção de alimentos orgânicos em hortas coletivas urbanas, a redução do consumo de energia e de água e a reciclagem de lixo na casa dos envolvidos.

Hoje o conceito de Transition Towns ganhou o respeito de instituições e governos e o movimento está implantado em 14 países. As Cidades em Transição mostram que as melhores soluções vêm do engajamento da própria população em mudar seu comportamento. Vê-se pequenas inciativas tendo grande impacto não só pelo menor desperdício e poluição, mas por envolver as comunidades em ações cooperativas que promovem amizades e sentimento de ser útil a si e ao mundo. A criação de jardins e pomares em terrenos abandonados, a organização do empréstimo de ferramentas e aparelhos de uso descontínuo, os mercados de bens usados, a produção de vegetais e frutas de forma cooperativa, a compostagem de resíduos orgânicos para produção de adubos para os jardins colaborativos, a organização de ateliers de consertos de bens e a criação de moedas locais são algumas das inciativas que ajudam a economizar dinheiro e a proteger a Natureza.

O envolvimento dos governos reforça as ações e lhes dá maior escala e maior impacto, como a construção de centrais de energia solar cooperativa, o desenvolvimento de redes de captação de águas de chuva em prédios públicos e privados, programas de consumo consciente em escolas e órgãos públicos, de reaproveitamento de alimentos em supermercado e feiras, de reflorestamento de nascentes, entre tantas outras iniciativas. Entretanto, sem o convencimento das comunidades, não é possível desenvolver soluções duradouras e os governos estão percebendo isso mais e mais, sobretudo os das pequenas cidades, como Totnes, onde tudo começou. A construção de cidades mais resistentes a crises econômicas e ecológicas, é um movimento horizontal, em que as pessoas se envolvem voluntariamente e acabam por reconfigurar a sociedade local e, consequentemente, por influenciar o mundo.

Rob Hopkins tornou-se uma referência, sobretudo após a publicação, que fez com Ben Brangwyn, do “Manual das Iniciativas de Transição”, no qual descreve como fazer coletivamente um plano de trabalho para desenvolver maior resiliência e solidariedade em cidades, bairros, coletivos. A resiliência (capacidade de um sistema em resistir a choques externos) consiste em construir maior autonomia das comunidades em face de dificuldades, e o Manual é facilmente acessível na internet, em várias línguas. Estudos mostram que todos os processos da Transição para modelos de vida mais ecológicos acabam por reforçar a economia do lugar, favorecendo empregos locais, melhorando a renda da comunidade e ajudando a superar a pobreza.

O movimento chegou ao Brasil em 2009 quando foram realizados “Treinamentos para a Transição” em vários estados. Com em outros lugares do mundo, as cidades e bairros que adotaram os objetivos do movimento estão trabalhando para mudar seu modelo de organização socioeconômico em direção a soluções mais sustentáveis e participativas. Isso implica, certamente, em resgatar o vínculo das pessoas com o lugar em que moram, mas também em buscar soluções para o desemprego e a violência, entendendo a complementaridade entre ações ambientais e sociais para o bem viver coletivo. O movimento segue tecendo sua história no âmbito nacional e, na dimensão internacional, a inclusão de experiências do movimento Transitions Towns no badalado filme francês “Demain” (“Amanhã”) contribuiu muito para sua divulgação. Como toda ação de inovação nesses tempos pré-colapso, inspirar é mais importante que conquistar novos adeptos, pois o que está em jogo é a construção de uma sociedade viável que depende de milhões de iniciativas de milhares de movimentos.